Phoenix Suns.
Basquete NBA

Suns tentam escapar do destino dos Bucks e mostram que aprenderam com os erros do passado

Durante muito tempo, o Phoenix Suns foi apontado como um dos maiores exemplos de uma franquia disposta a fazer qualquer coisa para disputar um título da NBA. Escolhas de Draft foram embora, contratos pesados chegaram e o famoso “vamos resolver depois” virou quase uma filosofia de trabalho. Só que o “depois” finalmente chegou. A diferença é que, ao contrário do Milwaukee Bucks, a franquia do Arizona parece ter entendido que insistir no mesmo caminho poderia levá-la a um beco sem saída.

Hoje, o cenário é curioso. Os Suns ainda carregam as consequências de decisões tomadas nos últimos anos, principalmente por causa do alto valor em contratos que continuam pesando na folha salarial sem sequer estarem em quadra. Ao mesmo tempo, conseguiram montar um elenco profundo, equilibrado e com margem para desenvolver jovens talentos sem abrir mão da competitividade.

Não significa que Phoenix seja favorito ao título. Longe disso. Mas olhando para a situação atual da Conferência Oeste, é difícil não reconhecer que a diretoria conseguiu reorganizar a casa melhor do que muitos imaginavam.

Exemplo do Bucks serve como alerta pros Suns

Se existe uma franquia que representa perfeitamente o risco de apostar tudo no presente, ela atende pelo nome de Milwaukee Bucks.

É claro que existe uma diferença importante entre as duas histórias. Milwaukee conquistou um campeonato da NBA durante esse ciclo agressivo, algo que naturalmente justifica boa parte das decisões tomadas pela diretoria.

Ainda assim, o preço cobrado veio alguns anos depois.

Os Bucks abriram mão de escolhas importantes de Draft para contratar Jrue Holiday. Posteriormente, gastaram ainda mais ativos para trazer Damian Lillard. Quando perceberam que o projeto já não funcionava como esperado, precisaram dispensar e parcelar o contrato do armador, situação parecida com a vivida pelos Suns após a saída de Bradley Beal.

O resultado foi um efeito dominó.

Sem flexibilidade financeira e praticamente sem ativos para negociar, Milwaukee acabou entrando em reconstrução e, por fim, decidiu negociar Giannis Antetokounmpo, um dos maiores jogadores de sua história recente.

Hoje, o elenco perdeu identidade, ainda possui contratos questionáveis e tenta reconstruir praticamente do zero.

É justamente esse cenário que Phoenix quer evitar.

Reconstrução dos Suns aconteceu sem abandonar a competitividade

Em vez de insistir em novas apostas desesperadas, a diretoria dos Suns decidiu mudar completamente a estratégia.

A prioridade passou a ser recuperar flexibilidade, montar um elenco mais equilibrado e criar um ambiente capaz de permanecer competitivo mesmo sem grandes movimentos de mercado.

O curioso é que isso aconteceu em uma situação bastante complicada.

A franquia ainda convive com aproximadamente 23,2 milhões de dólares em “dead cap”, valor referente a contratos que continuam impactando a folha salarial mesmo após as saídas dos jogadores.

Grande parte desse montante vem da rescisão envolvendo Bradley Beal, além de compromissos financeiros ligados a Nassir Little e EJ Liddell.

Na prática, é dinheiro que ocupa espaço no teto salarial sem oferecer qualquer produção dentro das quatro linhas… ou melhor, da quadra.

Elenco que oferece várias possibilidades

Mesmo convivendo com essa limitação, os Suns conseguiram montar um grupo bastante interessante.

O técnico Jordan Ott terá diferentes formações à disposição dependendo do adversário.

Se a necessidade for aumentar a intensidade defensiva, existem jogadores capazes de pressionar, marcar múltiplas posições e elevar o nível físico da equipe. Caso o plano seja apostar em um ataque mais veloz e espaçado, também há bons arremessadores espalhados pelo elenco.

Essa versatilidade talvez seja o maior mérito da montagem atual.

Ao contrário das últimas temporadas, quando a equipe dependia excessivamente de poucas estrelas, o elenco agora apresenta diferentes soluções para diferentes situações de jogo.

