Lionel Messi movimentou o noticiário esportivo mundial, nesta segunda-feira (31), ao anunciar que estava se despedindo da seleção argentina. Após mais de 20 anos de serviços prestados, o camisa 10 anunciou que a derrota para a Espanha na final da Copa do Mundo de 2026 foi seu último jogo pela Albiceleste. Mas será que essa decisão foi precipitada?
O meio-campista Rodri, da Fúria, foi eleito pela Fifa o melhor jogador do último Mundial. Porém, para muitos analistas — inclusive o autor deste texto —, Messi foi o principal jogador da Copa disputada na América do Norte. Mesmo aos 39 anos, o astro foi extremamente decisivo para a Argentina, com gols, assistências e diversas jogadas geniais.
Justamente por seu desempenho apresentado no torneio da Fifa, a expectativa dos fãs era de que Lionel Messi prolongasse sua passagem pela seleção. Vinculado ao Inter Miami até o fim de 2028, o gênio poderia, ao menos, disputar a Copa América do mesmo ano. Porém, esta não é a visão do “Extraterrestre”.
A decisão de Messi não surpreende
Para os apaixonados pelo futebol apresentado por Messi nas últimas duas décadas, a decisão do argentino é de se lamentar, mas não chega a surpreender. Até meados de 2025, o camisa 10 já não garantia sua presença na Copa deste ano, alegando que não gostaria de prejudicar a Albiceleste por estar fisicamente abaixo dos seus companheiros — algo natural para um atleta que beira os 40 anos.
Ao longo da campanha da Argentina no Mundial, marcada por grandes viradas no mata-mata, Messi exaltou em diversos momentos seus companheiros, que “correm por ele” no momento sem bola. Para o craque, seu sentimento é genuíno: ele não quer ser um fardo para os colegas de time.
Esse sentimento ficou ainda mais nítido na final da Copa do Mundo. Diante da Espanha, toda a Argentina não conseguiu ter a bola e competir contra a equipe mais organizada do torneio. Em sua carta de despedida para o pai, que veio a falecer cerca de 20 dias depois da decisão do Mundial, ele chegou a escrever que seu corpo chegou ao limite diante dos espanhóis.
A comparação com Cristiano Ronaldo, eterno rival nos tempos de Barcelona, é inevitável. Enquanto o português tenta jogar por Portugal a qualquer custo e se revolta quando deixa o campo, Messi pensa no coletivo. São personalidades diferentes, mas ambas marcadas por uma competitividade fora do comum.
No texto de despedida, publicado nesta segunda-feira, Messi deixou claro que também visa abrir espaço para outros atletas da seleção. É possível analisar que, no entendimento do astro, alguns jovens, como Thiago Almada, precisam iniciar o ciclo da Copa de 2030 como protagonistas.
Essa postura ajuda a explicar por que a aposentadoria não deve ser vista apenas como uma fuga diante do desgaste físico. Existe também uma preocupação com o futuro da Argentina. O capitão parece entender que sua presença permanente pode retardar a renovação de uma equipe que já precisa pensar na próxima geração.
A perda do pai é outro motivo importante para a decisão de Messi
No próprio texto de despedida da seleção argentina, Messi escreveu que já tinha a ideia de deixar a Albiceleste. A carta foi escrita no dia 21 de julho, dois dias depois da final da Copa. Porém, perder o pai corroborou sua ideia. “Hoje, depois do que aconteceu com o meu pai, estou mais convencido do que antes”, escreveu.
Ao longo do Mundial, o atacante foi visto mais emocionado do que o normal, seja nas comemorações dos gols ou após as sucessivas vitórias de seu país. A imprensa argentina veiculou, na época, que Messi estava preocupado com a situação do pai, Jorge Messi, que estava internado e não pôde viajar para a América do Norte.
Messi sempre teve uma relação muito próxima com seu pai, que também era seu mentor e empresário. Desde pequeno, todas as decisões passavam também por Jorge, que o ajudou a ter uma postura pés no chão. É inevitável imaginar que, com a ausência de uma figura tão importante, a motivação para continuar se esvazie.
O futebol costuma ser analisado por números, títulos e estatísticas. Porém, há momentos em que aspectos pessoais pesam mais. Depois de conquistar tudo o que poderia pela Argentina, o craque não precisa provar novamente sua importância. A morte do pai, portanto, pode ter mudado sua relação emocional com a seleção e reforçado uma decisão que já estava amadurecendo.
Também é preciso considerar o momento da carreira. Aos 39 anos, cada temporada exige mais cuidados, recuperação e planejamento. Continuar disputando partidas internacionais significaria abrir mão de tempo de descanso e aumentar o risco de lesões. Para um jogador que já construiu um legado histórico, escolher quando parar também é uma forma de preservar esse legado.
Messi poderia continuar brilhando, mas a decisão é compreensível
A saída de Messi criará uma lacuna enorme para o técnico Lionel Scaloni. Sem o astro, a Argentina perde seu principal driblador, articulador e finalizador. Na “Scaloneta”, todos os movimentos ofensivos passavam pelo camisa 10, que conseguiu entregar ainda mais do que quando tinha 20 anos.
Desta forma, é natural imaginar que Messi poderia, sim, continuar contribuindo para uma transição na Argentina. O craque poderia ser uma espécie de 12º jogador no ciclo para a Copa de 2030, entrando em alguns momentos e liderando o vestiário com sua vasta experiência e espírito de capitão.
Com seu perfil de liderança e de pensamento coletiva, Messi poderia encorajar alguns jovens, que ainda parecem “crus”, e não teria problemas em aceitar o banco de reservas. Porém, o argentino também é conhecido por ser extremamente competitivo e querer exibir tudo o que pode dentro de campo.
Durante duas décadas, Messi entregou não apenas muitos gols e assistências, mas também deu shows memoráveis. Esgotado fisicamente e vivendo a dor pela morte do pai, o argentino crê que não poderá dar amostras do que fez nos últimos dois Mundiais.
Por isso, embora seja possível defender que ele poderia permanecer na seleção por mais alguns anos, a decisão não parece precipitada. O desempenho na Copa de 2026 mostrou que ainda havia futebol de alto nível, mas o próprio jogador conhece melhor do que ninguém os limites de seu corpo e de sua motivação.
Fãs de futebol desfrutaram do talento de Messi
Para os fãs, basta acompanhar os últimos lampejos do melhor jogador do século XXI no Inter Miami, sabendo que ele entregou excelência do início ao fim da carreira. Pela Argentina, apesar de momentos turbulentos, cobranças e até desistências, seu legado será eterno. Ganhou tudo, inclusive a tão sonhada Copa do Mundo em 2022.
Assim como houve lamentação quando ele deixou o cenário europeu para jogar nos Estados Unidos, os apaixonados por futebol sentem a despedida de Messi no ambiente de seleções. Sorte a nossa que, diferente de Pelé, o atleta do século XX, todos os jogos do principal futebolista do século XXI estão registrados e disponíveis no YouTube.
No fim, a pergunta sobre uma aposentadoria precoce talvez seja menos importante do que reconhecer o direito de um ídolo escolher seu próprio momento de saída. Messi poderia ter continuado, mas também tem razões esportivas e pessoais para parar.
Depois de mais de 20 anos defendendo a Argentina, sua despedida não diminui seu legado. Pelo contrário: encerra uma história marcada por talento, persistência, títulos e uma ligação profunda com a camisa que ele mais desejou honrar.
Foto: Getty Images


