verstappen
Automobilismo Fórmula 1

Max Verstappen está tirando mais do carro do que ele realmente oferece?

A primeira metade da temporada 2026 deixou uma impressão curiosa sobre Max Verstappen. O tetracampeão não está brigando constantemente por vitórias, como aconteceu em anos recentes, e a Red Bull começou o novo regulamento bem atrás das principais concorrentes. Ainda assim, quando o RB22 encontra uma janela minimamente favorável, Verstappen aparece. E, em algumas ocasiões, parece conseguir colocar o carro em uma posição que não necessariamente corresponde ao ritmo apresentado pela equipe.

Os números ajudam a explicar essa sensação. Depois de 11 GPs, Verstappen soma 109 pontos, com três pódios consecutivos nas últimas três etapas, segundo na Áustria, terceiro na Bélgica e novamente segundo na Hungria. Ao mesmo tempo, ele já enfrentou dois abandonos e passou por finais de semana nos quais a Red Bull simplesmente não tinha velocidade suficiente para acompanhar Mercedes, Ferrari ou McLaren.

A pergunta, portanto, não é apenas onde Verstappen está no campeonato. É quanto desse resultado vem da força do RB22 e quanto pode ser colocado na conta do piloto.

Um começo de ano muito mais difícil do que o habitual

A Red Bull entrou em 2026 diante de um desafio completamente diferente. Além da mudança radical nas regras técnicas, a equipe passou a trabalhar com sua própria unidade de potência, desenvolvida pela Red Bull Powertrains em parceria com a Ford. O RB22, portanto, era um projeto que precisava acertar praticamente tudo ao mesmo tempo. O problema é que o carro não começou a temporada pronto para brigar pelo topo. A própria Red Bull passou boa parte do início do campeonato tentando entender como extrair desempenho do RB22, enquanto Mercedes, Ferrari e, posteriormente, McLaren mostravam maior consistência.

Verstappen terminou apenas em sexto na abertura, na Austrália, abandonou na China e foi oitavo no Japão. Em Miami, conseguiu se recuperar com um quinto lugar, antes de finalmente chegar ao pódio no Canadá. O cenário era ainda mais complicado porque o problema da Red Bull não parecia ser simplesmente falta de potência. O carro apresentava dificuldades para encontrar uma janela de funcionamento consistente. Em outras palavras, havia velocidade escondida no RB22, mas nem sempre os engenheiros conseguiam colocá-la na pista.

Isso ajuda a entender por que Verstappen alternou resultados muito fortes com atuações mais discretas. Quando o acerto funcionava, ele conseguia se aproximar dos líderes. Quando não funcionava, até mesmo o tetracampeão encontrava dificuldades.

Verstappen aparece quando a Red Bull encontra a janela certa

A evolução ficou mais clara na segunda metade da primeira parte do campeonato. Em Barcelona, Verstappen largou em quinto, mas ficou a menos de quatro décimos da pole de George Russell. O próprio piloto considerou o resultado melhor do que esperava e avaliou que havia potencial para começar ainda mais à frente.

Na Áustria, a situação ficou ainda mais evidente. Verstappen largou em quinto depois de um problema na classificação, mas fez uma excelente recuperação na corrida e terminou em segundo, apenas 1,611s atrás de George Russell. A Red Bull tinha um carro suficientemente competitivo para brigar na frente, mas perdeu a oportunidade de vencer depois de uma decisão estratégica que deixou Verstappen atrás de Russell após a parada.

Em Spa-Francorchamps, Verstappen voltou a mostrar força em uma pista que exige eficiência aerodinâmica e velocidade de reta. Ele conquistou a segunda posição no grid, com a Red Bull utilizando até mesmo uma estratégia de vácuo entre seus dois carros para ajudá-lo na classificação.

Na corrida, terminou em terceiro, atrás de Kimi Antonelli e Charles Leclerc. São resultados que dizem bastante sobre o momento da equipe: a Red Bull não parece ter, de maneira consistente, o melhor carro do grid. Mas Verstappen continua conseguindo transformar oportunidades em resultados de ponta.

