Quando Mikel Arteta chegou ao Arsenal, o clube ainda tentava encontrar um caminho para voltar a competir no topo da Inglaterra. O técnico espanhol estabeleceu um processo de reconstrução que levou os Gunners novamente ao título da Premier League. Agora, porém, o desafio é ainda maior: transformar uma equipe campeã em uma equipe capaz de construir uma dinastia.
O Arsenal não conquista títulos consecutivos do Campeonato Inglês desde a década de 1930. A última vez que o clube conseguiu defender a taça foi entre 1932/33 e 1934/35, quando venceu três edições consecutivas. Nem mesmo as grandes equipes de Arsène Wenger, incluindo os famosos “Invencíveis”, conseguiram repetir o título na temporada seguinte.
Arteta, portanto, tem diante de si uma oportunidade histórica. Mas, para chegar lá, o Arsenal precisará evoluir em alguns aspectos que ficaram evidentes durante a última campanha. Apesar do excelente desempenho defensivo, a equipe teve dificuldades para transformar seu domínio territorial em produção ofensiva consistente, principalmente em jogadas de bola rolando.
Esse problema ficou especialmente evidente na final da Champions League. O Arsenal abriu o placar contra o PSG, mas não conseguiu transformar a vantagem em título e acabou derrotado. A dificuldade para criar e finalizar as oportunidades em jogo aberto foi uma das marcas de uma temporada em que o time se destacou muito mais pela organização defensiva e pelas bolas paradas.
Os números reforçam essa impressão. Apesar de ter terminado como campeão inglês, o Arsenal não esteve entre os três melhores da Premier League em algumas das principais métricas ofensivas de jogo aberto. Não se trata de dizer que o ataque foi ruim, mas de reconhecer que existe espaço para uma evolução importante.
E é justamente essa evolução que pode determinar se o Arsenal será apenas o atual campeão ou se conseguirá iniciar uma sequência de conquistas.
Arsenal precisa ser mais imprevisível no ataque
A vitória por 3 a 0 sobre o Manchester City na Community Shield trouxe um sinal positivo. Pela primeira vez em algum tempo, o Arsenal conseguiu transformar sua superioridade em produção ofensiva de forma mais natural. Os três gols vieram em jogadas de bola rolando, enquanto a equipe não precisou recorrer às bolas paradas para criar suas principais oportunidades.
O desempenho não garante que o problema esteja resolvido, mas mostra um caminho que Arteta gostaria de seguir.
A dificuldade é que o mercado de transferências não necessariamente entregou todas as respostas que o treinador esperava. Morgan Rogers era considerado o principal alvo ofensivo antes de o Chelsea contratá-lo por 117 milhões de libras. Depois, o Arsenal voltou suas atenções para Vinícius Júnior, mas o brasileiro decidiu permanecer no Real Madrid.
A única contratação ofensiva mais direta foi Christos Tzolis, que chegou como uma alternativa mais jovem a Leandro Trossard. Com isso, o Arsenal inicia a temporada com boa parte das peças ofensivas que terminaram a campanha anterior. Por isso, a evolução também precisará acontecer internamente.
Martin Zubimendi, Noni Madueke, Viktor Gyökeres e Eberechi Eze tiveram boas temporadas, mas nenhum deles conseguiu atingir um nível que transformasse completamente o ataque do Arsenal. A tendência é que Arteta espere mais desses jogadores em 2026/27.
O caso de Martin Ødegaard talvez seja ainda mais importante. O capitão disputou apenas 14 partidas como titular na Premier League na última temporada, mas ainda assim terminou entre os jogadores que mais criaram chances por 90 minutos na competição.
A vitória sobre o Manchester City mostrou novamente a importância do norueguês para o funcionamento ofensivo da equipe. Se conseguir permanecer saudável e disponível, Ødegaard pode representar praticamente uma “nova contratação” para Arteta.
“Tenho certeza de que, este ano, se conseguirmos mantê-lo em forma e disponível com os jogadores ao redor, veremos um Martin bem diferente”, afirmou o treinador após a Community Shield.
