O domínio de Jannik Sinner no circuito masculino já não pode mais ser tratado apenas como uma grande fase. O italiano vive um momento de controle absoluto no tênis mundial e sua vitória sobre Andrea Pellegrino no Masters 1000 de Roma serviu para reforçar uma sensação cada vez mais forte dentro do esporte: hoje, o circuito gira ao redor dele.
Ao alcançar a marca de 31 vitórias consecutivas em torneios Masters 1000, Sinner igualou um recorde estabelecido por Novak Djokovic em 2011, justamente na temporada em que o sérvio iniciou uma de suas eras mais dominantes. A coincidência estatística não é apenas simbólica. Ela ajuda a dimensionar o tamanho do momento vivido pelo número 1 do mundo.
Sinner está controlando o seu destino nos torneios
Mais do que os resultados, impressiona a maneira como Sinner vem controlando partidas e torneios. Contra Pellegrino, o italiano assumiu o domínio desde o primeiro game, quebrando o saque logo na abertura e neutralizando qualquer possibilidade de equilíbrio emocional do adversário. O roteiro vem se repetindo constantemente: intensidade desde os primeiros pontos, agressividade controlada do fundo de quadra e uma capacidade quase cirúrgica de administrar ritmo.
O dado de 19 vitórias em 19 jogos contra compatriotas também mostra o quanto Sinner se tornou uma figura inalcançável até mesmo dentro da própria escola italiana, que atravessa uma geração extremamente forte. Em outro contexto, Lorenzo Musetti, Luciano Darderi ou Matteo Arnaldi seriam protagonistas naturais do tênis italiano. Mas o nível alcançado por Sinner criou uma distância técnica e mental considerável.
E talvez seja justamente o aspecto mental o fator mais impressionante dessa sequência. O próprio italiano destacou isso após a vitória ao afirmar que “é a mente que faz a diferença”. A declaração resume bem o estágio atual de sua carreira. Tecnicamente, Sinner já era um jogador de elite há algumas temporadas. O salto definitivo aconteceu quando passou a sustentar intensidade emocional e concentração durante semanas consecutivas, independentemente da superfície ou do tamanho do torneio.
A ausência de Carlos Alcaraz em Roma por lesão no punho apenas aumenta a sensação de que o circuito masculino atravessa um período de domínio absoluto do italiano. Hoje, poucos jogadores parecem possuir ferramentas reais para desestabilizá-lo em partidas longas. E mesmo quando existe equilíbrio técnico, a consistência mental de Sinner acaba fazendo diferença.
Esse cenário naturalmente amplia as expectativas para Roland Garros. Durante muito tempo, existia uma percepção de que o saibro seria justamente a superfície mais vulnerável do italiano, especialmente pela necessidade de construção mais paciente dos pontos. Mas o que se vê atualmente é um jogador muito mais confortável nas trocas longas, fisicamente resistente e extremamente maduro na escolha dos momentos de aceleração.
Se conquistar Roma, Sinner atingirá um feito que apenas Djokovic alcançou: vencer todos os nove torneios Masters 1000 do circuito. Isso aos 24 anos, em uma carreira que ainda parece distante do auge físico completo. A velocidade com que ele vem acumulando marcas históricas começa a alterar até mesmo a forma como sua geração será analisada no futuro.
Porque, durante muito tempo, o debate da nova geração girou em torno de Alcaraz como sucessor natural do protagonismo deixado pelo Big Three. Hoje, o cenário parece mais equilibrado. Enquanto o espanhol segue oferecendo explosão, criatividade e genialidade ofensiva, Sinner se transformou em algo talvez ainda mais difícil de enfrentar: uma máquina de consistência.
Sua sequência atual de 26 vitórias consecutivas reforça isso. Não se trata apenas de talento bruto, mas de um jogador que praticamente não oferece oscilações emocionais durante partidas. Em um esporte tão dependente da estabilidade mental quanto o tênis, essa característica se torna devastadora.
Outro aspecto importante dessa ascensão está na maneira como Sinner passou a carregar o tênis italiano. O ambiente no Foro Italico durante suas partidas evidencia isso claramente. As arquibancadas tomadas pela cor laranja, símbolo associado ao jogador, representam não apenas apoio popular, mas também uma espécie de identificação nacional raramente vista desde os tempos de Adriano Panatta.
A pressão por encerrar o jejum italiano em Roma, que dura 50 anos, poderia facilmente se transformar em peso emocional. Mas Sinner parece cada vez mais confortável ocupando esse lugar de grande referência esportiva do país.
O circuito precisa se adaptar
Enquanto isso, o restante do circuito tenta acompanhar o ritmo. Alexander Zverev voltou a oscilar em momentos decisivos. Casper Ruud continua competitivo no saibro, mas ainda parece um nível abaixo dos principais favoritos. E nomes emergentes como Rafael Jodar começam a surgir, mas ainda distantes da estabilidade exigida para disputar títulos grandes de forma contínua.
O curioso é que Sinner construiu esse domínio em uma era teoricamente mais equilibrada. Após a saída gradual do auge competitivo de Djokovic, Rafael Nadal e Roger Federer, esperava-se um circuito mais aberto. Mas o italiano rapidamente começou a criar uma hierarquia própria.
Claro que o tênis segue imprevisível. Uma lesão, uma queda física ou uma simples oscilação técnica podem alterar cenários rapidamente. Mas neste momento, a impressão é clara: Jannik Sinner entrou definitivamente em sua própria era dentro do tênis mundial.
E o mais assustador para seus adversários talvez seja justamente isso: ele ainda parece longe de ter alcançado seu limite técnico completo.
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