A imagem de Cristiano Ronaldo em lágrimas após a eliminação de Portugal para a Espanha representou muito mais do que a despedida de uma seleção da Copa do Mundo. Aos 41 anos, um dos maiores jogadores da história disputou sua última partida no principal torneio do futebol e viu desaparecer o sonho que perseguiu durante praticamente toda a carreira.
Foram seis participações em Copas do Mundo, 11 gols e uma trajetória que atravessou diferentes gerações.
Ronaldo estabeleceu o recorde de marcar em mais edições do torneio, mas encerrou sua passagem pela competição sem conquistar o título e sem disputar uma final. Sua melhor campanha aconteceu ainda em 2006, quando Portugal chegou às semifinais.
O tamanho da carreira do português não será definido por essa ausência. Cinco Bolas de Ouro, títulos da Champions League, recordes individuais e uma longevidade quase sem precedentes garantem seu lugar entre os maiores. Pela seleção, ele também conquistou a Eurocopa de 2016 e liderou uma transformação na forma como Portugal passou a ser visto no cenário internacional.
A última Copa, no entanto, deixou uma sensação incômoda. Ronaldo ainda possuía o nome, a presença e a história de um craque capaz de decidir qualquer partida, mas seu futebol já não acompanhava a mesma velocidade. A eliminação para a Espanha tornou evidente que Portugal precisa iniciar uma nova fase.
Os números mostram um Cristiano Ronaldo distante do auge

Ninguém esperava encontrar aos 41 anos o mesmo Ronaldo que dominava partidas pelo Manchester United, Real Madrid e pela própria seleção portuguesa. A questão principal era entender até que ponto ele ainda poderia ser útil para uma equipe recheada de jogadores que atuam na elite europeia.
A resposta apresentada pela Copa foi preocupante.
Em cinco partidas, Ronaldo não tentou um único drible. O dado se torna ainda mais simbólico quando comparado ao fato de que Vozinha, goleiro de Cabo Verde e também um jogador na casa dos 40 anos, conseguiu registrar uma tentativa.
A criatividade também praticamente desapareceu.
Ronaldo precisou de 17 finalizações no torneio antes de criar sua primeira oportunidade para um companheiro.
Isso aconteceu apenas aos 75 minutos da derrota para a Espanha, quando preparou uma finalização de Vitinha que acabou bloqueada e não ofereceu grande perigo.
O atacante terminou suas cinco partidas com apenas 0,01 de assistências esperadas, o chamado xA. O número mostra que sua participação na construção ofensiva foi praticamente inexistente.
Essa é uma diferença importante em relação a outros grandes atacantes do futebol atual. Kylian Mbappé, Lionel Messi, Erling Haaland e Harry Kane também possuem o gol como principal característica, mas continuam participando da criação de oportunidades para seus companheiros.
Ronaldo se transformou em um jogador quase exclusivamente dependente da finalização.
Ainda houve momentos capazes de lembrar o passado. O principal deles aconteceu na vitória por 5 a 0 sobre o Uzbequistão, quando marcou duas vezes e gritou “estou de volta” diante das câmeras.
A atuação, porém, acabou sendo uma exceção.
O Uzbequistão disputava sua primeira Copa e tinha uma das defesas mais frágeis do torneio. Entre as 48 seleções da fase de grupos, apenas Iraque e Tunísia sofreram mais gols.
Ronaldo também conseguiu finalmente marcar seu primeiro gol em um mata mata de Copa do Mundo ao converter um pênalti contra a Croácia. Mesmo assim, outro momento daquela partida revelou como seu papel havia mudado.
Com o confronto equilibrado, a prorrogação em andamento e a disputa por pênaltis se aproximando, Roberto Martínez decidiu substituí lo. No auge de sua carreira, imaginar Cristiano Ronaldo deixando o campo em uma situação como aquela seria praticamente impossível.
Portugal tinha talento, mas faltava força no ataque

