A chegada de Lionel Messi ao Inter Miami mudou completamente o patamar do clube dentro e fora de campo. O argentino não trouxe apenas gols, assistências e títulos. Sua presença transformou o time da Flórida em uma das equipes mais conhecidas do futebol mundial e também ajudou a atrair outras grandes estrelas para a Major League Soccer.
No entanto, o mesmo modelo que funcionou tão bem inicialmente começa a apresentar sinais de desgaste. O Inter Miami vive um momento de instabilidade e a troca no comando técnico aumentou os questionamentos sobre a direção do projeto. A contratação de Kily González como novo treinador acontece justamente em um período no qual o clube precisa encontrar respostas para problemas que vão muito além da comissão técnica.
A principal discussão é até onde a influência de Messi deve chegar dentro do clube.
Não há dúvida de que o argentino é o principal jogador do elenco. Aos 39 anos, ele continua sendo decisivo e acumula números impressionantes na atual temporada, com 14 gols e nove assistências em 18 partidas. O problema é que nem mesmo uma produção desse nível tem sido suficiente para solucionar todas as deficiências do Inter Miami.
O clube precisa voltar a funcionar como uma equipe e não depender exclusivamente da capacidade de seu principal jogador.
A influência de Messi cresceu e virou um desafio para o Inter Miami

Desde que Messi chegou ao Inter Miami, o clube passou a construir grande parte de seu projeto ao redor do argentino. Jogadores que possuem relações próximas com ele ou que contam com sua confiança passaram a fazer parte do ambiente do clube, enquanto outras lendas do futebol mundial também foram atraídas para a MLS.
A estratégia funcionou inicialmente.
Messi ajudou o Inter Miami a conquistar títulos e colocou o clube em uma posição de destaque internacional. A equipe passou a receber atenção mundial e ganhou uma dimensão comercial que dificilmente teria alcançado sem o argentino.
Mas existe uma diferença importante entre montar um projeto para aproveitar os últimos anos de uma superestrela e construir uma organização sustentável.
O problema atual é que o Inter Miami parece estar cada vez mais dependente das preferências de Messi.
A troca constante de treinadores é um dos principais exemplos.
Kily González será mais um técnico escolhido para trabalhar próximo ao argentino. Antes dele, Guillermo Hoyos assumiu como interino e Javier Mascherano comandou a equipe. O detalhe é que nenhum deles chegou ao clube carregando uma experiência extremamente sólida como treinador.
Mascherano, por exemplo, nunca havia comandado uma equipe profissional antes de assumir o Inter Miami.
González chega com um aproveitamento de apenas 32,5% de vitórias em seus três trabalhos anteriores e nunca conquistou um título como treinador. Hoyos tinha um aproveitamento de aproximadamente 39% antes de assumir o Inter Miami.
Esses números ajudam a explicar por que existe tanta dúvida em relação à escolha de González.
A contratação não parece ter sido baseada apenas em critérios esportivos. A relação pessoal com Messi também pesa.
O novo treinador conhece o argentino há muitos anos, os dois são de Rosário e chegaram a atuar juntos pela seleção argentina. Essa proximidade pode facilitar a comunicação, mas também levanta uma questão importante: González foi escolhido porque é o treinador ideal para o Inter Miami ou porque possui uma boa relação com Messi?
Essa diferença pode determinar o futuro do projeto.
Kily González terá que fazer Messi continuar sendo decisivo sem depender apenas dele