O RB22 também está cobrando seu preço

O problema é que o carro ainda parece extremamente difícil de colocar no ponto. E a classificação da Hungria foi talvez o exemplo mais claro disso. Verstappen terminou apenas em quarto no grid, mas o resultado poderia ter sido ainda pior. Durante o Q3, o RB22 perdeu desempenho progressivamente, e o holandês chegou a rodar na última curva. Segundo o piloto, o carro estava ficando cada vez mais difícil de conduzir e apresentava uma degradação aerodinâmica severa ao longo da sessão.

A situação também ajuda a explicar por que a Red Bull tem sido tão irregular. Em determinados momentos, o carro parece capaz de disputar posições com Mercedes, Ferrari e McLaren. Em outros, perde terreno rapidamente e obriga Verstappen a fazer uma corrida de recuperação ou simplesmente aceitar que não há ritmo para acompanhar os líderes.

Isso torna ainda mais relevante a atuação do piloto. Um carro realmente dominante costuma oferecer uma margem maior para erros e inconsistências. O RB22, pelo contrário, parece exigir que Verstappen esteja constantemente no limite para extrair seu potencial.

Os resultados mostram que Verstappen está entregando acima do esperado?

Há argumentos fortes para responder que sim. Depois de 11 corridas, Verstappen tem duas segundas colocações e dois terceiros lugares entre seus resultados, além de um quarto lugar na Espanha e um quinto em Miami. Ao mesmo tempo, sofreu abandonos na China e em Mônaco e teve outro fim de semana complicado na Inglaterra, quando problemas na unidade de potência durante a classificação contribuíram para uma largada apenas em sétimo.

O resultado mais significativo talvez seja a sequência recente. Desde a Áustria, Verstappen terminou todas as corridas no pódio: segundo na Áustria, terceiro na Bélgica e segundo na Hungria. É uma sequência que dificilmente pode ser explicada apenas pela força do carro, especialmente porque a Red Bull não foi a equipe dominante em nenhuma dessas etapas.

Ao mesmo tempo, seria exagero dizer que Verstappen está carregando sozinho uma Red Bull completamente incapaz de competir. O RB22 claramente evoluiu durante o ano. A equipe conseguiu reduzir parte da desvantagem inicial e, em circuitos específicos, mostrou ritmo suficiente para lutar pelas primeiras posições.

O próprio desempenho de Verstappen também precisa ser analisado com cuidado. Ele teve erros, abandonos e classificações abaixo do esperado. Portanto, a primeira metade de 2026 não foi perfeita para o holandês. Mas a questão central permanece: quantos pilotos conseguiriam colocar esse mesmo carro tão frequentemente entre os três primeiros?

A segunda metade pode responder à pergunta

É justamente aí que está a maior expectativa para o restante de 2026. Se a Red Bull conseguir tornar o RB22 mais previsível e ampliar a janela de funcionamento do carro, Verstappen pode ganhar uma ferramenta muito mais competitiva para lutar pelo campeonato. A equipe já mostrou que consegue chegar perto. O problema é transformar essas aparições pontuais em desempenho constante.

E existe uma diferença importante entre as duas coisas. Se Verstappen continuar terminando no pódio enquanto a Red Bull ainda apresenta limitações evidentes, o argumento de que ele está tirando mais do carro do que ele oferece ficará cada vez mais forte. Se, por outro lado, as próximas atualizações colocarem o RB22 definitivamente na briga pela vitória, será possível concluir que parte do que parecia ser uma “mágica” do holandês era, na realidade, potencial que a equipe ainda não havia conseguido extrair.

Por enquanto, porém, os sinais apontam para uma combinação dos dois fatores. A Red Bull está mais competitiva do que no começo do ano, mas ainda não possui a consistência da Mercedes. E Verstappen, mesmo longe de dominar como em temporadas anteriores, segue encontrando maneiras de transformar um carro irregular em resultados que mantêm seu nome entre os protagonistas.

A primeira metade de 2026, portanto, não mostrou o melhor Verstappen possível, nem a melhor Red Bull possível. Mas mostrou algo talvez ainda mais interessante: um tetracampeão conseguindo fazer um carro que nem sempre parece pronto para vencer terminar regularmente onde poucos esperariam que ele estivesse.

Foto: (Reprodução/ Globo Esporte)