A derrota por 1 a 0 para a Espanha reforçou as dúvidas sobre o impacto de Ronaldo na equipe.
Portugal adotou uma estratégia conservadora e conseguiu resistir até os acréscimos. Defensivamente, a seleção mostrou organização suficiente para competir contra uma das equipes mais fortes da Copa.
O problema apareceu quando era necessário atacar.
E não faltava talento ao redor de Ronaldo.
Bruno Fernandes chegou ao torneio depois de ser eleito o melhor jogador da temporada da Premier League. João Neves e Vitinha carregavam o peso de conquistas consecutivas da Champions League. Rúben Dias e Nuno Mendes ofereciam qualidade defensiva.
O elenco ainda tinha João Cancelo, Bernardo Silva, Pedro Neto, Rafael Leão e Diogo Dalot. Eram jogadores acostumados a atuar regularmente em alguns dos maiores clubes da Europa.
Mesmo com tantas opções, Portugal apresentou um ataque pouco criativo diante da Espanha.
É impossível colocar toda a responsabilidade sobre Ronaldo, mas também é difícil ignorar sua influência sobre a estrutura da equipe. Um atacante que não dribla, praticamente não cria oportunidades e oferece pouca mobilidade reduz as possibilidades ofensivas de qualquer seleção.
Durante muitos anos, adaptar Portugal a Cristiano Ronaldo era uma decisão óbvia. Ele era o melhor jogador, o maior goleador e o principal responsável por resolver partidas.
Aos 41 anos, essa relação mudou.
Portugal ainda organizava parte de seu jogo ao redor de um atleta que já não conseguia entregar a mesma influência.
Gonçalo Ramos pode iniciar uma nova era na seleção

A despedida de Ronaldo abre espaço para uma transformação.
Gonçalo Ramos aparece como o candidato mais natural a assumir a posição de camisa 9. O atacante chega ao novo ciclo depois de se tornar a contratação mais cara da história do Milan durante a Copa do Mundo.
A mudança de clube coincide com a oportunidade de um novo começo na seleção.
Substituir Ronaldo, porém, será uma tarefa enorme.
Quem ocupar sua posição enfrentará comparações durante anos. Cada gol perdido, cada eliminação e cada momento de dificuldade será acompanhado por perguntas sobre o antigo capitão.
Isso acontece porque Ronaldo não foi apenas o maior goleador da história de Portugal. Ele se tornou o símbolo de uma geração que mudou o patamar do país.
Foi o capitão da conquista da Eurocopa de 2016, primeiro grande título da seleção. Durante sua trajetória, Portugal deixou de ser uma equipe respeitada, mas normalmente colocada abaixo das maiores potências, para entrar em praticamente todos os torneios como candidata ao título.
A Eurocopa de 2028 deverá ser o primeiro grande teste dessa nova realidade.
Pela primeira vez em décadas, a principal discussão antes de um grande torneio português não será sobre como utilizar Cristiano Ronaldo, mas sobre como Portugal conseguirá viver sem ele.
A Copa que faltou continuará presente no debate sobre seu legado

A última participação de Ronaldo não definirá sua carreira.
Seria injusto resumir mais de duas décadas de futebol ao desempenho de um jogador de 41 anos. Pouquíssimos atletas na história conseguiram sequer permanecer no mais alto nível por tanto tempo.
Mesmo assim, a Copa do Mundo será uma ausência permanente em seu currículo.
O debate se torna ainda mais intenso porque Lionel Messi, seu grande rival na maior discussão individual da era moderna, conseguiu conquistar o torneio.
Ronaldo nunca passou das semifinais.
Para muitos, esse será o principal argumento usado contra o português nas comparações entre os dois.
Ainda assim, ele não é o primeiro craque histórico a terminar a carreira sem levantar a Copa do Mundo. Grandes jogadores atravessaram gerações sem conquistar o principal título do futebol de seleções.
A diferença é que poucos, talvez nenhum, chegaram ao fim com um currículo individual e coletivo comparável ao de Ronaldo.
Por isso, sua despedida produz uma conclusão curiosa.
Cristiano Ronaldo não precisa da Copa do Mundo para ser considerado um dos maiores jogadores da história.
Seus gols, títulos, recordes e impacto no futebol já garantiram isso.
Ao mesmo tempo, a ausência da taça sempre fará parte de sua história.
As lágrimas após a derrota para a Espanha mostraram que ele sabia disso.
A Copa terminou. O sonho também.
Cristiano Ronaldo provavelmente deixará o torneio com uma definição que mistura grandeza e frustração: o melhor jogador da história a nunca conquistar uma Copa do Mundo.
(Foto de capa: via Imagn)