O termo “yo-yo racing”, inspirado no tradicional brinquedo ioiô, voltou a ganhar destaque durante o Grande Prêmio da Bélgica e passou novamente a fazer parte das discussões sobre o atual regulamento técnico da Fórmula 1.
A expressão tem sido utilizada para descrever um tipo de disputa que se tornou frequente na categoria sob a atual geração de regras. Nesse cenário, um piloto consegue realizar uma ultrapassagem utilizando toda a energia disponível da bateria, mas, pouco tempo depois, precisa reduzir seu ritmo devido ao consumo desse recurso, permitindo que o adversário recupere a posição.
Nas duas primeiras etapas da temporada, realizadas na Austrália e na China, esse comportamento das corridas gerou poucas críticas. A prova australiana foi considerada mais movimentada do que em anos anteriores, enquanto a disputa entre os pilotos da Ferrari na China chamou bastante atenção.
Com o avanço da temporada, porém, o fator novidade perdeu força. O Grande Prêmio do Japão, disputado em Suzuka, aumentou as críticas por limitar disputas em velocidade máxima ao longo das retas. Em outras etapas, determinadas características dos circuitos acabaram reduzindo esse efeito.
Em Mônaco, por exemplo, a ausência de longas retas diminuiu a influência da gestão de energia. Já na Áustria, as fortes zonas de frenagem contribuíram para minimizar parte desse comportamento. Entretanto, o problema voltou a aparecer com intensidade em Silverstone, e Spa-Francorchamps apresenta características semelhantes, fazendo crescer novamente a preocupação entre pilotos e equipes.
Verstappen e Piastri demonstram preocupação com o circuito belga
O tetracampeão mundial Max Verstappen, um dos principais críticos das regras atuais, afirmou que espera mais um fim de semana difícil em um circuito que considera seu favorito no calendário. “Eu adoro Spa, mas vai ser mais uma corrida complicada por causa da questão da energia, assim como aconteceu aqui.”
O piloto da Red Bull destacou sua ligação especial com o traçado belga, mas acredita que as limitações relacionadas ao gerenciamento de energia poderão dificultar as disputas. “É meu circuito favorito do calendário e é sempre bom voltar. Acho que pode ser mais complicado por causa das limitações de gerenciamento de energia nas retas, mas historicamente sempre fomos bem aqui, então nunca se sabe o que pode acontecer.”
Oscar Piastri, vencedor da edição anterior da corrida, compartilhou uma preocupação semelhante durante conversa com a imprensa. Segundo o piloto da McLaren, circuitos que possuem muitas retas longas acabam tornando o gerenciamento da energia muito mais determinante para o resultado das disputas. “Acho que esses circuitos, nos quais há muita velocidade e muitas retas em que você não está utilizando toda a potência, acabam ficando caóticos. A Áustria tinha potencial para isso, mas como as retas aparecem logo no início da volta, você não esgota a bateria tão rapidamente.”
Piastri explicou que, em Spa, a situação é bastante diferente. “Aqui, quando você chega mais ou menos na metade do caminho até a Curva 6, normalmente já utilizou toda a bateria. Depois ainda existe a Curva 9. Há tantas retas em que você não está com potência total que, dependendo da estratégia de economizar ou utilizar energia, a diferença de desempenho é enorme. Acho que é uma característica do traçado. Spa e Monza serão complicados.”
McLaren acredita em boas disputas enquanto Alonso detalha os desafios técnicos
Apesar das preocupações manifestadas por Piastri, o chefe da McLaren demonstrou uma visão mais otimista após a corrida de Silverstone. Segundo ele, Spa realmente exigirá um gerenciamento muito rigoroso da energia disponível, mas isso não significa necessariamente que as disputas serão menos interessantes. “Será um circuito que exigirá muito da gestão de energia. Acho que conseguimos perceber que a preocupação inicial sobre a falta de energia acabou sendo amenizada e tivemos boas disputas em Silverstone.”
Ele acrescentou que as longas retas do circuito belga representam um desafio importante para o funcionamento da unidade de potência. “As retas em Spa são ainda mais longas, e haverá desafios relacionados ao aproveitamento da unidade de potência. Tudo dependerá da forma como a energia será utilizada. Acho que veremos uma corrida bastante interessante em termos de ultrapassagens.”
Fernando Alonso também analisou o assunto, apresentando uma explicação mais técnica sobre o funcionamento do sistema de gerenciamento de energia em Spa-Francorchamps. Segundo o bicampeão mundial, o principal desafio consiste em decidir exatamente onde utilizar a energia disponível ao longo da volta. “Obviamente, Silverstone e Spa dependem muito da gestão de energia. Não é possível utilizar toda a potência disponível em todas as retas. Na próxima semana será exatamente a mesma situação.”
Alonso explicou que uma escolha inadequada pode comprometer o restante da volta. “Se você utilizar toda a energia em Spa entre a Curva 1 e a Curva 5, acabou para o restante da volta. É preciso economizar um pouco nessa parte para ainda ter energia disponível entre a Curva 14 e a chicane Bus Stop.”
Ele concluiu destacando o dilema enfrentado pelos pilotos. “Mas, se você decidir utilizar a energia nessas duas retas, que é a estratégia considerada ideal, então haverá praticamente todo o segundo setor, durante cerca de um minuto, sem qualquer utilização de energia.”
Gabriel Bortoleto prefere aceitar as regras atuais da categoria
Enquanto diversos pilotos continuam discutindo os impactos do atual regulamento, Gabriel Bortoleto demonstrou uma postura diferente diante do tema. O jovem piloto da Audi afirmou que considera improdutivo continuar debatendo um conjunto de regras que permanecerá em vigor por vários anos.
Segundo ele, independentemente das opiniões existentes, todos os competidores precisam trabalhar dentro do regulamento atual. “Obviamente, no ano passado era um conceito diferente, mas acho que devemos virar essa página. Essas são as regras com as quais estamos competindo neste momento.” Bortoleto também destacou que as reclamações constantes não alteram a realidade da categoria. “Se ainda existem pessoas reclamando disso, basta virar a página. Esse é o regulamento que teremos até 2030.”
Com posições diferentes entre pilotos, chefes de equipe e engenheiros, o debate sobre o chamado “yo-yo racing” continua aberto. Enquanto alguns defendem que a gestão de energia reduz a naturalidade das disputas em pista, outros entendem que ela representa apenas mais um elemento estratégico da Fórmula 1 moderna.
Em Spa-Francorchamps, um circuito marcado por longas retas e altas velocidades, o comportamento dos carros voltará a colocar essa discussão em evidência ao longo de todo o fim de semana.
Foto: (Fórmula 1)



