Thomas Tuchel Inglaterra
Copa do Mundo

Inglaterra terá na altitude do Estádio Azteca um adversário extra contra o México na Copa do Mundo

A Inglaterra chega às oitavas de final da Copa do Mundo cercada por expectativas após vencer a República Democrática do Congo por 2 a 1. No entanto, antes mesmo de a bola rolar contra o México, a seleção inglesa já sabe que enfrentará um obstáculo tão desafiador quanto o próprio adversário: a altitude do Estádio Azteca, na Cidade do México.

Palco de alguns dos momentos mais marcantes da história do futebol, o Azteca está localizado a 2.240 metros acima do nível do mar. Nessa condição, a quantidade de oxigênio disponível no ar é significativamente menor do que em cidades situadas próximas ao nível do mar, alterando completamente a resposta física dos atletas durante uma partida.

Embora o México tenha qualidade suficiente para complicar qualquer adversário, especialistas acreditam que o fator altitude pode equilibrar ainda mais o confronto e até influenciar diretamente o desempenho da Inglaterra ao longo dos 90 minutos.

A altitude modifica o comportamento físico dos jogadores

inglaterra x gana copa do mundo
Foto de capa: FIFA

A principal consequência de atuar em grandes altitudes é a redução da pressão atmosférica. Com menos oxigênio disponível a cada respiração, o organismo precisa trabalhar mais para manter o mesmo nível de rendimento físico.

Segundo especialistas em fisiologia esportiva, a capacidade aeróbica dos atletas pode diminuir aproximadamente 10% em uma altitude semelhante à do Estádio Azteca. Além disso, o desgaste físico aumenta entre 15% e 20%, reduzindo também a distância que os jogadores conseguem percorrer durante a partida.

Na prática, isso significa que ações consideradas comuns em jogos disputados ao nível do mar passam a exigir muito mais esforço. Corridas longas, pressão constante sobre o adversário e sequências de sprints tornam-se mais difíceis de sustentar.

Outro efeito importante acontece na recuperação. Embora a velocidade máxima dos jogadores não seja necessariamente reduzida, o tempo necessário para recuperar o fôlego após uma arrancada aumenta consideravelmente. Isso faz com que as equipes precisem administrar melhor seus momentos de intensidade.

Além do desgaste muscular, existe também um impacto cognitivo. O cérebro recebe menos oxigênio durante períodos de esforço intenso, fator que pode comprometer a tomada de decisões, a concentração e até mesmo a precisão técnica em lances decisivos.

Esse conjunto de fatores explica por que tantas equipes mudam completamente sua estratégia quando atuam em grandes altitudes.

O México conhece cada detalhe do Azteca

Raúl Jiménez, México, Copa do Mundo 2026
Foto: Reuters/Pawel Kopczynski

Enquanto a Inglaterra terá apenas dois dias para se adaptar às condições da Cidade do México, os mexicanos convivem com essa realidade durante toda a carreira.

Desde o início da década, a seleção disputou 14 partidas no Estádio Azteca, marcou 23 gols e sofreu apenas quatro. Em jogos oficiais realizados no estádio, o retrospecto também impressiona: são 70 vitórias, 17 empates e somente duas derrotas em 89 partidas.

Na atual Copa do Mundo, o México também aproveitou esse fator. A equipe venceu todos os quatro jogos disputados até agora, marcou oito gols e ainda não sofreu nenhum.

Embora o elenco mexicano conte com apenas quatro jogadores atuando nas cinco principais ligas da Europa, a equipe compensa essa diferença técnica com organização, intensidade e profundo conhecimento das condições locais.

O ex-capitão Pavel Pardo descreve que era possível perceber claramente o desgaste dos adversários durante o segundo tempo das partidas no Azteca. Segundo ele, bastava observar a linguagem corporal dos rivais para notar quando começavam a perder o fôlego, momento em que o México aumentava a confiança e assumia o controle do jogo.

Esse aspecto psicológico também pesa. Quando um time percebe que o adversário está fisicamente limitado, cresce dentro da partida e passa a atacar com ainda mais intensidade.

A preparação inglesa será limitada

Tuchel Inglaterra
Bradley Collyer/PA

Especialistas afirmam que o período ideal para adaptação à altitude varia entre uma e duas semanas. Durante esse tempo, o organismo aumenta gradualmente a produção de glóbulos vermelhos, melhorando o transporte de oxigênio pelo corpo.

A Inglaterra, entretanto, chegará à Cidade do México apenas dois dias antes do confronto. Esse curto intervalo impede uma adaptação fisiológica completa e obriga a comissão técnica a trabalhar apenas na redução dos efeitos negativos.

Em outras modalidades esportivas, como o rugby, seleções inglesas utilizam máscaras especiais que reduzem a entrada de oxigênio durante os treinamentos para simular condições semelhantes às encontradas em grandes altitudes. No futebol, porém, o calendário da Copa praticamente impossibilitou esse tipo de preparação mais aprofundada.

Por isso, a tendência é que o técnico inglês faça alterações importantes na maneira como sua equipe atua.

A pressão alta durante os 90 minutos, característica frequentemente utilizada por seleções europeias, dificilmente poderá ser mantida. O mais provável é que a Inglaterra adote uma postura mais paciente, controlando a posse de bola e escolhendo cuidadosamente os momentos para acelerar o jogo.

Também é esperado um número maior de substituições na segunda etapa, justamente para compensar o desgaste físico provocado pelo ambiente.

Outro detalhe importante envolve a própria bola. Na altitude, ela ganha mais velocidade em chutes de longa distância e cruzamentos. Esse comportamento exige adaptação tanto dos goleiros quanto dos defensores, que precisam recalcular tempo de reação, posicionamento e trajetória da bola.

Diante desse cenário, o confronto entre Inglaterra e México promete ser decidido por muito mais do que qualidade técnica. A altitude transforma o Estádio Azteca em um elemento estratégico da partida, capaz de alterar o ritmo do jogo, influenciar decisões táticas e favorecer uma seleção acostumada a explorar cada detalhe desse ambiente.

Se conseguir superar esse desafio físico e manter seu nível de atuação, a Inglaterra dará um passo importante rumo às quartas de final. Caso contrário, o México poderá transformar sua principal vantagem geográfica em um fator decisivo para seguir vivo na busca pelo título da Copa do Mundo.

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Kaique