Ser campeã do mundo é um privilégio que poucas seleções experimentaram. Defender esse título, porém, é um desafio ainda maior. A Argentina chega à Copa do Mundo de 2026 carregando o peso de ser a atual campeã e sabendo que qualquer resultado diferente de uma nova conquista será visto por muitos como uma decepção.
Depois da histórica campanha no Catar em 2022, a equipe comandada por Lionel Scaloni manteve praticamente a mesma base que conquistou o tricampeonato mundial. A continuidade do trabalho foi recompensada com o título da Copa América de 2024 e uma campanha tranquila nas Eliminatórias Sul-Americanas. Esses resultados consolidaram a Argentina como uma das principais favoritas ao troféu.
No entanto, a trajetória da Albiceleste rumo ao Mundial não é cercada apenas de otimismo. A seleção chega ao torneio envolvida em algumas questões que podem influenciar seu desempenho, desde a pressão por defender o título até a despedida de Lionel Messi, além de dúvidas sobre o nível dos adversários enfrentados recentemente e as constantes especulações de mercado envolvendo seus principais jogadores.
O desafio de defender um título que poucos conseguiram manter

A história mostra que conquistar Copas do Mundo consecutivas é uma tarefa extremamente complicada. Apenas Itália e Brasil conseguiram repetir o feito ao longo da história da competição, sendo que a última vez ocorreu em 1962, quando os brasileiros conquistaram o bicampeonato mundial.
Desde então, diversas seleções tentaram defender seu título e fracassaram. Algumas sequer conseguiram passar da fase de grupos. Isso ajuda a explicar o tamanho do desafio que a Argentina terá pela frente nos Estados Unidos, Canadá e México.
O cenário, porém, é favorável. Diferentemente de muitos campeões que passaram por grandes reformulações após levantar a taça, a Argentina manteve sua estrutura praticamente intacta. Lionel Scaloni continua no comando técnico, enquanto boa parte dos jogadores que brilharam no Catar seguem desempenhando papéis fundamentais.
A defesa talvez não possua o mesmo brilho individual de outras potências mundiais, mas continua apresentando a tradicional competitividade sul-americana. No meio-campo, jogadores como Enzo Fernández, Alexis Mac Allister e Rodrigo De Paul garantem equilíbrio entre criatividade e intensidade. No ataque, a combinação entre Lionel Messi, Julián Álvarez e Lautaro Martínez continua sendo uma das mais respeitadas do futebol internacional.
Essa estabilidade pode ser um diferencial importante para uma equipe que busca entrar para um grupo extremamente seleto da história das Copas.
A última Copa do Mundo de Lionel Messi

Nenhuma história envolvendo a Argentina desperta mais atenção do que a despedida de Lionel Messi dos Mundiais.
Aos 38 anos, o camisa 10 disputa provavelmente sua última Copa do Mundo. Após finalmente conquistar o título que faltava em sua carreira em 2022, Messi retorna ao torneio sem a pressão que o acompanhou durante tantos anos.
Se antes existia uma cobrança constante para que liderasse a Argentina rumo ao título mundial, agora sua trajetória já está eternizada entre as maiores da história do esporte. Isso pode representar uma vantagem para a equipe.
Sem o peso da obrigação, Messi e seus companheiros podem atuar com mais liberdade e tranquilidade. Ao mesmo tempo, existe a possibilidade de uma leve perda de intensidade competitiva por parte de um grupo que já alcançou o maior objetivo possível.
Além da busca pelo bicampeonato, Messi também tem objetivos individuais. O astro ainda pode se tornar o maior artilheiro da história das Copas do Mundo. Para isso, precisa marcar mais quatro gols e ultrapassar o alemão Miroslav Klose.
O fato de a competição ser disputada na América do Norte também adiciona um elemento especial. Atualmente defendendo o Inter Miami, Messi conhece bem o ambiente e terá a oportunidade de encerrar sua trajetória em Mundiais atuando em um território que se tornou sua casa nos últimos anos.
A falta de testes contra adversários de elite gera dúvidas
Apesar dos excelentes resultados recentes, existe um ponto que gera certa preocupação entre os observadores da seleção argentina.
Após encerrar as Eliminatórias Sul-Americanas na liderança, a equipe passou um longo período sem enfrentar seleções de alto nível. Os amistosos realizados nos últimos meses foram contra adversários considerados tecnicamente inferiores, como Porto Rico, Angola, Mauritânia, Zâmbia, Honduras e Islândia.
A Argentina venceu todos esses compromissos, mas os resultados pouco ajudaram a medir o verdadeiro nível da equipe diante dos principais candidatos ao título.
Essa ausência de confrontos contra seleções como França, Espanha ou Inglaterra cria uma pequena incógnita. Embora a qualidade do elenco seja inquestionável, existe uma diferença significativa entre dominar adversários medianos e enfrentar equipes acostumadas a disputar as fases decisivas das grandes competições.
A tendência é que a fase de grupos também não ofereça grandes dificuldades. A Argentina terá pela frente Argélia, Áustria e Jordânia, seleções que teoricamente estão abaixo do nível da campeã mundial.
O verdadeiro teste deve acontecer apenas nas fases eliminatórias.
As transferências podem gerar distrações durante o torneio

Outro fator que pode influenciar o ambiente da seleção argentina está fora das quatro linhas.
A Copa do Mundo acontecerá simultaneamente à movimentada janela de transferências do futebol europeu, e vários jogadores da Albiceleste aparecem constantemente ligados a possíveis negociações.
Julián Álvarez desperta interesse de gigantes do futebol espanhol. Enzo Fernández também aparece frequentemente em rumores envolvendo grandes clubes da Europa. Cristian Romero, Emiliano Martínez, Nico Paz e Alexis Mac Allister são outros nomes que convivem com especulações sobre mudanças de equipe.
Embora jogadores de alto nível estejam acostumados com esse tipo de situação, é impossível ignorar completamente o impacto que essas negociações podem causar.
Questões contratuais, propostas milionárias e decisões sobre o futuro profissional podem gerar distrações em um momento que exige concentração máxima.
Ainda assim, a Argentina possui um histórico recente de excelente ambiente interno e liderança forte dentro do grupo, fatores que podem ajudar a minimizar qualquer interferência externa.
Com uma geração experiente, um treinador consolidado, a despedida de Lionel Messi dos Mundiais e a missão de defender o título conquistado no Catar, a Argentina chega à Copa do Mundo de 2026 como uma das protagonistas do torneio. Resta saber se a atual campeã conseguirá transformar toda essa expectativa em mais um capítulo histórico para o futebol argentino.