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Copa do Mundo

Da pressão à história: como Sebastián Beccacece transformou o Equador em uma das grandes histórias da Copa do Mundo

A trajetória do Equador nesta Copa do Mundo parecia caminhar para um desfecho amargo. Após chegar ao torneio cercado por expectativas, a seleção começou a competição com uma derrota para a Costa do Marfim e, na sequência, decepcionou ao empatar sem gols com a estreante Curaçao. Os resultados colocaram em xeque o trabalho do técnico Sebastián Beccacece, que chegou a admitir publicamente que deixaria o cargo caso o país não avançasse ao mata-mata.

Poucos dias depois, o cenário mudou completamente. A vitória histórica por 2 a 1 sobre a Alemanha não apenas garantiu a classificação às fases eliminatórias pela segunda vez na história da seleção, como também consolidou Beccacece como um dos grandes personagens desta edição da Copa do Mundo. O treinador passou de pressionado e contestado por parte da torcida a responsável por uma das maiores vitórias da história do futebol equatoriano.

O resultado representa muito mais do que três pontos. Ele simboliza a reconstrução de um projeto que enfrentou críticas, dúvidas e até conflitos entre torcedores antes de encontrar sua melhor versão justamente no momento mais decisivo.

Um trabalho que quase terminou antes da hora

Alemanha x Equador
Créditos da foto: Getty Images Sport.

A pressão sobre Sebastián Beccacece não surgiu apenas pelos resultados da Copa do Mundo.

O Equador já vinha enfrentando uma trajetória turbulenta desde as Eliminatórias. A seleção iniciou a campanha rumo ao Mundial de 2026 com uma punição de três pontos devido ao caso envolvendo Byron Castillo, jogador cuja elegibilidade foi contestada pelo Chile. Mesmo diante desse cenário complicado, a equipe conseguiu reagir.

Após a saída de Félix Sánchez, demitido logo depois da eliminação para a Argentina nas quartas de final da Copa América de 2024, Beccacece assumiu a missão de reconstruir o ambiente da seleção.

Sua estreia não foi animadora, com derrota por 1 a 0 para o Brasil. Porém, a resposta veio rapidamente. O Equador permaneceu 11 partidas consecutivas sem perder nas Eliminatórias Sul-Americanas e terminou a competição como vice-líder, atrás apenas da Seleção Argentina.

A sequência elevou a confiança da torcida. A equipe chegou ao Mundial acumulando 19 partidas de invencibilidade e sendo apontada como uma das seleções capazes de surpreender na competição.

Entretanto, a realidade da Copa foi bem diferente no início.

A derrota nos minutos finais para a Costa do Marfim e o empate contra Curaçao fizeram toda a confiança construída desaparecer. A torcida voltou a questionar o treinador, e o próprio Beccacece reconheceu que ainda não havia conseguido conquistar os equatorianos.

Antes da última rodada da fase de grupos, ele foi direto ao afirmar que deixaria o comando da seleção caso não conseguisse levar o Equador às oitavas de final.

Era praticamente uma decisão de vida ou morte para o projeto.

Vitória sobre a Alemanha muda a história da seleção

A resposta veio justamente diante de um dos adversários mais difíceis possíveis.

Enfrentar a Alemanha significava medir forças com uma seleção tetracampeã mundial, acostumada aos grandes momentos da história da Copa do Mundo. Mesmo assim, o Equador mostrou personalidade, organização tática e enorme espírito de luta para conquistar uma vitória por 2 a 1.

Após o apito final, a imagem de Beccacece pulando as barreiras do estádio para abraçar sua família resumiu toda a carga emocional daquele momento.

O treinador sabia que poderia estar vivendo sua despedida. Em vez disso, comemorava a maior vitória de sua carreira.

A classificação também representou apenas a segunda vez que o Equador conseguiu superar a fase de grupos em uma Copa do Mundo. A única campanha semelhante havia acontecido em 2006, quando a equipe avançou até as oitavas de final antes de ser eliminada pela Inglaterra com um gol de falta de David Beckham.

Vinte anos depois, os equatorianos voltam ao mata-mata acreditando que podem escrever uma história ainda maior.

Uma geração preparada para sonhar mais alto

O atual elenco oferece motivos concretos para esse otimismo.

Na defesa, Beccacece conta com jogadores consolidados no futebol europeu, como Willian Pacho, do PSG, e Piero Hincapié, do Arsenal. No meio-campo, Moisés Caicedo se transformou em uma das principais referências do Chelsea e é responsável por dar equilíbrio ao time.

No ataque, a experiência continua sendo representada por Enner Valencia. Aos 36 anos, o atacante segue decisivo e já soma seis gols em Copas do Mundo, mantendo seu status como um dos maiores jogadores da história da seleção equatoriana.

Além da qualidade individual, o Equador mostrou uma característica que costuma fazer diferença em torneios eliminatórios: a capacidade de competir contra adversários teoricamente superiores.

Durante boa parte da fase de grupos, a equipe precisou conviver com críticas externas, pressão da torcida e risco de eliminação. Ainda assim, conseguiu manter a organização emocional e encontrar sua melhor atuação justamente quando mais precisava.

O maior momento da história do Equador?

Equador x Alemanha - Copa do Mundo
Créditos da foto: Getty Images Sport.

Para muitos especialistas, a classificação conquistada sobre a Alemanha já pode ser considerada o maior feito do futebol equatoriano em Copas do Mundo.

O jornalista Tim Vickery lembrou da festa que tomou conta de Quito quando o país garantiu sua primeira participação em um Mundial, em 2002, e acredita que a comemoração atual será ainda maior.

Segundo ele, o objetivo do Equador agora passa a ser realizar a melhor campanha de sua história, superando ou, pelo menos, igualando o desempenho de 2006.

Mais importante do que isso, porém, foi a forma como essa classificação aconteceu.

Depois de iniciar a competição pressionado, conviver com críticas da torcida e ver seu treinador colocar o próprio cargo à disposição, o Equador encontrou forças para derrotar uma das seleções mais tradicionais do futebol mundial.

Ao fim da partida, Beccacece resumiu a filosofia que guiou essa recuperação ao afirmar que sua equipe nunca se considera “no inferno” nos momentos ruins nem “no céu” após as vitórias.

Manter os pés no chão talvez seja justamente o segredo de uma seleção que já escreveu um dos capítulos mais marcantes de sua história e agora acredita que pode continuar surpreendendo na fase de mata-mata da Copa do Mundo.

(Foto de capa: Sebastiao Moreira / EFE)

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Kaique