Torcedores de Bangladesh torcendo para o Brasil, países
Futebol Copa do Mundo

Por que países mais populosos ficam fora da Copa do Mundo? Entenda o que explica esse fenômeno

A Copa do Mundo de 2026 reúne algumas das maiores potências do futebol, mas também chama atenção por uma curiosidade pouco comentada. Entre os dez países mais populosos do planeta, apenas dois conseguiram garantir vaga no torneio: Estados Unidos e Brasil.

Na prática, isso significa que nações com centenas de milhões de habitantes, como Índia, China, Bangladesh, Paquistão, Indonésia e Etiópia, seguem longe do principal campeonato do futebol mundial. O cenário levanta uma pergunta: afinal, por que países com populações tão grandes não conseguem formar seleções competitivas?

Especialistas apontam que ter muitos habitantes ajuda, mas está longe de ser o fator decisivo para alcançar sucesso no futebol internacional.

Apenas dois dos dez países mais populosos disputam a Copa

Dos dez países com maior população do mundo, apenas Brasil e Estados Unidos participam da Copa do Mundo de 2026.

A situação chama atenção principalmente na Ásia, onde Índia, Bangladesh, Paquistão e China contam com milhões de apaixonados por futebol, mas continuam sem conseguir se consolidar entre as principais seleções do planeta.

A Indonésia também aparece nessa lista. A seleção chegou perto da classificação nesta edição, alcançando a fase final das Eliminatórias Asiáticas, mas acabou ficando pelo caminho.

Já a Nigéria e a Rússia, que também figuram entre os países mais populosos do mundo, possuem tradição maior em Copas, embora estejam ausentes da edição de 2026.

Brasil
Foto: Rafael Ribeiro/CBF

População grande não garante sucesso no futebol

Em teoria, uma população numerosa aumenta as chances de revelar grandes atletas.

Quanto mais pessoas, maior tende a ser o número de jovens praticando esportes e disputando vagas nas categorias de base.

No entanto, o economista britânico Stefan Szymanski, autor do livro Soccernomics, explica que esse é apenas um dos fatores que determinam o sucesso de uma seleção.

Segundo ele, também são fundamentais a infraestrutura esportiva, os centros de treinamento, a capacidade de identificar talentos e o investimento contínuo na formação de jogadores.

Sem esses elementos, o tamanho da população acaba tendo pouca influência dentro de campo.

Tradição pesa mais do que muitos imaginam

Outro aspecto considerado essencial é a tradição.

As seleções que dominaram o futebol ao longo da história normalmente começaram a disputar competições internacionais ainda no início do século passado.

Brasil, Argentina, Inglaterra, Itália, Alemanha, França e Espanha construíram décadas de experiência antes de se tornarem campeãs mundiais.

O Uruguai é o melhor exemplo de que população não é tudo.

Mesmo contando com apenas cerca de 3,5 milhões de habitantes, o país conquistou duas Copas do Mundo graças ao desenvolvimento precoce do futebol e à forte cultura esportiva.

Enquanto isso, diversas nações africanas e asiáticas passaram a investir no esporte muito mais tarde, iniciando uma longa corrida para diminuir essa diferença.

Riqueza também influencia o desempenho das seleções

Os estudos apresentados por Szymanski também mostram outra tendência importante.

Grande parte das seleções mais fortes do mundo pertence a países com renda elevada, o que facilita investimentos em categorias de base, infraestrutura e desenvolvimento esportivo.

Há exceções importantes, como Brasil e Argentina, que conquistaram oito títulos mundiais mesmo sem apresentar níveis de renda semelhantes aos de várias potências europeias.

Segundo o pesquisador, isso demonstra que conhecimento acumulado, tradição e experiência histórica também exercem enorme influência sobre os resultados.

China, Índia e Bangladesh ainda buscam evolução

O caso da China costuma ser apontado como um dos mais curiosos.

O país investiu bilhões no futebol durante a última década, contratou grandes jogadores estrangeiros para sua liga nacional e buscou acelerar seu desenvolvimento.

Mesmo assim, a seleção não voltou à Copa do Mundo desde 2002.

Especialistas apontam que o excesso de interferência política e problemas na estrutura do futebol dificultam a evolução da modalidade.

Na Índia, outro desafio aparece.

O críquete domina completamente o cenário esportivo nacional, atraindo investimentos, audiência e jovens atletas desde cedo.

Apesar disso, analistas lembram que Austrália e Nova Zelândia conseguem disputar tanto o críquete quanto o futebol em alto nível, mostrando que a preferência por outro esporte não explica tudo.

Em Bangladesh, a avaliação é semelhante.

A paixão pelo futebol existe, mas ainda faltam investimentos, planejamento e uma estrutura capaz de desenvolver jogadores em larga escala.

Etiópia enfrenta problemas de infraestrutura

A Etiópia também simboliza as dificuldades enfrentadas por diversas seleções africanas.

O país jamais disputou uma Copa do Mundo e atualmente convive com falta de estádios adequados para sediar partidas do campeonato nacional.

Em algumas competições, apenas três arenas homologadas receberam centenas de jogos ao longo da temporada.

A própria seleção etíope precisou mandar partidas das Eliminatórias em outro país devido à ausência de estádios aprovados.

Paixão pelo futebol continua mesmo sem classificação

Apesar das dificuldades dentro de campo, a paixão pelo futebol segue enorme em vários desses países.

Durante a Copa do Mundo, cidades como Daca, em Bangladesh, registraram grandes concentrações de torcedores acompanhando os jogos da Argentina, principalmente por causa de Lionel Messi.

Sem uma seleção nacional no torneio, muitos torcedores adotam outras equipes e vivem intensamente o Mundial.

Enquanto o sonho de disputar uma Copa ainda parece distante para diversas dessas nações, o interesse pelo futebol continua crescendo, alimentando a esperança de que investimentos, organização e desenvolvimento possam transformar esse cenário nas próximas décadas.

Foto: Reprodução/@CBF Bangladesh via Instagram / Estadão