Poucas rivalidades do MMA conseguiram manter o mesmo nível de tensão por tantos anos como a de Jon Jones e Daniel Cormier. Mesmo depois de os dois terem deixado o octógono e seguido caminhos diferentes, a relação entre eles continua marcada por provocações, ressentimentos e declarações que mostram que a história está longe de ser completamente esquecida.
O mais curioso é que, para Cormier, o sentimento não parece ser apenas uma ferramenta para promover lutas. O ex-campeão do UFC afirma abertamente que ainda odeia Jones e que provavelmente continuará sentindo isso. A declaração pode parecer exagerada para quem está acostumado com as rivalidades construídas no mundo dos esportes de combate, mas existe uma diferença importante nesse caso: a animosidade entre os dois ultrapassou o período em que eles precisavam vender uma luta.
Jones e Cormier se enfrentaram duas vezes no UFC, com Jones vencendo os dois confrontos. O primeiro duelo aconteceu em 2015, quando Jones venceu por decisão unânime. Anos depois, os dois voltaram a se enfrentar, e Jones venceu novamente, desta vez por nocaute técnico. O resultado da revanche, acabou sendo alterado posteriormente para uma luta sem resultado por causa de uma infração relacionada a doping.
Independentemente da forma como os resultados aparecem oficialmente, a rivalidade esportiva entre os dois produziu uma das histórias mais intensas da história recente do UFC.
A derrota para Jones atingiu Cormier de uma maneira diferente

O aspecto mais interessante da rivalidade está na maneira como Daniel Cormier explica seu próprio ressentimento. Em vez de simplesmente definir Jones como um adversário desagradável ou afirmar que o odiava por causa das provocações, Cormier apresentou uma razão muito mais pessoal.
O ex-campeão explicou que, durante sua carreira no wrestling, havia enfrentado muitos atletas extremamente talentosos. Porém, segundo ele, os lutadores que conseguiram derrotá-lo tinham algo em comum: trabalhavam tão duro quanto ele.
Jones representava algo diferente.
Cormier enxergava no rival um atleta extremamente talentoso, fisicamente privilegiado, muito alto para sua categoria, inteligente dentro do octógono e extremamente resistente. Ao mesmo tempo, acreditava que Jones não trabalhava da mesma maneira que ele.
E foi justamente isso que tornou as derrotas tão difíceis de aceitar.
Para Cormier, sua filosofia estava baseada no trabalho duro, na disciplina e na preparação. Ele acreditava que poderia compensar qualquer diferença de talento através de dedicação. Encontrar alguém que, em sua visão, possuía talentos naturais extraordinários e ainda assim conseguia derrotá-lo sem demonstrar o mesmo nível de trabalho representava uma espécie de choque para sua maneira de enxergar o esporte.
Essa explicação torna a rivalidade ainda mais interessante porque mostra que o problema não estava apenas no resultado das lutas.
Cormier não estava simplesmente frustrado por ter perdido. Ele estava incomodado com o que Jones representava.
O rival era uma espécie de contraponto à própria trajetória de Cormier. Enquanto um construiu sua carreira com uma enorme reputação de disciplina e dedicação, o outro era visto como alguém naturalmente talentoso, capaz de alcançar resultados extraordinários.
Essa diferença ajudou a transformar a rivalidade esportiva em algo muito mais pessoal.
Por que Cormier não quer deixar o passado para trás

Em esportes de combate, é comum que lutadores construam histórias de ódio antes de uma luta e, depois do confronto, revelem respeito pelo adversário. Muitas rivalidades são utilizadas como ferramenta de promoção e desaparecem quando o evento termina.
No caso de Jones e Cormier, o sentimento parece ter sobrevivido ao tempo.
Cormier afirmou recentemente: “Jon Jones, eu ainda odeio você e sempre vou odiar”.
A frase chama atenção justamente porque os dois não precisam mais vender uma luta entre eles. A rivalidade já não possui a mesma utilidade comercial de quando ambos estavam no auge de suas carreiras. Ainda assim, Cormier continua expressando o mesmo ressentimento.
Isso também explica por que algumas declarações de Jones incomodam tanto seu antigo rival. Quando Jones sugere que os dois poderiam ter feito as pazes, Cormier não demonstra interesse em confirmar essa versão.
Para ele, aparentemente, a rivalidade não precisa terminar simplesmente porque os dois deixaram de lutar.
Existe uma discussão interessante sobre guardar rancor. Em termos pessoais, carregar ódio durante muitos anos pode ser prejudicial para quem mantém esse sentimento. O rancor exige energia e mantém uma pessoa presa a acontecimentos do passado.
Mas a história entre Jones e Cormier possui uma particularidade. O próprio Cormier parece ter consciência de por que sente o que sente. Ele consegue identificar a origem de sua frustração e explicar como as derrotas afetaram sua visão sobre o próprio esporte.
É justamente essa honestidade que torna a rivalidade diferente.
Cormier não precisa fingir que superou Jones apenas porque os anos passaram. Ele não precisa transformar uma relação marcada por conflitos em uma amizade artificial para agradar ao público.
A rivalidade entre os dois nasceu dentro de um dos períodos mais importantes do UFC e envolveu dois atletas que estavam entre os maiores nomes de suas gerações. Jones construiu uma carreira marcada por títulos e performances históricas, enquanto Cormier se consolidou como campeão e um dos grandes lutadores de sua geração.
Por isso, mesmo depois da aposentadoria, a história continua despertando interesse.
No fim, talvez seja justamente essa autenticidade que faça Jones x Cormier permanecer tão relevante. Em um esporte no qual muitas rivalidades são criadas para promover eventos, a animosidade entre os dois parece ter ultrapassado o marketing.
Cormier não quer esquecer Jones. Jones continua respondendo às provocações. E, enquanto essa dinâmica permanecer, uma das maiores rivalidades do UFC continuará viva, mesmo sem os dois precisarem voltar ao octógono.
(Foto de capa: UFC)



