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Automobilismo Fórmula 1

Antes de Miami e Las Vegas: a história esquecida de Briatore com Trump para levar a F1 a Nova Jersey

Muito antes da Fórmula 1 transformar os Estados Unidos em um dos mercados mais importantes do calendário, Flavio Briatore e Donald Trump chegaram a trabalhar juntos em uma ideia que hoje parece quase óbvia: levar um Grande Prêmio para a região de Nova York.

O projeto, porém, acabou ficando pelo caminho. Na época, a categoria ainda estava muito distante do nível de popularidade que alcançaria anos depois em solo americano, e encontrar um local adequado para receber uma corrida se mostrou uma tarefa complicada. Nova York foi rapidamente descartada por questões logísticas, enquanto Nova Jersey apareceu como uma alternativa mais viável.

A história foi revelada pelo próprio Briatore, atual conselheiro executivo da Alpine, em uma entrevista na qual também explicou por que o projeto não avançou e defendeu uma mudança importante no calendário atual da F1: a realização de uma corrida Sprint em todos os 24 Grandes Prêmios.

Briatore e Trump tentaram colocar a F1 em Nova York

Hoje, falar em Fórmula 1 nos Estados Unidos é algo completamente diferente. O país conta atualmente com três etapas no calendário: Austin, Miami e Las Vegas. A última delas retornou ao campeonato em 2023 e rapidamente se tornou um dos eventos mais chamativos da temporada.

A categoria também ganhou uma enorme quantidade de fãs nos últimos anos, impulsionada pela expansão comercial e pelo sucesso da série Drive to Survive. Mas houve um período em que a realidade era completamente diferente. Foi justamente nessa época que Briatore decidiu tentar encontrar um caminho para levar a F1 à região de Nova York.

O italiano já tinha experiência em grandes negócios e promoção esportiva e conhecia Donald Trump, que naquele momento começava a ganhar ainda mais notoriedade nos Estados Unidos por meio do programa de televisão The Apprentice. Trump também tinha experiência como promotor de eventos, principalmente no boxe e em grandes espetáculos. Para Briatore, esse conhecimento poderia ser útil para encontrar um espaço para a Fórmula 1 no mercado americano.

O problema era que Trump não entendia praticamente nada de F1. Isso, no entanto, não impediu Briatore de colocá-lo em contato com Bernie Ecclestone, então o principal responsável pelos negócios da categoria. A ideia era simples: encontrar um lugar adequado na região de Nova York e descobrir se seria possível transformar o projeto em realidade.

Nova York ficou de lado, e Nova Jersey entrou no plano

A primeira conclusão foi de que realizar uma corrida dentro de Nova York seria complicado demais. A cidade oferecia enorme visibilidade, mas também apresentava uma série de obstáculos logísticos. Construir uma estrutura capaz de receber um Grande Prêmio em uma região tão densamente ocupada exigiria investimentos e planejamento de proporções gigantescas. Foi então que Nova Jersey apareceu como alternativa.

Segundo Briatore, Trump rapidamente identificou o estado vizinho como uma opção muito mais viável para o projeto. Com o local em mente, Ecclestone começou a conversar com diferentes grupos interessados em organizar o evento. O plano chegou a avançar para negociações com algumas partes, mas acabou não encontrando condições suficientes para sair do papel.

E havia um problema ainda maior do que logística ou dinheiro: a Fórmula 1 simplesmente não era grande o bastante nos Estados Unidos. Naquele momento, NASCAR e IndyCar dominavam a atenção dos fãs americanos. As duas categorias tinham uma conexão muito mais forte com o público local, enquanto a F1 ainda era vista como um campeonato distante e pouco relevante.

Briatore explicou que a categoria não era considerada um produto especial no mercado americano daquela época. Hoje, olhando para o cenário atual, é difícil imaginar essa realidade.

