Alexander Blockx transformou o Madrid Open no torneio de afirmação de sua carreira. Em um circuito acostumado a buscar constantemente “a próxima promessa”, o jovem belga deu um passo além desse rótulo: deixou de ser apenas um nome de futuro para se tornar uma realidade no presente. Sua campanha até as quartas de final, marcada por vitórias sobre jogadores experientes e já consolidados, mostrou não só talento, mas maturidade tática, resistência mental e capacidade de adaptação em alto nível.
Madrid costuma ser um torneio peculiar dentro da gira europeia de saibro. A altitude da capital espanhola torna as condições mais rápidas do que em Monte Carlo ou Roma, favorecendo jogadores agressivos, que batem reto na bola e conseguem impor ritmo desde o fundo de quadra. Nem todo especialista em terra batida se sente confortável ali. Para Blockx, no entanto, o cenário pareceu ideal.
A campanha histórica de Blockx
A campanha começou com um teste de caráter diante de Cristian Garín. O chileno, jogador acostumado ao saibro e dono de repertório sólido nesse piso, venceu o primeiro set e parecia encaminhar a classificação. Foi o momento em que Blockx mostrou a primeira grande virtude da semana: a resiliência.
Em vez de se perder emocionalmente, ajustou o posicionamento, passou a ser mais agressivo nas devoluções e virou a partida em três sets. Para um atleta jovem, estreando em fases importantes de Masters 1000, esse tipo de reação costuma valer tanto quanto uma vitória técnica.
Na segunda rodada, o roteiro se repetiu contra Brandon Nakashima. Mais uma vez saiu atrás, perdeu o primeiro set e precisou reconstruir o jogo. O estadunidense oferece desafios diferentes de Garín: jogo mais reto, saque eficiente e golpes rápidas. Blockx respondeu elevando a consistência dos ralis e escolhendo melhor os momentos para atacar. A nova virada reforçou uma impressão importante: não se tratava de acaso ou de uma boa tarde isolada. Havia recursos competitivos reais sustentando a campanha.
Mas foi na terceira rodada que Madrid passou a olhar para ele com outros olhos. Diante de Felix Auger-Aliassime, então um dos cabeças de chave e nome frequente nas fases decisivas de grandes torneios, Blockx conquistou o resultado de maior impacto da carreira até aquele momento. Vencer um jogador de elite exige mais do que coragem. Exige convicção para manter o plano de jogo mesmo sob pressão.
O tie-break do primeiro set foi um exemplo dessa maturidade. Em partidas desse porte, é comum que jovens jogadores sintam o peso do momento e recuem. Blockx fez o contrário. Jogou os pontos decisivos com iniciativa, variando direções e sustentando intensidade. Depois de abrir vantagem emocional, controlou o segundo set com autoridade.
Nas oitavas de final, o adversário era Francisco Cerúndolo, um jogador cada vez mais respeitado no saibro e acostumado a construir pontos longos, explorando paciência e mudanças de altura. Era, talvez, o teste mais específico para medir se o belga poderia competir de igual para igual contra especialistas da superfície. A resposta veio em dois atos.
No primeiro set, equilíbrio total. Cerúndolo tentou alongar trocas e tirar velocidade do rival. Blockx aceitou o desafio sem abandonar sua identidade. Salvou momentos delicados, venceu um tie-break apertado e emocionalmente desgastante. No segundo set, com a confiança em alta, dominou por 6-2. Esse padrão de crescer ao longo das partidas se repetiu diversas vezes na campanha e ajuda a explicar seu sucesso.
O que explica a campanha de Blockx?
Taticamente, o torneio de Blockx foi construído sobre três pilares. O primeiro deles foi a agressividade. Ele não atacou de forma irresponsável. Soube escolher bolas, encurtar pontos quando necessário e acelerar principalmente após abrir a quadra. Em Madrid, onde a bola viaja mais rápido, esse discernimento faz enorme diferença.
O segundo pilar foi a qualidade mental. Em duas rodadas saiu atrás no placar e virou. Em outras, precisou administrar tiebreaks e momentos de pressão contra jogadores mais experientes. Não houve sinais claros de ansiedade ou precipitação. Isso chama atenção porque, no tênis, a diferença entre talento e resultado frequentemente passa pela gestão emocional.
O terceiro fator foi a leitura de jogo. Blockx mostrou capacidade de adaptar padrões conforme o rival. Contra Garín, precisou insistir. Contra Nakashima, variou ritmo. Contra Auger-Aliassime, impôs intensidade. Contra Cerúndolo, soube dosar paciência e agressão. Essa versatilidade costuma separar jogadores promissores daqueles destinados ao topo.
O Masters de Madrid deste ano parecia aberto como poucos. A lesão de Carlos Alcaraz retirou do torneio seu principal favorito e deixou uma pergunta no ar: quem aproveitaria o espaço deixado pelo astro espanhol? A expectativa natural apontava para um integrante do top 5, alguém já consolidado e pronto para herdar protagonismo.
Só que a resposta veio de onde quase ninguém olhava. Não foi um favorito tradicional, nem um nome estabelecido. Foi Alexander Blockx. Em uma semana desenhada para reafirmar hierarquias, Madrid acabou revelando um novo competidor para desafiá-las.
(Foto: Divulgação/ATP)