Poucos meses atrás, parecia difícil imaginar que a Copa do Mundo de 2026 seria um sucesso absoluto nos Estados Unidos. O cenário político conturbado, o alto preço dos ingressos, as dificuldades para obtenção de vistos por torcedores de diversos países e as críticas à organização da FIFA alimentavam a sensação de que o maior torneio do futebol poderia enfrentar uma recepção fria em solo americano.
Mas bastou a bola começar a rolar para que esse roteiro mudasse completamente. À medida que a competição avançou, os estádios lotados, as audiências históricas e a mobilização popular transformaram a Copa em um fenômeno nacional. O país que durante décadas viu o futebol ocupar um espaço secundário em sua cultura esportiva mostrou que, hoje, a realidade é bem diferente.
Estádios cheios e números históricos

A resposta do público impressiona. Nas primeiras 78 partidas da competição, a média de público ultrapassou 64 mil torcedores por jogo, cerca de dez mil a mais do que na Copa do Mundo do Catar, em 2022. A ocupação média dos estádios chegou a 99,7%, enquanto a FIFA contabilizou aproximadamente 6,5 milhões de ingressos vendidos.
E o mais interessante é que o sucesso não dependeu apenas de turistas ou comunidades de imigrantes.
Milhares de americanos, muitos deles sem ligação direta com outras seleções, passaram a frequentar os estádios e acompanhar o torneio de forma intensa, reforçando a consolidação do futebol no país.
A Copa do Mundo também domina a televisão
O impacto também apareceu nas transmissões. A eliminação da seleção dos Estados Unidos para a Bélgica, nas oitavas de final, registrou média de 33 milhões de telespectadores na Fox, com pico de 41 milhões nos minutos finais da partida. O número superou a audiência da World Series de 2025 e do Jogo 5 das finais da NBA.
Foi a transmissão de futebol mais assistida da história da televisão americana em um único canal.
O interesse também não ficou restrito aos jogos da equipe da casa. O confronto entre Inglaterra e México reuniu mais de 44 milhões de telespectadores somando as transmissões da Fox e da Telemundo, enquanto ambas as emissoras registraram seus maiores índices de audiência em uma Copa do Mundo.
O crescimento também se refletiu no ambiente digital. Pesquisas apontam que quatro em cada dez adultos americanos acompanharam o torneio pelas redes sociais, enquanto milhões de pessoas passaram a assistir às partidas em bares, restaurantes e eventos coletivos espalhados pelo país.
O futebol encontrou seu espaço nos Estados Unidos

A explosão de interesse não aconteceu por acaso. O futebol já vinha crescendo de maneira consistente nas últimas décadas. A Copa de 1994 impulsionou a criação da Major League Soccer (MLS), enquanto o sucesso da seleção feminina ajudou a consolidar a modalidade entre diferentes gerações.
Além disso, a transmissão regular das principais ligas europeias aproximou ainda mais o torcedor americano do esporte. Hoje, acompanhar Premier League, La Liga ou Liga dos Campeões faz parte da rotina de milhões de pessoas.
Esse processo fez com que o futebol ultrapassasse até mesmo o beisebol na preferência de parte da população, consolidando-se entre os esportes mais populares do país.
Outro fator ajudou: o calendário. Diferentemente de outras edições da Copa disputadas em fusos horários pouco favoráveis aos americanos, grande parte das partidas ocorreu em horário nobre nos Estados Unidos, facilitando o acesso do público às transmissões.
Um espetáculo dentro de campo

A qualidade do torneio também ajudou a conquistar novos fãs. A média de gols é a maior desde a Copa do Mundo de 1958, um dado relevante em um país onde uma das críticas mais frequentes ao futebol sempre foi a baixa quantidade de gols.
Os grandes craques também corresponderam às expectativas. Lionel Messi e Kylian Mbappé lideram a artilharia com oito gols cada, enquanto Erling Haaland soma sete e Harry Kane já balançou as redes seis vezes. Além disso, a competição foi marcada por jogos decididos nos minutos finais e confrontos recheados de emoção.
O formato ampliado também proporcionou histórias marcantes. Seleções como Curaçao e Cabo Verde viveram campanhas históricas e conquistaram a simpatia de boa parte do público americano, reforçando um dos principais atrativos da Copa: a possibilidade de países considerados pequenos desafiarem as grandes potências do futebol.
Muito além do esporte
Se dentro de campo a Copa encantou pelo futebol, fora dele ela também se transformou em um símbolo de convivência e celebração multicultural.
Em diversas cidades americanas, comunidades inteiras ocuparam ruas, bares e praças para acompanhar os jogos. Torcedores de diferentes nacionalidades dividiram espaços, comemoraram juntos e transformaram o torneio em uma grande festa popular.
Cenas como moradores de Lawrence recepcionando a seleção da Argélia, japoneses celebrando em Houston, escoceses tomando conta das ruas de Boston ou equatorianos lotando bairros de Nova York ilustram bem esse clima.
Em meio a um período de forte polarização política, a Copa do Mundo acabou oferecendo aos Estados Unidos algo que vai muito além do futebol: um raro momento de integração entre diferentes culturas.
No fim das contas, o torneio mostrou que, apesar das dúvidas que cercavam sua organização, o futebol encontrou terreno fértil para crescer ainda mais em solo americano. A Copa de 2026 não apenas bateu recordes. Ela consolidou uma relação que parecia improvável há algumas décadas e deixou claro que o esporte já ocupa um espaço definitivo no imaginário dos Estados Unidos.
Créditos da foto de capa: Matthias Hangst/Getty Images