O projeto fracassou mas o mercado americano mudou completamente

O curioso é que a ideia de Briatore acabou se tornando realidade de uma maneira completamente diferente anos depois. A Fórmula 1 finalmente conseguiu se estabelecer nos Estados Unidos e hoje possui três corridas no país. Austin se consolidou como uma das etapas mais tradicionais do calendário, Miami entrou com enorme força e Las Vegas foi transformada em um dos maiores espetáculos esportivos do mundo.

A diferença está principalmente na popularidade conquistada pela categoria. A F1 deixou de competir diretamente com NASCAR e IndyCar por espaço e passou a atrair um público muito mais amplo. O crescimento comercial também fez com que grandes marcas e celebridades se aproximassem do campeonato.

O projeto de Nova Jersey, portanto, fracassou em uma época em que a Fórmula 1 ainda não tinha o peso necessário para justificar uma operação desse tamanho. Hoje, uma corrida na região de Nova York seria vista de maneira completamente diferente.

O caso também mostra como o crescimento da categoria nos Estados Unidos não aconteceu da noite para o dia. Houve tentativas anteriores, algumas delas bastante ambiciosas, que não conseguiram prosperar justamente porque o mercado ainda não estava preparado. Briatore e Trump estavam tentando antecipar uma tendência que só se consolidaria muitos anos depois.

Briatore quer Sprint em todas as corridas da F1

Na mesma entrevista, Briatore apresentou outra ideia bastante ambiciosa, desta vez relacionada ao formato esportivo da Fórmula 1. O dirigente da Alpine defendeu que as corridas Sprint deveriam ser realizadas em todos os 24 Grandes Prêmios do calendário.

Atualmente, o formato é utilizado apenas em algumas etapas selecionadas. A ideia é oferecer uma segunda disputa competitiva durante o fim de semana, mas Briatore acredita que a F1 poderia ir muito além. Para o italiano, os fins de semana tradicionais ainda oferecem pouco espetáculo para o público em determinados momentos, especialmente às sextas-feiras. Grande parte das atividades é dedicada a testes, coleta de dados e preparação dos carros para a corrida principal.

Isso é fundamental para as equipes, mas não necessariamente oferece o mesmo entretenimento para quem está acompanhando das arquibancadas ou pela televisão. A Sprint, na visão de Briatore, resolve parte desse problema. Com uma corrida adicional, os pilotos teriam mais uma oportunidade de disputar posições e somar pontos, enquanto os fãs teriam uma sessão competitiva a mais para acompanhar.

Mais corridas ou mais espetáculo?

A proposta, naturalmente, também levantaria questões sobre o desgaste dos pilotos e das equipes. Adicionar uma Sprint a todas as etapas significaria aumentar consideravelmente o número de disputas competitivas ao longo do ano. Isso poderia elevar os custos, aumentar a pressão sobre componentes e deixar os finais de semana ainda mais intensos.

Por outro lado, a Fórmula 1 vive justamente uma fase em que procura aumentar o entretenimento sem perder sua identidade esportiva. O formato Sprint já mostrou que existe demanda por mais ação durante os fins de semana. A questão é encontrar o equilíbrio entre proporcionar mais corridas e não transformar o campeonato em um calendário excessivamente pesado.

Briatore não parece ter dúvidas sobre qual caminho seguir. Para ele, 24 Grandes Prêmios deveriam significar 24 oportunidades de assistir a uma Sprint e, consequentemente, 24 finais de semana com duas disputas valendo alguma coisa.

A ideia de levar a Fórmula 1 para a região de Nova York e a proposta de transformar todas as etapas em fins de semana com Sprint têm algo em comum: Briatore sempre enxergou a categoria também como um grande espetáculo. Décadas atrás, ele tentou fazer isso ao lado de Trump em um mercado que ainda não estava pronto para a F1. Hoje, os Estados Unidos são um dos principais pilares comerciais da categoria.

O projeto de Nova Jersey nunca saiu do papel. Mas, olhando para o sucesso atual da Fórmula 1 no país, talvez Briatore estivesse apenas algumas décadas adiantado.