O Botafogo entrou em campo contra o Cienciano praticamente sem margem para erro. Depois da goleada sofrida por 6 a 1 em Cusco, a missão no Nilton Santos era extremamente difícil, mas o torcedor esperava ao menos uma atuação capaz de devolver parte da confiança perdida nos últimos dias. A vitória por 1 a 0 não foi suficiente para evitar a eliminação da Copa Sul-Americana e ainda deixou uma sensação incômoda: dava para fazer mais.
O placar agregado de 6 a 2 mostra o tamanho do desastre construído no jogo de ida, mas a partida no Rio de Janeiro também expôs os problemas atuais do Botafogo. A equipe criou, dominou a posse de bola no primeiro tempo e acumulou chances claras, mas desperdiçou oportunidades demais. Quando chegou ao intervalo, a sensação era de que o resultado poderia ser bem diferente.
Na etapa final, porém, a intensidade caiu. A ansiedade aumentou, o time perdeu força e a remontada, que já era improvável, ficou ainda mais distante. Ao fim do jogo, as vaias e os gritos de “time sem vergonha” resumiram o sentimento da arquibancada. O Botafogo está eliminado de todas as competições de mata-mata da temporada e agora precisa lidar com uma crise dentro de campo enquanto tenta construir um novo futuro fora dele.
A vitória não foi suficiente para esconder uma eliminação frustrante
O Botafogo até começou a partida de maneira nervosa, mas conseguiu abrir o placar logo aos sete minutos. Danilo Pereira recebeu um belo lançamento de Montoro, aproveitou uma falha do goleiro adversário e marcou. Era exatamente o início que o time precisava para tentar transformar uma missão quase impossível em algo minimamente plausível.
O problema é que o gol não foi acompanhado pela eficiência necessária. O Botafogo teve volume ofensivo, terminou o primeiro tempo com 62% de posse de bola e dez finalizações, mas desperdiçou chances importantes. Arthur Cabral foi o principal símbolo dessa falta de precisão, com três oportunidades claras. Alex Telles e Vitinho também tiveram situações para marcar.
A comparação com o jogo de Cusco ajuda a explicar a frustração. No Peru, o Cienciano havia construído uma vantagem de 4 a 0 ainda no primeiro tempo. No Nilton Santos, o Botafogo teve domínio e criou oportunidades, mas foi incapaz de transformar superioridade em gols. Em uma eliminatória que exigia praticamente uma atuação perfeita, o time voltou a pagar caro por seus próprios erros.
Danilo vira símbolo de um Botafogo que perdeu o rumo
Se Montoro foi um dos destaques positivos da noite, Danilo viveu o outro extremo da relação com a torcida. Há poucos meses, o meia era considerado um dos principais jogadores do Botafogo e vinha de uma fase que o levou até à convocação para a Copa do Mundo. Agora, após o retorno do Mundial, seu rendimento caiu de maneira evidente.
Danilo reconheceu isso após a eliminação. O jogador admitiu que não está vivendo o mesmo momento do início da temporada e afirmou que vai trabalhar para recuperar seu melhor futebol. Também disse entender as vaias recebidas da arquibancada, em uma demonstração de que sabe o tamanho da insatisfação do torcedor.
Mas a situação naturalmente levanta uma pergunta que pode ganhar força nos próximos meses: o Botafogo pode se arrepender de não ter vendido Danilo quando teve oportunidades? Depois da Copa do Mundo, o jogador teve futuro indefinido e houve possibilidades de negociação com Zenit e Palmeiras. O negócio não aconteceu, e agora o clube vê um atleta que, apesar dos dez gols em 30 jogos na temporada, atravessa uma queda de rendimento justamente em um momento de crise coletiva.
O Botafogo deveria ter vendido Danilo?
É impossível afirmar que vender Danilo teria resolvido os problemas do Botafogo. O futebol não permite esse tipo de conclusão simplista. Afinal, uma eventual saída também significaria perder um jogador que demonstrou capacidade de ser decisivo e que foi importante ao longo da temporada. A questão, portanto, não é apenas técnica.
O problema passa pelo contexto. Danilo chegou a expor sua vontade de sair do clube, seu futuro ficou em aberto depois da Copa e as negociações não avançaram. Quando um jogador passa por esse tipo de cenário e, posteriormente, enfrenta uma queda de rendimento, é natural que surja o debate sobre uma possível oportunidade perdida.
Além disso, o Botafogo vive um momento de reconstrução. Gabriel de Alba acompanhou o jogo no Nilton Santos em sua primeira visita ao Rio desde que a GDA Luma passou a atuar nos bastidores da SAF. A presença do novo investidor acontece justamente quando o clube precisa tomar decisões importantes sobre elenco, identidade e planejamento. Danilo, portanto, pode acabar se tornando uma das questões centrais dessa nova fase.
Agora resta o Brasileirão e uma sequência que pode definir o futuro do ano
A eliminação para o Cienciano encerra a participação do Botafogo em competições de mata-mata na temporada. O Campeonato Brasileiro passa a ser a única frente restante e, neste momento, o objetivo é buscar uma vaga na próxima edição da Libertadores. A equipe ocupa a 11ª colocação e está a oito pontos do G-4.
O caminho, no entanto, não será simples. O Botafogo enfrentará Athletico, Flamengo e Palmeiras em sequência, três jogos que podem mudar rapidamente a percepção sobre o restante da temporada. Uma reação positiva pode recolocar o time na briga pela parte de cima. Novos tropeços, porém, podem aprofundar uma crise que já atingiu jogadores, comissão técnica e arquibancada.
O Botafogo venceu o Cienciano, mas saiu derrotado no que realmente importava. A equipe mostrou no primeiro tempo que havia condições de fazer uma partida muito maior, mas a falta de eficiência e a queda de intensidade impediram qualquer possibilidade de uma noite histórica.
Quanto a Danilo, ainda é cedo para decretar que a decisão de mantê-lo foi um erro. Mas o debate existe e tende a crescer se o meia não recuperar rapidamente o nível que apresentou antes da Copa do Mundo. Em um Botafogo que busca reconstruir seu projeto, decisões tomadas — e oportunidades que não foram aproveitadas — podem pesar ainda mais. O clube agora precisa descobrir se Danilo será parte da solução para 2027 ou mais uma questão difícil deixada por uma temporada que, aos poucos, se tornou muito mais complicada do que o planejado.



