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Como a RAF está transformando o wrestling e atraindo estrelas do UFC

O wrestling sempre teve uma relação muito próxima com o MMA. Muitos dos maiores campeões da história do UFC construíram suas carreiras a partir da modalidade, utilizando quedas, controle de posição e domínio físico para neutralizar adversários dentro do octógono. Mesmo assim, durante décadas, o wrestling amador nos Estados Unidos não conseguiu alcançar o mesmo nível de popularidade comercial de esportes como futebol americano, basquete e beisebol.

É justamente nesse espaço que surgiu a Real American Freestyle Wrestling, conhecida como RAF. A organização tenta transformar o wrestling em um produto esportivo mais acessível ao grande público, utilizando elementos de entretenimento, atletas conhecidos e uma estrutura semelhante à de grandes ligas americanas.

Um dos grandes diferenciais da RAF está na aproximação com lutadores do UFC. Nomes como Arman Tsarukyan, Merab Dvalishvili, Tyron Woodley e Henry Cejudo já participaram de eventos da organização, criando uma ligação natural entre dois esportes que possuem uma relação histórica.

A ideia pode parecer simples, mas representa uma oportunidade importante para o wrestling e também para o próprio UFC.

RAF tenta transformar o wrestling em uma grande liga esportiva

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Foto: lowkickmma

Nos Estados Unidos, o wrestling possui uma base muito forte. A modalidade está presente em escolas e universidades e possui uma tradição importante no esporte olímpico. O problema sempre esteve na transformação dessa popularidade em um produto comercial capaz de atrair grandes audiências.

A comparação com outras modalidades ajuda a entender o tamanho desse espaço.

O futebol americano possui a NFL, o basquete possui a NBA e o beisebol possui a MLB. Todas essas organizações conseguiram transformar seus respectivos esportes em grandes produtos de entretenimento.

O wrestling amador, apesar de possuir milhões de praticantes e uma forte presença no sistema educacional americano, não tinha uma organização profissional com o mesmo peso comercial.

A RAF pretende ocupar exatamente esse espaço.

A organização realiza eventos mensais em arenas dos Estados Unidos e já começou a expandir sua atuação internacionalmente. A Geórgia recebeu o primeiro evento fora dos Estados Unidos, enquanto a Rússia está prevista para receber outro evento.

O projeto de Chad Bronstein é ainda maior. A ideia é realizar um evento internacional por mês a partir de 2027, com países como Reino Unido, Turquia, Uzbequistão e Emirados Árabes Unidos entre os possíveis destinos.

A estratégia mostra que a RAF não pretende ser apenas uma competição americana. O wrestling possui uma característica que facilita essa expansão: é um esporte verdadeiramente internacional.

Atletas de diferentes países possuem tradição na modalidade, principalmente em regiões como Europa Oriental, Ásia Central e América do Norte.

A presença de lutadores conhecidos também ajuda a criar interesse.

Arman Tsarukyan, por exemplo, disputou oito combates pela RAF desde sua última luta no UFC, em novembro, enquanto aguardava sua próxima oportunidade no MMA. Merab Dvalishvili também se tornou um dos principais nomes da organização.

Isso cria uma situação interessante para os atletas. Eles conseguem permanecer ativos, competir em uma modalidade diretamente relacionada ao MMA e, ao mesmo tempo, aumentar sua exposição.

Para o UFC, a relação também pode ser vantajosa.

Por que o UFC pode se beneficiar da RAF

Dana White UFC
Foto: IMAGO

Uma das principais discussões levantadas no projeto é justamente a relação entre a RAF e o UFC.

Em vez de enxergar o wrestling como uma concorrência, lutadores e dirigentes defendem que a modalidade pode funcionar como uma extensão da preparação dos atletas de MMA.

Tyron Woodley é um dos defensores mais fortes dessa ideia. Segundo o ex-campeão do UFC, o wrestling pode ajudar os lutadores a permanecerem em forma entre os combates, além de oferecer uma atividade competitiva sem os mesmos impactos de uma luta de MMA.

Existe uma lógica importante por trás disso.

Um lutador do UFC pode passar meses sem competir. Nesse período, ele continua treinando, mas não necessariamente possui uma competição oficial para testar seu condicionamento, sua estratégia e sua capacidade de lidar com pressão.

A RAF oferece justamente essa possibilidade.

O atleta pode competir diversas vezes durante o ano e continuar desenvolvendo habilidades extremamente importantes para o MMA.

