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Colocar jogador só para bater pênalti funciona? Dados de Copas levantam alerta; confira

Nos grandes torneios, virou quase uma cena clássica: o relógio marca os últimos instantes da prorrogação e o técnico faz uma substituição aparentemente pensada para a disputa por pênaltis.

A lógica parece simples.

Colocar em campo um jogador descansado, com boa técnica e histórico positivo em cobranças deveria aumentar as chances de sucesso na decisão.

Mas os números das Copas do Mundo e Eurocopas indicam que a prática talvez não seja tão eficiente quanto parece.

Em alguns casos, pode até estar produzindo o efeito contrário.

Paraguai viveu exemplo recente na Copa do Mundo

A discussão voltou à tona depois do duelo entre Paraguai e Alemanha pelas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026.

Já no minuto 121, o técnico Gustavo Alfaro colocou Fabián Balbuena em campo com um objetivo praticamente declarado: participar da disputa por pênaltis.

O defensor, conhecido pela experiência internacional e passagem pelo futebol inglês, recebeu a responsabilidade de cobrar a quinta penalidade do Paraguai.

Era uma oportunidade histórica.

Se convertesse, poderia garantir uma classificação que entraria para os maiores resultados da história do país em Copas.

Mas Manuel Neuer defendeu.

No fim, o erro não teve consequências porque Jonathan Tah desperdiçou logo depois e José Canale converteu a cobrança que confirmou a classificação paraguaia.

Ainda assim, o lance reforçou um padrão que vem chamando atenção nos últimos anos.

Estatísticas mostram desempenho pior de quem entra no fim

A ideia do “especialista em pênaltis” cresceu especialmente na última década.

Treinadores passaram a utilizar substituições tardias imaginando que jogadores descansados teriam vantagem emocional e física na disputa.

Só que os números contam outra história.

Considerando Copas do Mundo e Eurocopas, oito dos últimos dez jogadores que entraram após os 115 minutos com foco em disputar pênaltis acabaram desperdiçando suas cobranças.

Isso representa apenas 20% de aproveitamento.

O dado chama atenção principalmente porque contradiz uma percepção bastante difundida no futebol moderno.

Em teoria, atletas que entram descansados deveriam apresentar mais precisão.

Na prática, a pressão parece pesar mais.

Inglaterra acumulou exemplos marcantes desse tipo de estratégia

Uma das seleções mais associadas a esse cenário é justamente a Inglaterra.

Nas quartas de final da Copa de 2006 contra Portugal, Jamie Carragher entrou aos 119 minutos pensando na disputa por pênaltis.

Tocou poucas vezes na bola e acabou desperdiçando sua cobrança.

Anos depois, na final da Euro 2020, Gareth Southgate repetiu a estratégia.

Marcus Rashford e Jadon Sancho entraram nos segundos finais da prorrogação diante da Itália justamente para bater pênalti.

Os dois erraram.

A Itália conquistou o título pouco depois.

Apesar dos erros, ao menos eles tiveram contato com o jogo antes da decisão.

Outros nem isso conseguiram.

Entrar frio parece aumentar dificuldade emocional

Existem casos ainda mais extremos.

Alguns jogadores entraram em campo e sequer tocaram na bola antes de caminhar para a marca da cal.

Foi o caso recente de Balbuena.

Outro exemplo lembrado frequentemente é Simone Zaza, que entrou rapidamente na Euro de 2016 contra a Alemanha apenas para participar da disputa.

Sua cobrança desperdiçada ficou marcada também pela corrida característica antes do chute.

Os números reforçam que o contexto emocional pode ter mais peso do que o descanso físico.

Desde a Euro de 1996, jogadores que começaram as partidas converteram 201 de 277 pênaltis em decisões de grandes torneios internacionais — aproveitamento de 73%.

Já atletas que entraram apenas durante o segundo tempo da prorrogação cobraram 32 penalidades e acertaram somente 18.

O aproveitamento cai para 56%.

Futebol moderno ainda busca resposta para dilema dos pênaltis

O dado levanta uma questão interessante.

Até que ponto vale apostar em um cobrador descansado se ele entra em campo sem ritmo, sem contato com o jogo e com toda a responsabilidade concentrada em um único momento?

O futebol atual é cada vez mais orientado por dados e detalhes táticos.

Ainda assim, a estratégia do especialista em pênaltis continua aparecendo em momentos decisivos.

Talvez porque ela faça sentido na teoria.

Mas as grandes competições vêm mostrando algo diferente.

Pernas descansadas não significam necessariamente cabeça tranquila.

E quando a pressão aumenta, o fator emocional pode acabar valendo mais do que qualquer plano desenhado no banco de reservas.

Foto: Getty Images