A sensação dentro da Honda em sua nova parceria com a Aston Martin lembra, em alguns aspectos, o cenário vivido quando a fabricante japonesa retornou à Fórmula 1 ao lado da McLaren em 2015. O baixo desempenho e os problemas de confiabilidade apresentados no início da temporada de 2026 são semelhantes aos enfrentados naquele período.
Entretanto, a forma como a Honda reagiu às dificuldades no passado serve como motivo de esperança. Após encarar um começo complicado com a McLaren, a empresa transferiu sua parceria para a Red Bull e, ao longo dos anos seguintes, desenvolveu uma das unidades de potência mais competitivas do grid, conquistando vitórias e títulos mundiais com Max Verstappen.
A grande questão agora é entender como a Honda passou de candidata a campeonatos com a Red Bull para ocupar as últimas posições do grid ao lado da Aston Martin em tão pouco tempo. Em entrevista exclusiva, o presidente da Honda Racing Corporation (HRC), Koji Watanabe, explicou que o contexto atual é completamente diferente daquele vivido na parceria com a Red Bull.
Segundo ele, os regulamentos atuais são extremamente complexos. Além disso, a colaboração com a Aston Martin é nova, assim como os parceiros envolvidos no projeto. O combustível é fornecido pela Aramco, enquanto os lubrificantes são desenvolvidos pela Valvoline, empresas com as quais a Honda não havia trabalhado anteriormente neste contexto.
Watanabe destacou ainda que a decisão da Honda de deixar a Fórmula 1 no final de 2021 teve impacto direto na situação atual. Embora a fabricante tenha continuado prestando suporte à Red Bull até o encerramento do ciclo anterior de motores, a decisão de retornar oficialmente apenas 18 meses depois criou um atraso significativo no desenvolvimento.
Durante o período de ausência, a maior parte dos engenheiros foi redistribuída para outros projetos do grupo Honda, ligados à produção em massa e ao desenvolvimento de novas tecnologias. Quando a decisão de retornar foi tomada, esses profissionais não puderam ser reunidos imediatamente. Como consequência, a HRC só voltou a operar com força total no ano passado.
A reconstrução da estrutura exigiu tempo e recursos, fazendo com que a Honda considere estar aproximadamente um ano atrás dos seus principais concorrentes. Isso ajuda a explicar por que atualmente está atrás de fabricantes como Mercedes, Ferrari, Red Bull-Ford e Audi.
Confiabilidade evoluiu e foco agora passa a ser desempenho
Grande parte da temporada foi dedicada à resolução de problemas técnicos e de confiabilidade. A Honda trabalhou intensamente para solucionar falhas que afetavam a unidade de potência, incluindo problemas relacionados a vibrações. Segundo Watanabe, avanços importantes foram alcançados nesse aspecto, permitindo que a empresa passe a direcionar seus esforços para a busca por desempenho.
A fabricante pretende introduzir uma atualização para Fernando Alonso e Lance Stroll durante o verão europeu. O pacote será focado no fortalecimento do motor de combustão interna. Apesar da expectativa por uma evolução, a Honda reconhece que a atualização não será suficiente para transformar imediatamente a situação da equipe.
Watanabe ressaltou que a estratégia continua sendo baseada em uma visão de longo prazo. O atual regulamento financeiro da Fórmula 1 também dificulta uma recuperação rápida. Diferentemente de outras épocas, os fabricantes não podem simplesmente aumentar investimentos para corrigir problemas de forma acelerada.
Como boa parte do orçamento precisou ser direcionada à solução de falhas técnicas, a Honda acabou ficando em desvantagem também na corrida pelo desenvolvimento de performance. Agora, com os principais problemas de confiabilidade sob controle, os recursos estão sendo concentrados na evolução do desempenho do conjunto.
Mesmo assim, a fabricante japonesa adota uma abordagem gradual. O objetivo é avançar passo a passo, reconhecendo que recuperar a diferença para os concorrentes exigirá tempo.
Aston Martin também enfrenta desafios em seu processo de crescimento
As dificuldades da Aston Martin não estão relacionadas apenas à unidade de potência. O renomado projetista Adrian Newey ingressou na equipe apenas em 25 de março de 2025. Dessa forma, seu primeiro carro para o novo regulamento começou a ser desenvolvido vários meses depois dos projetos dos principais concorrentes.
Além disso, Newey chegou em um momento de grande expansão da estrutura da Aston Martin. A equipe vinha ampliando suas instalações, contratando novos profissionais e implementando diversos processos simultaneamente. Esse crescimento acelerado trouxe desafios adicionais para o desenvolvimento do projeto. Como resultado, o primeiro chassi da nova geração não entregou o desempenho esperado.
O próprio sócio-gerente da equipe reconheceu no início da temporada que o carro possuía potencial para ser apenas o quinto melhor do grid, resultado abaixo das expectativas criadas para o início deste novo ciclo regulatório. A Aston Martin também tomou uma decisão estratégica importante: ao invés de introduzir pequenas atualizações corrida após corrida, optou por concentrar recursos em um grande pacote aerodinâmico.
Desde a estreia do carro na Austrália, o foco passou a ser uma atualização significativa prevista para antes da pausa de verão. Internamente, a expectativa é de que a mudança seja tão profunda que se aproxime de uma versão completamente nova do carro.
A equipe acredita que essa evolução aerodinâmica, combinada com os avanços promovidos pela Honda, poderá aproximá-la do pelotão intermediário e aumentar suas chances de disputar pontos na segunda metade da temporada.
Honda e Aston Martin seguem unidas e mantêm confiança no projeto
Mesmo ocupando a décima colocação entre as onze equipes do campeonato após sete etapas, a Aston Martin mantém confiança na parceria com a Honda. Koji Watanabe explicou que a relação entre as duas organizações ainda está em processo de construção e amadurecimento. Segundo ele, o desenvolvimento de uma parceria forte leva tempo, especialmente em um projeto tão complexo quanto o da Fórmula 1.
O dirigente revelou que mantém contato frequente com Lawrence Stroll, proprietário da Aston Martin. De acordo com Watanabe, a comunicação aberta e transparente entre as partes tem fortalecido o relacionamento. Ele afirmou que Stroll continua acreditando na capacidade técnica da Honda, embora ambos estejam insatisfeitos com os resultados atuais.
As conversas entre as duas organizações envolvem não apenas a performance da unidade de potência, mas também questões relacionadas ao chassi, às operações da equipe e a todos os aspectos necessários para recolocar o projeto em uma posição competitiva. Apesar do início difícil, a Honda reforça que não pretende abandonar o desafio.
Watanabe destacou que o automobilismo continua sendo uma parte fundamental da identidade da marca e que o compromisso com a Fórmula 1 permanece inalterado. Segundo ele, a direção da Honda leva a situação atual muito a sério e reconhece a necessidade de evolução. No entanto, existe também o entendimento de que o projeto deve ser avaliado em uma perspectiva de médio e longo prazo, e não apenas pelos resultados obtidos nesta temporada.
O apoio da administração da empresa continua firme, com foco na resolução dos desafios enfrentados atualmente.
A Honda acredita que já demonstrou no passado capacidade para superar momentos difíceis e construir projetos vencedores. Por isso, apesar das dificuldades enfrentadas ao lado da Aston Martin em 2026, a fabricante japonesa mantém a convicção de que pode voltar a lutar por posições de destaque no futuro.
Foto: (MSports)