A próxima temporada da Premier League começa com uma questão que vai além da força dos elencos. Em quase metade da competição, os clubes ainda precisarão descobrir como responderão a novas ideias, métodos de trabalho e escolhas táticas. Oito equipes já possuem novos técnicos efetivos, enquanto o Newcastle deve elevar esse número para nove com a provável contratação de Matthias Jaissle.
Caso a mudança no Newcastle seja confirmada, a temporada 2026/27 terá o maior número de novos treinadores em uma rodada de abertura da primeira divisão inglesa. O recorde anterior pertencia à campanha 2016/17, quando oito equipes começaram a competição sob novos comandos.
O número ganha ainda mais importância devido ao peso dos clubes envolvidos. Liverpool, Manchester City e Chelsea trocaram de técnico, enquanto o Newcastle também passa por uma reformulação após a saída de Eddie Howe. Desta forma, equipes acostumadas a ocupar posições importantes na Premier League iniciarão a temporada tentando construir novas identidades.
Gigantes da Premier League tentam iniciar novos ciclos
No Manchester City, Enzo Maresca terá a responsabilidade de assumir o espaço deixado por Pep Guardiola, que renunciou ao cargo após uma passagem marcada por muitos títulos. A saída encerra um dos períodos mais dominantes da história do futebol inglês e obriga o clube a encontrar novos caminhos depois de anos seguindo as ideias do treinador espanhol.
A situação do Liverpool também envolve uma mudança importante. Arne Slot foi demitido, abrindo espaço para a chegada de Andoni Iraola. O novo treinador assume um clube que conquistou a Premier League recentemente, mas que agora decidiu mudar de direção, após uma campanha decepcionante na temporada 2025/26. Um ponto interessante é que Slot havia sido o último técnico a vencer o Campeonato Inglês em sua primeira temporada, alcançando o feito em 2024/25.
Já o Chelsea recorreu a Xabi Alonso após o fim da curta passagem de Liam Rosenior. Com mais uma troca, os Blues seguem tentando encontrar estabilidade, enquanto o novo treinador chega pressionado a transformar um elenco de qualidade em uma equipe mais competitiva. Enquanto isso, no Newcastle, a saída de Howe coloca Matthias Jaissle como o nome esperado para assumir o projeto às vésperas do início da temporada.
As mudanças também atingiram outros clubes da Premier League. Marco Rose substituiu Iraola no Bournemouth, enquanto Oliver Glasner deixou o Crystal Palace ao final do contrato e assumiu o Nottingham Forest depois da demissão de Vítor Pereira. Neste cenário, Pierre Sage ficou com a vaga aberta no Palace.
Além disso, o Fulham contratou Álvaro Arbeloa após o encerramento do vínculo de Marco Silva, enquanto Gary O’Neil chegou ao Ipswich Town depois da renúncia de Kieran McKenna. O cenário criou uma sequência de mudanças conectadas, com a saída de alguns treinadores provocando novas movimentações dentro da própria liga.
O recorde anterior oferece uma comparação interessante. Em 2016/17, Guardiola iniciou seu trabalho no Manchester City, enquanto Antonio Conte assumiu o Chelsea e conquistou o título logo em sua primeira temporada. No entanto, repetir um impacto semelhante está longe de ser algo comum.
Desde a criação da Premier League, apenas seis treinadores foram campeões em sua primeira temporada no comando de um clube. José Mourinho abriu a lista pelo Chelsea em 2004/05, antes de Carlo Ancelotti repetir o feito no mesmo clube em 2009/10. Manuel Pellegrini venceu com o Manchester City em 2013/14, Claudio Ranieri comandou a histórica conquista do Leicester em 2015/16, Conte levantou a taça na temporada seguinte e Slot completou o grupo com o Liverpool.
Trocas aumentam a imprevisibilidade, mas não garantem evolução na Premier League
A quantidade de novos treinadores deve tornar o início da Premier League especialmente difícil de analisar. A primeira rodada pode ter três confrontos entre equipes que passaram por mudanças: Fulham contra Chelsea, Manchester City diante do Bournemouth e Newcastle recebendo o Liverpool.
Iraola encontrará um cenário ainda mais incomum. Os seis primeiros adversários do Liverpool na competição também começarão a temporada com novos técnicos efetivos. Depois do Newcastle, os Reds enfrentarão Nottingham Forest, Ipswich Town, Fulham, Bournemouth e Manchester City.
Com tantas equipes se adaptando ao mesmo tempo, o conhecido efeito imediato causado pela chegada de um novo treinador será colocado à prova. Normalmente, a troca pode renovar a motivação do elenco, alterar escolhas táticas e provocar uma reação rápida. Porém, os resultados recentes da própria Premier League indicam como esse crescimento inicial pode desaparecer em pouco tempo.
Michael Carrick, por exemplo, somou uma média de 2,6 pontos por partida em seus primeiros cinco jogos pelo Manchester United. Rosenior registrou o mesmo desempenho no começo de sua passagem pelo Chelsea. Ainda assim, os Blues venceram apenas um dos últimos oito jogos de Premier League sob seu comando, uma queda que resultou na demissão do treinador.
A temporada passada já havia apresentado 11 mudanças nos bancos de reservas. O Nottingham Forest trabalhou com três técnicos durante a campanha, o Tottenham mudou de treinador duas vezes e o Chelsea também decidiu seguir um novo caminho antes do encerramento da competição. Em diversos casos, as trocas não foram suficientes para solucionar os problemas das equipes.
Atualmente, um treinador permanece em média por aproximadamente 20 meses no comando de um clube da primeira divisão inglesa. Carrick ajuda a ilustrar esse cenário. Embora tenha sido efetivado pelo Manchester United apenas em maio, somente dez técnicos da liga estão no cargo há mais tempo. O treinador também é o sétimo nome efetivo dos Diabos Vermelhos desde a aposentadoria de Sir Alex Ferguson, em 2013.
O desempenho das equipes também depende diretamente da qualidade dos jogadores, dos investimentos e das condições encontradas dentro de cada clube. Uma pesquisa abordada pelo Financial Times, baseada nas conclusões do livro Soccernomics, de Simon Kuper e Stefan Szymanski, aponta esses fatores como indicadores mais confiáveis de resultados do que a simples mudança no comando. A consultoria esportiva Twenty First Group também avalia que o ambiente recebido por um treinador pode pesar tanto quanto sua própria capacidade.
Neste cenário, a Premier League vive uma troca de geração. Pela primeira vez desde 1985/86, a primeira divisão inglesa começará sem Sir Alex Ferguson, Arsène Wenger, José Mourinho, Jürgen Klopp ou Guardiola em um de seus bancos de reservas. Juntos, eles conquistaram 26 dos 34 títulos da era Premier League e ajudaram a definir diferentes períodos do futebol inglês.
Mikel Arteta, no Arsenal desde dezembro de 2019, agora é o técnico há mais tempo no cargo na competição. Após conduzir os Gunners ao título na última temporada, o espanhol terá a oportunidade de defender a conquista, algo que apenas Ferguson, Mourinho e Guardiola conseguiram fazer na história da Premier League.
Enquanto Arteta tenta transformar a continuidade em mais um título, seus principais rivais entrarão em campo ainda buscando respostas sob novos comandos. O recorde de trocas amplia as dúvidas sobre a temporada e abre espaço para o surgimento de novas forças nos bancos de reservas. A campanha 2026/27 começará justamente com essa disputa entre projetos que ainda estão sendo construídos e um campeão que tenta manter o caminho já estabelecido.
Créditos da foto de capa: Getty Images.



