Mikel Arteta, Arsenal. Foto: Glyn Kirk/AFP via Getty Images
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Arteta mantém o Arsenal faminto, e vitória sobre o City dá primeiro sinal

Os Gunners deram o primeiro passo para cumprir a promessa de repetir os feitos triunfais. O Arsenal derrotou o Manchester City por 3 a 0 neste domingo, em Cardiff, e conquistou o Community Shield de 2026. A conquista do primeiro troféu da temporada ainda contou com um show da equipe de Mikel Arteta, que apresentou uma intensidade que remete ao time que finalmente encerrou uma espera de 22 anos pelo título inglês.

É importante, porém, colocar a vitória em perspectiva. O Community Shield está longe de ser uma garantia de sucesso para o restante da temporada. Nos últimos anos, o troféu pouco serviu como indicador do campeão da Premier League: apenas um dos últimos 15 vencedores da competição também terminou a temporada como campeão inglês.

Ainda assim, é impossível ignorar o que aconteceu em Cardiff. O Arsenal entrou em campo com postura de quem não queria deixar qualquer dúvida sobre sua motivação e precisou de apenas 24 segundos para abrir o placar, com Riccardo Calafiori. Foi o gol mais rápido da história do Community Shield desde 1968 e também o primeiro sinal de uma partida em que o Manchester City teve enormes dificuldades para acompanhar o ritmo adversário.

A fome do Arsenal continua intacta

O principal receio depois de uma conquista tão importante quanto a Premier League seria uma queda natural de intensidade. Depois de passar anos perseguindo um objetivo e finalmente alcançá-lo, seria perfeitamente compreensível que os jogadores diminuíssem ligeiramente o ritmo.

Não foi o que aconteceu. Antes mesmo do apito inicial, Cardiff já estava tomada pelos torcedores do Arsenal. A maioria nas arquibancadas era claramente favorável aos Gunners, criando um ambiente muito mais próximo de uma partida em casa. Quando a bola rolou, a atmosfera também apareceu em campo.

O Arsenal pressionou, acelerou a circulação e não permitiu que o Manchester City tivesse tranquilidade para construir suas jogadas. O gol de Calafiori, logo no primeiro minuto, foi consequência dessa postura.

O mais interessante, porém, foi que a vantagem não fez a equipe recuar. O Arsenal continuou procurando o segundo gol e encontrou novas maneiras de atacar uma defesa do City que parecia desconfortável diante da pressão.

Christos Tzolis, em sua estreia oficial, também chamou atenção. O atacante participou da construção ofensiva e apareceu em diferentes zonas do campo, enquanto Leandro Trossard teve uma atuação bastante ativa pelo lado esquerdo.

A pressão acabou dando resultado novamente. Tzolis participou da jogada que terminou no cabeceio de Kai Havertz para fazer 2 a 0, antes de o próprio atacante do Club Brugge contribuir para o terceiro gol, marcado por Martin Odegaard.

O placar mostrou uma superioridade que não estava necessariamente prevista antes da partida. Mas, principalmente, mostrou que o Arsenal não parece disposto a tratar o título inglês como ponto de chegada.

Arteta tem um elenco cada vez mais profundo

Outra conclusão importante está nas opções que Arteta possui à disposição. O treinador conseguiu manter uma estrutura competitiva mesmo com algumas peças importantes começando a partida no banco.

Declan Rice e Bukayo Saka, por exemplo, não estavam entre os titulares depois de um verão desgastante com a seleção inglesa. Ambos participaram do segundo tempo e ganharam minutos importantes antes do início da Premier League.

A situação resume bem o momento do Arsenal. O time campeão não apenas manteve suas principais peças, como também aumentou a concorrência interna.

Isso ficou evidente principalmente na defesa. Álvaro Carreras teve uma atuação segura pela esquerda, justamente em um setor que agora também conta com a concorrência de nomes como Marc Cucurella. Na direita, a disputa também ganhou força, com diferentes opções capazes de ocupar o corredor.

No meio-campo e no ataque, Arteta possui ainda mais alternativas. A capacidade de alternar jogadores sem necessariamente modificar completamente a estrutura permite que o treinador mantenha o nível de intensidade durante uma temporada que será marcada por Premier League, Champions League e copas nacionais.

E esse talvez seja um dos grandes trunfos do Arsenal para 2026/27.

Uma equipe que quer disputar todos os títulos precisa ser capaz de sobreviver às lesões, ao desgaste e à sequência de jogos. O Community Shield mostrou que Arteta possui alternativas, mas também revelou uma questão que pode ser tão importante quanto a qualidade do elenco.

A intensidade de Arteta também exige cuidado

Existe uma característica que acompanha o Arsenal de Arteta há anos: a intensidade. O treinador espanhol construiu uma equipe que pressiona, disputa cada bola e tenta controlar os jogos com agressividade. Essa mentalidade foi fundamental para transformar o Arsenal em campeão inglês novamente.

Mas existe um preço. Thomas Tuchel, treinador da Inglaterra, já demonstrou preocupação com a maneira como alguns jogadores do Arsenal retornaram às atividades internacionais depois de disputarem partidas mesmo sem estarem em condições físicas ideais. O alemão chegou a defender que os clubes avaliassem cuidadosamente os riscos de utilizar atletas importantes em determinadas situações.

Rice e Saka são exemplos disso. Os dois tiveram um verão desgastante com a seleção inglesa e, mesmo sem começarem a partida contra o Manchester City, entraram no segundo tempo para participar de um jogo que, teoricamente, poderia ser tratado como preparação.

A própria postura de Rice ajuda a entender a mentalidade do grupo. O meio-campista teria mantido contato com Arteta durante o período de descanso para discutir quando poderia retornar aos treinamentos.

Arteta resumiu sua visão ao dizer que o clube trata cada situação com naturalidade. O problema é que a natureza do treinador é justamente tentar levar seus jogadores ao limite. E isso pode ser uma vantagem durante uma final. Ao longo de dez meses, porém, pode se transformar em um risco.

O Arsenal não pode se deixar levar pelos fogos de artifício

O Community Shield é, por definição, uma competição difícil de interpretar. É um jogo valendo troféu, mas disputado antes de a temporada realmente começar. As equipes ainda estão ajustando suas peças, jogadores importantes podem estar retornando das férias e os treinadores continuam testando alternativas.

Por isso, o 3 a 0 não significa que o Arsenal já tenha garantido qualquer coisa na temporada. Da mesma maneira, seria precipitado transformar o Manchester City em uma equipe em crise por causa de uma derrota.

Mas existe valor em observar como o Arsenal venceu. Os Gunners não apenas foram mais eficientes. Foram mais intensos, mais agressivos e mais organizados durante boa parte da partida. O time campeão voltou ao campo com a mesma fome que o levou ao título inglês e, dessa vez, encontrou um adversário de enorme peso pela frente.

É exatamente aí que a vitória ganha significado. Rice prometeu que o Arsenal voltaria para mais. Em Cardiff, o clube mostrou que a conquista da Premier League não diminuiu a ambição. Agora, o desafio será transformar essa fome em consistência durante uma temporada muito mais longa e exigente.

Porque o Community Shield pode ser apenas um aperitivo. E, se o Arsenal conseguir manter essa intensidade sem pagar um preço físico alto demais, os adversários terão novamente um problema considerável pela frente.

Créditos da foto de capa: Glyn Kirk/AFP via Getty Images