A Copa do Mundo de 2026 está proporcionando um espetáculo ofensivo raro até mesmo para os padrões do maior torneio de futebol do planeta. Com apenas 33 partidas disputadas, a competição já ultrapassou a marca de 100 gols, tornando-se a edição mais rápida a atingir esse número desde a Copa do Mundo de 1958.
O gol histórico foi marcado por Cody Gakpo na vitória da Holanda por 5 a 1 sobre a Suécia. Com isso, o torneio chegou a 102 gols em apenas 33 jogos, superando com folga os números registrados nas últimas edições. Para efeito de comparação, a Copa do Catar, em 2022, contabilizava 83 gols no mesmo estágio da competição. Em 2018, na Rússia, eram 88 gols, enquanto a Copa do Brasil, em 2014, tinha registrado 97.
Os números impressionam e levantam uma questão inevitável: por que a Copa do Mundo de 2026 está sendo tão goleadora?
Diversos fatores ajudam a explicar esse fenômeno, desde mudanças estruturais no torneio até questões físicas, técnicas e táticas que estão influenciando diretamente o comportamento das partidas.
O novo formato e as seleções estreantes ajudam a explicar o cenário

Uma das primeiras explicações passa pela ampliação da Copa do Mundo.
Pela primeira vez na história, o torneio conta com 48 seleções e 104 partidas. A expansão abriu espaço para países que jamais haviam participado do Mundial, como Cabo Verde, Curaçao, Jordânia e Uzbequistão.
Naturalmente, a presença de equipes menos tradicionais gera discussões sobre o equilíbrio técnico da competição. Curaçao, por exemplo, sofreu uma goleada por 7 a 1 para a Alemanha em sua estreia. O Canadá também aplicou um contundente 6 a 0 sobre o Catar.
Apesar disso, o impacto não parece ser tão grande quanto muitos imaginavam.
Cabo Verde conseguiu empatar sem gols com a Espanha, campeã mundial em 2010. Jordânia e Uzbequistão perderam seus jogos de estreia por apenas 3 a 1. Isso mostra que a diferença entre as seleções ainda existe, mas não tem sido suficiente para explicar sozinha o volume de gols registrado.
Além disso, apenas um jogo terminou empatado sem gols após as primeiras 33 partidas da competição, dado que reforça o caráter extremamente ofensivo deste Mundial.
A bola Trionda está causando dificuldades aos goleiros

Outro elemento que ganhou destaque é a nova bola utilizada pela Adidas, chamada Trionda.
Diversos goleiros e especialistas apontaram dificuldades para interpretar a trajetória da bola durante os jogos. Chutes de longa distância, desvios inesperados e mudanças bruscas de direção têm sido observados com frequência.
O exemplo mais marcante até agora foi o gol de Kylian Mbappé contra Senegal, em uma finalização de aproximadamente 27 metros. O francês marcou aquele que se tornou o gol de maior distância da competição.
Além dele, Yasin Ayari, Connor Metcalfe e Ismael Saibari também marcaram gols de fora da área em situações semelhantes.
O ex-goleiro inglês Joe Hart comentou que Jordan Pickford foi surpreendido pela velocidade da bola no gol de empate da Croácia contra a Inglaterra. Já Paul Robinson afirmou que a Trionda apresenta comportamentos que nem sempre seguem aquilo que os goleiros esperam.
A situação lembra a famosa Jabulani, bola utilizada na Copa do Mundo de 2010. Na época, diversos goleiros reclamaram das trajetórias imprevisíveis, e o torneio terminou com 26 gols marcados de fora da área.
Até o momento, mais de dez gols desta Copa já foram anotados em finalizações de longa distância, além de vários outros surgidos após rebotes provocados por defesas incompletas dos goleiros.
O desgaste físico está abrindo espaços

Outro fator fundamental está relacionado ao desgaste físico.
A atual Copa apresenta uma média superior a três gols por partida, muito acima da registrada em algumas edições recentes. Ao mesmo tempo, quase 30% dos gols estão sendo marcados nos 15 minutos finais dos jogos.
Esse dado sugere que as equipes estão encontrando cada vez mais espaços conforme as partidas avançam.
O calor presente em diversas cidades-sede dos Estados Unidos, México e Canadá contribui para aumentar o desgaste dos atletas. Com menos energia disponível, os erros defensivos tornam-se mais frequentes.
A derrota da Tunísia por 5 a 1 para a Suécia exemplifica esse cenário. Os tunisianos cometeram seis erros que resultaram em finalizações adversárias, sendo que quatro deles terminaram em gols.
Quando o cansaço se acumula, a organização defensiva sofre. E em um torneio com tantos jogadores talentosos, qualquer falha pode ser fatal.
As pausas para hidratação e os craques em grande fase

As pausas obrigatórias para hidratação também podem estar influenciando os números.
Embora tenham sido criadas para combater os efeitos do calor, elas se transformaram em verdadeiros tempos técnicos. Durante os três minutos de interrupção, treinadores ajustam posicionamentos, discutem substituições e reorganizam suas equipes.
Segundo o técnico suíço Murat Yakin, as pausas permitem inclusive mostrar imagens e corrigir problemas observados durante a partida.
Mas talvez o principal motivo para a explosão ofensiva seja a excelente fase vivida pelas maiores estrelas do futebol mundial.
Lionel Messi já marcou três gols. Kylian Mbappé soma dois. Vinícius Júnior balançou as redes nos dois jogos disputados pelo Brasil. Erling Haaland marcou duas vezes pela Noruega. Harry Kane também fez dois gols pela Inglaterra.
Diferentemente de outras competições internacionais, muitos desses jogadores chegaram ao torneio em condições físicas ideais.
Thomas Frank destacou justamente esse aspecto ao lembrar que vários craques costumam disputar grandes torneios desgastados após temporadas longas. Desta vez, porém, nomes como Messi, Haaland e Kane parecem estar em excelente forma.
O ex-zagueiro Micah Richards resumiu bem o cenário ao afirmar que os atacantes desta Copa atuam com enorme confiança e parecem entrar em campo acreditando que vão marcar gols.
Essa combinação entre estrelas inspiradas, desgaste físico crescente, nova bola, pausas estratégicas e um torneio expandido criou o ambiente perfeito para uma das Copas do Mundo mais ofensivas da história. Se o ritmo continuar o mesmo, a edição de 2026 poderá terminar não apenas com recordes de audiência e participação, mas também como uma das mais goleadoras que o futebol já viu.