Uma classificação histórica em meio a uma das maiores crises do planeta
A classificação do Haiti para a Copa do Mundo de 2026 é muito mais do que um resultado esportivo. Trata-se de uma conquista que carrega décadas de dificuldades sociais, instabilidade política e desafios econômicos enfrentados por um dos países mais pobres do mundo. Pela primeira vez desde a Copa de 1974, a seleção haitiana garantiu presença no principal torneio do futebol mundial, encerrando uma espera de 52 anos.
O feito se torna ainda mais impressionante quando se observa o contexto em que a seleção está inserida. Durante toda a campanha das Eliminatórias, o Haiti não disputou sequer uma partida em seu próprio território. A situação de segurança no país impossibilitou a realização de jogos internacionais em Porto Príncipe, capital que há anos sofre com o avanço de grupos criminosos armados. Atualmente, grande parte da cidade está sob influência de gangues, tornando extremamente difícil a realização de eventos esportivos e até mesmo a circulação de ajuda humanitária.
A crise haitiana vai muito além do futebol. Desde o assassinato do presidente Jovenel Moise, em 2021, o país vive uma profunda instabilidade política. Dados citados pela Organização das Nações Unidas apontam que mais de 16 mil pessoas foram mortas nos últimos cinco anos em decorrência da violência relacionada às gangues. Além disso, aproximadamente 80% da população vive abaixo da linha da pobreza, enquanto milhares de famílias enfrentam dificuldades para acessar serviços básicos de saúde, alimentação e educação.
Nesse cenário, a classificação para a Copa do Mundo ganhou um significado especial para milhões de haitianos. O futebol passou a representar uma rara oportunidade de união nacional e orgulho coletivo em um período marcado por notícias negativas e incertezas.
Uma seleção espalhada pelo mundo

Outro aspecto que torna a campanha haitiana única é a composição de seu elenco. Dos 26 jogadores convocados para a Copa do Mundo, apenas dez nasceram e foram formados no próprio Haiti. A maioria dos atletas cresceu no exterior, reflexo direto do intenso fluxo migratório que marcou a história recente do país.
Doze jogadores nasceram na França, filhos de imigrantes haitianos. Outros nasceram nos Estados Unidos, Canadá e Suíça. Essa diáspora ajudou a fortalecer a seleção nacional, reunindo atletas que cresceram em estruturas esportivas mais desenvolvidas, mas que mantiveram vínculos familiares e emocionais com o Haiti.
O principal exemplo dessa realidade é o atacante Frantzdy Pierrot. Nascido em Cap-Haitien, ele se mudou ainda jovem para os Estados Unidos para reencontrar o pai, que havia emigrado em busca de melhores condições de vida para a família. Após passar pelo futebol universitário americano, construiu carreira profissional em países como Bélgica, França, Israel, Grécia e Turquia, tornando-se um dos principais nomes da seleção.
A equipe também reúne histórias marcantes de superação. O lateral Wilguens Paugain, por exemplo, precisou trabalhar como entregador de pizzas após sofrer uma grave lesão no tendão de Aquiles. Já o zagueiro Ricardo Adé viveu momentos dramáticos ao ser enganado por um empresário que lhe prometeu uma oportunidade profissional na Tailândia. Ao chegar ao país asiático, descobriu que tudo era mentira e passou dias dormindo na praia sem dinheiro para retornar.
Outro caso impressionante envolve o atacante Duckens Nazon. Em 2025, durante um período de tensão no Irã, onde atuava profissionalmente, ele precisou viajar cerca de 20 horas de carro para deixar o país. Ao chegar à fronteira com o Azerbaijão, enfrentou dificuldades para comprovar sua identidade e teve de utilizar a internet para demonstrar que realmente era jogador de futebol profissional.
O elo inesperado com a Itália e o legado de 1974

A história da seleção haitiana também possui uma curiosa conexão com a Itália. O único jogador convocado que atua no futebol local é o volante Woodensky Pierre, formado no Ascoli FC Haiti. O clube, que trabalha principalmente com categorias de base e projetos sociais, recebeu esse nome após um grupo de haitianos visitar a cidade italiana de Ascoli nos anos 1990 e se encantar com a hospitalidade da região.
A instituição não possui equipe profissional. Seu principal objetivo é retirar jovens das ruas e oferecer oportunidades por meio do esporte. Em um país marcado pela violência e pela falta de perspectivas para grande parte da juventude, projetos desse tipo desempenham papel fundamental na formação social de crianças e adolescentes.
Mas a ligação italiana vai ainda mais longe. O último treinador a classificar o Haiti para uma Copa do Mundo foi o italiano Ettore Trevisan, responsável pela campanha que levou a seleção ao Mundial de 1974. Na época, o país era governado pela ditadura de Jean-Claude Duvalier, conhecido como “Baby Doc”.
Trevisan encontrou uma realidade extremamente difícil. Muitos jogadores viviam em condições precárias, sem alimentação adequada e sem estrutura para treinamentos. Em entrevistas posteriores, o treinador contou que precisou trabalhar não apenas a parte técnica da equipe, mas também a autoestima dos atletas, que acreditavam estar condenados a perder para seleções mais poderosas.
Apesar de conduzir o Haiti à classificação histórica, Trevisan acabou afastado do cargo antes do início da Copa por fazer declarações críticas sobre as condições sociais do país. Ainda assim, seu trabalho permaneceu na memória do futebol haitiano como um dos maiores feitos esportivos da história nacional.
Hoje, mais de meio século depois, o técnico Sébastien Migné tenta escrever um novo capítulo dessa trajetória. O Haiti chega à Copa de 2026 como uma das seleções menos favoritas ao título, mas também como uma das histórias mais emocionantes do torneio. Em um país que enfrenta desafios enormes dentro e fora de campo, o simples fato de voltar ao Mundial já representa uma vitória. Para milhões de haitianos espalhados pelo mundo, a seleção se transformou em um símbolo de resistência, esperança e identidade nacional, mostrando que o futebol pode ser capaz de unir um povo mesmo quando ele está distante de sua própria casa.
(Foto: Reprodução/Fifa.com)