Isso também cria um ambiente mais favorável para o desenvolvimento dos jovens atletas, algo que havia sido praticamente deixado de lado durante o período das contratações milionárias.

Peso dos 23 milhões de dólares

Ainda assim, é impossível não pensar no famoso “e se…?”.

Os Suns estão limitados pelo segundo apron da NBA, mecanismo criado para impedir que franquias ultrapassem determinados níveis de gastos.

Atualmente, a folha salarial da equipe gira em torno de 216,8 milhões de dólares, ficando muito próxima do limite de aproximadamente 222 milhões.

Se aqueles 23,2 milhões de dólares em contratos inativos não existissem, a conversa seria completamente diferente.

Na teoria, Phoenix poderia ter espaço suficiente para adicionar mais um jogador de alto nível ao elenco.

E quando se observa quais atletas recebem salários entre 23 e 26 milhões de dólares por temporada, fica fácil imaginar como esse elenco poderia ganhar outro patamar.

Entre os nomes que ocupam essa faixa salarial aparecem jogadores como Myles Turner, Jaden McDaniels, Dyson Daniels, Josh Giddey, Fred VanVleet, De’Andre Hunter, Keegan Murray, Jabari Smith Jr., Naz Reid, Isaiah Hartenstein, Nic Claxton e Cameron Johnson.

Obviamente, nenhum deles simplesmente chegaria a Phoenix apenas porque existe espaço financeiro. Seriam necessárias trocas, encaixes salariais e negociações bastante complexas.

Mesmo assim, a lista ajuda a ilustrar o tamanho do impacto causado por decisões tomadas anos atrás.

Devin Booker fez diferença também fora da quadra

Outro fator importante nessa reconstrução atende pelo nome de Devin Booker.

Enquanto Giannis Antetokounmpo pressionava, mesmo que indiretamente, para que Milwaukee continuasse apostando todas as fichas em elencos competitivos, Booker adotou uma postura completamente diferente.

O principal jogador dos Suns nunca alimentou especulações públicas sobre uma possível saída nem utilizou a imprensa para aumentar a pressão sobre a diretoria.

Pelo contrário.

O armador sempre demonstrou confiança no planejamento da franquia e permitiu que a organização buscasse soluções de longo prazo sem precisar fazer movimentos desesperados apenas para satisfazer sua principal estrela.

Essa estabilidade faz enorme diferença quando se pensa na construção de um projeto sustentável.

Título talvez ainda esteja distante

Mesmo reconhecendo o excelente trabalho realizado pela diretoria, é difícil colocar Phoenix entre os grandes favoritos ao título da NBA.

Falta justamente aquele jogador de alto impacto que poderia ocupar o espaço financeiro atualmente comprometido pelo “dead cap”.

Esse atleta elevaria o teto competitivo da equipe de forma significativa.

Por outro lado, também seria injusto ignorar tudo o que foi construído recentemente.

Os Suns possuem profundidade, diferentes características dentro do elenco, jovens em evolução e uma identidade que parecia perdida há pouco tempo.

Além disso, existe outro detalhe importante: a franquia não controla boa parte de suas escolhas futuras de Draft. Isso significa que perder propositalmente partidas para buscar uma reconstrução completa simplesmente não faz sentido.

Presente parece muito melhor do que o futuro vivido pelos Bucks

No fim das contas, talvez essa seja a principal conclusão.

Phoenix Suns ainda paga pelos próprios erros, mas conseguiu reorganizar a casa antes que a situação se tornasse irreversível.

Os Bucks seguiram apostando cada vez mais alto até que não restassem fichas para colocar na mesa. Os Suns, por outro lado, decidiram parar, reorganizar as contas e construir um elenco capaz de competir sem comprometer ainda mais o futuro.

Pode ser que essa estratégia não seja suficiente para conquistar um campeonato imediatamente. A Conferência Oeste continua extremamente forte e diversos rivais possuem elencos mais talentosos.

Ainda assim, olhando para onde a franquia estava há pouco tempo e comparando com o cenário atual, os Suns parecem ter encontrado um caminho mais sustentável. Talvez não seja o atalho para um título, mas certamente evita que a equipe repita um roteiro que Milwaukee conhece muito bem: apostar tudo hoje e descobrir amanhã que a conta ficou cara demais.

FOTO: Arianna Grainey/Imagn Images