Bruno Guimarães pode mudar o nível do meio-campo
Outro elemento que pode ajudar o Arsenal a encontrar soluções para esse problema é Bruno Guimarães. O brasileiro chegou do Newcastle como a segunda contratação mais cara da história do clube e, apesar de ser reconhecido principalmente pela intensidade defensiva e capacidade de recuperação da bola, também oferece características importantes na construção ofensiva.
Na última temporada, Guimarães esteve entre os dez melhores jogadores da Premier League em passes que quebraram linhas defensivas. É justamente o tipo de recurso que faltou ao Arsenal em alguns momentos da última campanha.
Arteta destacou essa característica ao falar sobre o brasileiro.
“Ele é um jogador que tem um timing e uma intuição incríveis para recuperar a bola e acelerar muito a jogada”, explicou.
Além disso, Guimarães consegue encontrar jogadores entre as linhas, avançar com a bola e aparecer na área. Se formar uma parceria frequente com Ødegaard, pode oferecer ao Arsenal uma alternativa para furar defesas que conseguem bloquear a circulação de bola dos Gunners.
O clube, portanto, não necessariamente precisa encontrar todas as respostas no mercado. Parte delas já pode estar dentro do próprio elenco.
O problema também está do outro lado do campo
Se o Arsenal precisa melhorar ofensivamente, a defesa também apresenta uma preocupação para o início da temporada. William Saliba, peça fundamental do sistema de Arteta, ficará afastado por conta de uma lesão nas costas. E a ausência do francês pesa ainda mais porque uma das principais virtudes do zagueiro é justamente a velocidade para interromper contra-ataques e transições adversárias.
Os números mostram o impacto: a taxa de vitórias do Arsenal cai de 68% para 50% quando Saliba não começa as partidas.
Gabriel continua sendo uma das referências defensivas da equipe, mas a situação física de Jurrien Timber e o histórico de lesões de Ben White aumentam a preocupação. Mesmo com a chegada de Ezri Konsa, a defesa pode começar a temporada menos estável do que o habitual.
Isso significa que o Arsenal talvez não consiga depender exclusivamente de sua força defensiva enquanto o setor ofensivo ainda busca evolução.
E o calendário não será dos mais simples. Aston Villa e Chelsea estão entre os adversários das primeiras três rodadas, colocando os atuais campeões sob pressão desde o começo da campanha.
Evolução, não revolução
Apesar das dúvidas, é importante não perder de vista o ponto de partida do Arsenal. O time é o atual campeão inglês, não perdeu uma partida sequer nos 90 minutos durante sua campanha na Champions League e chega à nova temporada sem passar por uma reconstrução profunda do elenco ou por uma troca de treinador.
Enquanto outros integrantes do chamado “Big Six” atravessam processos de reformulação, o Arsenal trabalha em cima de uma estrutura que já funciona. Por isso, a palavra mais adequada para definir o momento dos Gunners é evolução, e não revolução.
Arteta não precisa transformar o Arsenal em outro time. Precisa fazer com que o time campeão seja um pouco mais eficiente, mais imprevisível e mais capaz de encontrar soluções quando a bola não estiver parada.
A vitória sobre o Manchester City na Community Shield mostrou que esse caminho pode existir. Ødegaard pode voltar a ser protagonista, Bruno Guimarães acrescenta uma nova dimensão ao meio-campo e os reforços da última temporada ainda têm margem para entregar mais. Ao mesmo tempo, a ausência de Saliba exige cuidado para que a equipe não perca justamente uma de suas maiores virtudes.
Depois de anos tentando levar o Arsenal de volta ao topo, Arteta agora enfrenta um desafio diferente. O objetivo já não é apenas conquistar a Premier League.
É provar que o Arsenal pode permanecer lá. E, para isso, o campeão precisará mostrar uma versão ainda melhor de si mesmo.
Créditos da foto de capa: Reprodução/Arsenal FC



