O Cruzeiro tinha a oportunidade de sair do Mineirão com uma vantagem importante no clássico contra o Atlético-MG. Jogava em casa, contou com mais de 59 mil torcedores e vinha para o duelo com a responsabilidade de aproveitar o fator local antes da decisão na Arena MRV. No fim das contas, porém, saiu com um empate por 1 a 1 e uma sensação que já começa a se repetir de maneira preocupante: o time até consegue competir, mas está encontrando enormes dificuldades para criar.
O problema não apareceu apenas no clássico. O Cruzeiro vem de uma sequência em que a produção ofensiva caiu justamente em um momento decisivo da temporada. Contra o Atlético-MG, a equipe mostrou mais disposição e intensidade do que nos duelos recentes, mas, pela terceira partida consecutiva, não conseguiu criar uma grande oportunidade de gol.
E esse é o tipo de sinal que merece atenção.
Em mata-mata, principalmente em um clássico, nem sempre será possível produzir uma quantidade enorme de chances. Mas, quando o time domina determinados momentos do jogo, empurra o adversário para trás e ainda assim praticamente não consegue transformar isso em perigo, o alerta começa a piscar. E no Cruzeiro, neste momento, ele já está piscando há algum tempo.
Pressão, posse e pouca objetividade
O primeiro tempo no Mineirão foi muito mais brigado do que jogado. Cruzeiro e Atlético-MG protagonizaram um clássico travado, com poucas brechas e bastante disputa física. A Raposa teve dificuldade para encontrar espaços diante de um rival que se organizou para fechar os caminhos pelo meio e reduzir as opções de infiltração.
A melhora veio após o intervalo.
O Cruzeiro aumentou a pressão, passou a ocupar mais o campo ofensivo e finalmente conseguiu abrir o placar. Keny Arroyo acertou um golaço de fora da área, mostrando mais uma vez sua capacidade de resolver situações difíceis através do talento individual. Foi seu terceiro gol em cinco partidas, e a finalização tinha um xG de apenas 0,01. Traduzindo: era um daqueles chutes que não deveriam entrar com frequência, mas entraram porque o jogador decidiu caprichar.
O problema é que o gol não resolveu a questão ofensiva do Cruzeiro. Pelo contrário.
Depois de abrir o placar, o time teve o momento ideal para aproveitar o embalo, aumentar a pressão e tentar construir uma vantagem. O Atlético-MG sentiu o golpe, mas a Raposa não conseguiu transformar aquele período favorável em novas finalizações perigosas.
Pouco depois, veio o castigo.
O Galo encontrou espaço, Cuello serviu Renan Lodi e o lateral apareceu para empatar a partida. O gol nasceu de uma sequência de erros defensivos: Gerson não conseguiu impedir a construção da jogada, a defesa permitiu a infiltração de Lodi e Otávio também deixou espaço no lance. Em um jogo de poucas oportunidades, bastou uma desatenção para que toda a vantagem construída pelo Cruzeiro desaparecesse.
Números mostram o tamanho do problema
O empate não foi apenas uma questão de sensação. Os números ajudam a explicar por que o Cruzeiro deixou o Mineirão com um gosto amargo.
Contra o Atlético-MG, a equipe registrou apenas 0,4 de xG, sua segunda menor marca na temporada sob o comando de Artur Jorge. Além disso, foram somente duas finalizações de dentro da área, o pior desempenho do time nesse fundamento desde a chegada do treinador.
Para piorar, o golaço de Arroyo foi praticamente uma exceção estatística.
O Cruzeiro conseguiu marcar, mas não porque construiu uma jogada que desmontou a defesa adversária. O gol surgiu de uma finalização individual extremamente difícil. Quando a equipe depende de um chute quase perfeito para balançar as redes, fica claro que existe algo a ser ajustado na construção ofensiva.
É como se o Cruzeiro estivesse conseguindo chegar perto da porta, mas esquecesse a chave em casa.