A importância do wrestling para o UFC é evidente quando observamos o perfil de diversos campeões e grandes nomes da organização. Quedas, defesa de quedas, controle no chão e capacidade de levantar depois de ser derrubado são elementos fundamentais para muitos estilos de MMA.

Por isso, permitir que lutadores do UFC compitam na RAF pode ser interessante para as duas organizações.

O próprio Bronstein explicou que a RAF não pretende competir diretamente com o UFC. A organização está focada em wrestling, enquanto o UFC continua sendo uma empresa de MMA.

Essa separação também reduz um dos principais riscos.

Uma derrota na RAF não necessariamente prejudica a imagem de um lutador no MMA. O atleta pode perder uma luta de wrestling e, pouco tempo depois, disputar uma grande luta no UFC sem que os dois resultados sejam necessariamente tratados da mesma maneira.

Isso explica por que atletas como Dvalishvili, Tsarukyan e outros podem competir na modalidade.

A história de Ben Askren também demonstra a força dessa conexão. O americano foi wrestler olímpico antes de se tornar campeão de MMA e recentemente voltou a competir na modalidade depois de enfrentar um problema médico extremamente grave.

Outro exemplo foi o reencontro entre Dvalishvili e Henry Cejudo. Os dois já haviam se enfrentado no UFC e voltaram a competir na RAF. Dessa vez, Cejudo conseguiu a vitória ao imobilizar o georgiano em apenas 36 segundos.

Esse tipo de confronto cria histórias que podem ser exploradas pela organização.

Além disso, a RAF está conseguindo gerar atenção nas redes sociais. Confrontos envolvendo Tsarukyan, Georgio Poullas, Khamzat Chimaev e Dillon Danis viralizaram e ajudaram a aumentar a exposição da liga.

Esse aspecto é fundamental para uma organização que ainda está tentando construir sua identidade.

O desafio de transformar o wrestling em um grande espetáculo

merab dvalishvili
Foto: Ufigth

Apesar do crescimento inicial, a RAF ainda enfrenta um desafio enorme.

O wrestling precisa convencer o público que não acompanha a modalidade de que existe entretenimento suficiente para acompanhar uma competição inteira.

Esse é justamente o ponto em que a experiência de pessoas ligadas ao entretenimento esportivo pode fazer diferença.

A ligação com figuras como Hulk Hogan e Eric Bischoff mostra que a organização entende a importância de criar uma identidade comercial.

Ao mesmo tempo, a RAF precisa preservar a credibilidade esportiva do wrestling.

Esse equilíbrio será fundamental.

O esporte possui enorme complexidade técnica. Tyron Woodley explicou que uma luta pode envolver uma sequência constante de movimentos, defesas, ataques e contra ataques. Uma ação prepara a seguinte e exige força, resistência e concentração durante todo o combate.

Essa complexidade pode ser um obstáculo para quem nunca assistiu wrestling, mas também pode se transformar em uma vantagem se a RAF conseguir explicar melhor ao público o que está acontecendo.

Outro fator importante é a preparação física.

Woodley revelou que perdeu aproximadamente 30 libras, cerca de 13,6 kg, durante sua preparação para competir na RAF. Segundo ele, o condicionamento exigido pelo wrestling é extremamente elevado.

Esse aspecto reforça a ideia de que a modalidade não é apenas uma ferramenta complementar para lutadores de MMA. Ela é um esporte completo, com exigências físicas e técnicas próprias.

O futuro da RAF ainda é incerto, mas a organização já encontrou um caminho interessante.

Ao aproximar o wrestling de atletas conhecidos do UFC, criar eventos internacionais e utilizar as redes sociais para alcançar novos fãs, a liga tenta resolver um problema histórico da modalidade nos Estados Unidos: transformar uma tradição esportiva enorme em um produto de entretenimento igualmente grande.

Para o UFC, apoiar esse crescimento pode ser uma decisão estratégica. Quanto mais atletas de alto nível tiverem oportunidades de competir no wrestling, maior pode ser o desenvolvimento de uma habilidade essencial para o MMA.

A RAF, portanto, não precisa necessariamente competir com o UFC para crescer.

Pode fazer exatamente o contrário.

As duas organizações podem construir uma relação na qual o wrestling ganha visibilidade, os atletas permanecem ativos e o UFC recebe lutadores mais preparados para competir no octógono.

E, considerando que a RAF está apenas no início de seu projeto, a ideia de transformar o wrestling em uma grande liga esportiva ainda está longe de atingir seu limite.

 

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Kaique