No futebol, é comum que treinadores que realizam grandes trabalhos em equipes de menor expressão sejam apontados como candidatos naturais aos gigantes da Premier League. Afinal, se um técnico consegue superar expectativas em clubes com menos recursos, a lógica sugere que ele terá ainda mais sucesso ao comandar elencos milionários.
Mas a realidade costuma ser bem diferente. Ao longo dos últimos anos, diversos treinadores chegaram aos chamados clubes do “Big Six” — Arsenal, Chelsea, Liverpool, Manchester City, Manchester United e Tottenham — cercados de expectativas e acabaram enfrentando enormes dificuldades na Premier League.
O caso mais recente envolve Andoni Iraola. Após conduzir o Bournemouth a uma campanha histórica e garantir uma vaga em competições europeias, o espanhol está muito próximo de assumir o Liverpool. A possível mudança reacende um debate importante: por que tantos treinadores fracassam quando dão esse salto na carreira?
Histórico mostra que a transição raramente é simples
Os exemplos são numerosos. Em 2013, David Moyes deixou o Everton para substituir Sir Alex Ferguson no Manchester United. O escocês chegava com enorme prestígio após mais de uma década de trabalho consistente em Liverpool, mas durou apenas dez meses no cargo.
Situação semelhante aconteceu com Roy Hodgson. Depois de levar o Fulham à final da Liga Europa, ele assumiu o Liverpool em 2010. A passagem, porém, foi extremamente curta. Apenas seis meses depois, o treinador já estava fora do clube.
Nos anos seguintes, outros profissionais passaram pelo mesmo problema. Graham Potter trocou o Brighton pelo Chelsea na Premier League, Nuno Espírito Santo deixou o Wolverhampton para assumir o Tottenham também na Premier League e Thomas Frank saiu do Brentford para comandar os Spurs. Nenhum deles conseguiu se estabelecer por muito tempo.
Os números ajudam a explicar o cenário. A maioria desses treinadores sequer completou duas temporadas nos novos clubes. Em alguns casos, a pressão foi tão intensa que a demissão aconteceu antes mesmo do encerramento da primeira campanha.
Pressão muda completamente de patamar
Uma das principais razões para essa dificuldade está na mudança drástica de expectativa.
Quando um treinador trabalha em clubes como Bournemouth, Brentford ou Brighton, normalmente o objetivo principal é alcançar estabilidade na Premier League. Qualquer classificação para torneios continentais acaba sendo vista como um bônus extraordinário.
Já nos gigantes da Premier League a situação é completamente diferente. Não basta jogar bem ou apresentar evolução. O treinador precisa vencer constantemente e disputar títulos em todas as competições.
Uma sequência de três ou quatro resultados ruins, que poderia ser considerada normal em equipes médias, transforma-se em uma crise quando acontece em clubes como Liverpool ou Manchester United, ainda mais na Premier League.
Além disso, existe uma exposição muito maior. Cada decisão tática, contratação ou substituição é analisada por milhões de torcedores e pela imprensa internacional. O ambiente se torna muito mais exigente.
Mais jogos e menos tempo para trabalhar
Outro fator importante é o calendário da Premier League.
Clubes do Big Six normalmente disputam Premier League, Copa da Inglaterra, Copa da Liga Inglesa e competições europeias. Isso significa uma quantidade significativamente maior de partidas ao longo da temporada.
Enquanto equipes de médio porte conseguem ter semanas inteiras para treinamentos e ajustes táticos, os gigantes frequentemente entram em campo a cada três dias.
Essa rotina reduz o tempo disponível para implementar ideias, corrigir problemas e desenvolver jogadores. Muitos treinadores que se destacaram pela organização tática acabam encontrando dificuldades justamente porque não possuem o mesmo espaço para trabalhar conceitos em campo.
A gestão física do elenco também passa a ser muito mais complexa. Lesões, rodízios e controle de carga tornam-se questões fundamentais para o sucesso da temporada.
Alguns conseguiram chegar perto do sucesso
Apesar das dificuldades, alguns treinadores conseguiram apresentar resultados positivos após a mudança.
Harry Redknapp elevou o Tottenham a um novo patamar e levou o clube à Liga dos Campeões. Brendan Rodgers ficou muito próximo de conquistar a Premier League com o Liverpool na temporada 2013/14.
Mauricio Pochettino talvez seja o principal exemplo de sucesso relativo. Depois de se destacar no Southampton, o argentino assumiu o Tottenham e transformou os Spurs em uma das equipes mais competitivas da Europa.
Sob seu comando, o clube brigou pelo título inglês e alcançou uma histórica final de Liga dos Campeões em 2019. Apesar disso, nem mesmo ele conseguiu conquistar um troféu durante sua passagem.
Esse detalhe chama atenção. Desde que o atual conceito de Big Six ganhou força na Premier League, nenhum treinador que saiu diretamente de outro clube da elite inglesa para um desses gigantes conseguiu conquistar um título de grande expressão.
O desafio que espera Andoni Iraola
É justamente esse histórico que torna a possível chegada de Andoni Iraola ao Liverpool tão interessante.
O treinador espanhol construiu uma reputação extremamente positiva no Bournemouth. Sua equipe apresentou futebol ofensivo, competitivo e conseguiu resultados acima das expectativas.
No entanto, assumir o Liverpool representa um desafio completamente diferente. O que hoje é considerado um excelente trabalho precisará ser transformado em títulos, classificações para a Liga dos Campeões e campanhas consistentes em múltiplas competições.
A cobrança será muito maior e a margem para erro praticamente inexistente.

Por outro lado, Iraola chega em um momento no qual muitos acreditam que possui maturidade suficiente para enfrentar esse cenário. Sua capacidade de adaptação, liderança e organização tática serão colocadas à prova em um dos ambientes mais exigentes do futebol mundial.
A história recente mostra que o salto entre um clube médio da Premier League e um integrante do Big Six está longe de ser automático. Diversos treinadores talentosos fracassaram nessa tentativa. Agora, caberá a Iraola descobrir se conseguirá quebrar uma tendência que se tornou cada vez mais evidente no futebol inglês moderno.