O time tem posse, ocupa o campo adversário e consegue controlar determinados momentos. Só que, quando chega a hora de encontrar o último passe, atacar a área ou finalizar com qualidade, a engrenagem simplesmente não funciona como deveria.
Combatividade melhorou, criatividade continua em baixa
Nem tudo foi negativo para a equipe de Artur Jorge.
Depois de partidas recentes em que o Cruzeiro deixou uma impressão ruim em relação à intensidade, o clássico mostrou uma equipe mais disposta a competir. A Raposa venceu 60% dos duelos pelo chão e conseguiu, defensivamente, limitar as transições do Atlético-MG, uma das principais armas do time comandado por Eduardo Domínguez.
Esse aspecto é importante porque mostra que o Cruzeiro não entrou em uma crise de atitude.
O problema está, principalmente, naquilo que acontece quando o time tem a bola. Falta criatividade, falta movimentação capaz de desmontar blocos defensivos e, em alguns momentos, falta também a capacidade individual de jogadores importantes para encontrar soluções.
Artur Jorge reconheceu justamente essa dificuldade após a partida. O treinador destacou que o Cruzeiro conseguiu empurrar o Atlético-MG para trás, mas não encontrou o caminho para chegar com qualidade à baliza adversária. E esse talvez seja o principal desafio para o jogo de volta.
O Atlético-MG mostrou que pode sobreviver sem dominar a partida. Mesmo pressionado durante alguns momentos, o Galo conseguiu se manter organizado e aproveitou uma das oportunidades que teve para deixar tudo igual.
Em um confronto aberto, essa eficiência pode fazer toda a diferença.
Kaio Jorge e outros nomes precisam responder
Individualmente, alguns jogadores também passaram longe do melhor nível.
Kaio Jorge voltou a ter uma atuação discreta, dando sequência a um momento técnico abaixo do esperado. Wesley também encontrou dificuldades pelo lado esquerdo, enquanto Gerson cresceu apenas na segunda etapa, acompanhando a melhora coletiva do Cruzeiro.
O problema para Artur Jorge é que o elenco reserva também não tem conseguido mudar o panorama das partidas. As alterações até trouxeram fôlego e movimentação em alguns momentos, mas a queda técnica ficou evidente.
Quando os titulares não resolvem e os reservas não conseguem mudar o jogo, o treinador fica com poucas cartas na manga. E, em uma temporada longa, depender sempre de uma inspiração individual não costuma ser uma estratégia muito saudável.
Arroyo resolveu contra o Atlético-MG. Em outro jogo, pode ser Matheus Pereira. Em outro, algum chute improvável. Mas o Cruzeiro precisa voltar a construir gols de maneira mais consistente.
Arena MRV agora muda o cenário
O empate deixou completamente aberta a disputa por uma vaga na semifinal da Copa do Brasil. Um novo empate levará a decisão para os pênaltis, enquanto quem vencer na Arena MRV avança. Mas é impossível ignorar que o cenário ficou mais complicado para o Cruzeiro.
A Raposa perdeu a chance de levar uma vantagem para o segundo clássico e agora precisará encarar o Atlético-MG em seu estádio. O time celeste já demonstrou em outras ocasiões que pode atuar bem como visitante, mas chega para a decisão em um momento menos confiável do que há poucos dias.
O Cruzeiro não precisa entrar em desespero. O confronto está completamente vivo, e uma atuação melhor pode ser suficiente para mudar o rumo da história. Mas Artur Jorge terá de encontrar respostas rapidamente.
A atitude apareceu. A competitividade também. Agora falta o principal para quem quer avançar em um mata-mata: transformar o que produz em gol.
Porque, na Copa do Brasil, não adianta dominar, pressionar e deixar o rival encurralado se, no momento de finalizar, a bola parece ganhar vontade própria e se recusa a entrar. O Cruzeiro ainda tem 90 minutos ou até pênaltis para corrigir essa espiral preocupante. Mas, na Arena MRV, provavelmente não haverá espaço para desperdiçar mais uma boa oportunidade.
Foto: Patricia Guedes/Onzex Press e Imagens/Folhapress