O maior desafio de González será encontrar um equilíbrio entre utilizar Messi da melhor maneira possível e, ao mesmo tempo, fazer o restante do elenco funcionar.
O argentino continua produzindo em alto nível. São 14 gols e nove assistências em 18 jogos, números que mostram que ele ainda consegue decidir partidas com frequência.
Mas o futebol coletivo não pode depender exclusivamente disso.
O Inter Miami possui outros jogadores importantes, como Casemiro, Rodrigo De Paul, Luis Suárez, Yannick Bright, Telasco Segovia e Germán Berterame. O problema é fazer todas essas peças funcionarem dentro de um sistema capaz de competir regularmente.
González deverá buscar um futebol mais agressivo e direto, com Casemiro e Bright tendo responsabilidades importantes no meio campo.
Casemiro, porém, ainda não apresentou o nível esperado. O brasileiro disputou cinco partidas na MLS e teve atuações consideradas abaixo do que se esperava de um jogador com sua experiência.
Bright também terá que recuperar o futebol apresentado em 2025.
Telasco Segovia pode ser uma peça importante para aumentar a intensidade do meio campo, enquanto De Paul, Suárez e Berterame precisarão acompanhar um ritmo mais alto caso González realmente implemente um estilo mais agressivo.
A questão física também é importante.
Messi já está em uma fase avançada da carreira e não pode carregar sozinho todas as responsabilidades de uma temporada longa. O Inter Miami precisa criar um ambiente em que o argentino possa decidir jogos, mas tenha menos necessidade de resolver todos os problemas da equipe.
Esse equilíbrio será especialmente importante porque o clube ainda tem objetivos relevantes na temporada.
O Inter Miami pretende terminar entre os dois primeiros colocados da Conferência Leste e disputar novamente o título da MLS Cup.
Para isso, não basta Messi continuar marcando gols.
A equipe precisa defender melhor, controlar partidas, ter mais intensidade no meio campo e encontrar soluções quando o argentino não conseguir decidir.
A mudança precisa ser coletiva para o projeto voltar a funcionar

A saída de Guillermo Hoyos aconteceu em um momento complicado. O Inter Miami vinha de uma sequência de cinco partidas sem vencer, mostrando que os problemas não eram pontuais.
A chegada de González pode representar uma oportunidade para reiniciar o projeto, mas o novo treinador não terá tempo ilimitado para trabalhar.
Além dos problemas táticos, existe uma questão emocional envolvendo Messi.
O argentino atravessou um período pessoal difícil após a morte de seu pai, Jorge Messi, pouco tempo depois da derrota da Argentina na final da Copa do Mundo de 2026. Por isso, uma das missões do novo treinador será também manter o jogador mentalmente preparado para continuar sendo uma liderança dentro do grupo.
Esse papel será fundamental.
Messi não precisa apenas marcar gols. Aos 39 anos, sua experiência pode ajudar os jogadores mais jovens e orientar o funcionamento da equipe dentro de campo.
Por outro lado, o Inter Miami não pode transformar essa liderança em uma dependência absoluta.
O clube precisa conseguir tomar decisões pensando no projeto esportivo como um todo.
A escolha de treinadores, as contratações e a organização do elenco precisam ter critérios próprios. A opinião de Messi pode ser importante, principalmente por sua experiência e pelo peso que possui dentro do futebol, mas isso não significa que todas as decisões devam ser tomadas para agradá-lo.
Esse é justamente o ponto central do atual momento do Inter Miami.
A estratégia de misturar negócios e prazer funcionou quando Messi chegou. A presença de jogadores próximos ao argentino ajudou a criar um ambiente confortável para o craque e também tornou o clube extremamente atraente para outras estrelas.
Agora, a equipe precisa dar um passo adiante.
Se o Inter Miami quiser realmente se transformar em uma potência da MLS e em um clube global, precisará construir uma estrutura capaz de sobreviver além da era Messi.
Kily González terá a difícil missão de começar esse processo sem perder a confiança do principal jogador da equipe.
Os números de Messi mostram que ele continua sendo extremamente importante. Seus 14 gols e nove assistências em 18 jogos provam que o argentino ainda pode ser decisivo.
Mas esses números também mostram uma realidade: até mesmo Messi precisa de uma equipe funcionando ao seu redor.
O Inter Miami não precisa diminuir a importância do argentino. Precisa utilizar sua importância de maneira mais inteligente.
Se González conseguir organizar o meio campo, aumentar a intensidade, recuperar jogadores importantes e fazer Messi assumir uma liderança positiva, o clube poderá voltar a competir pelos principais objetivos da temporada.
Caso contrário, a mudança de treinador será apenas mais um capítulo de um projeto que perdeu parte da direção original.
O grande desafio do Inter Miami, portanto, não é escolher entre Messi e o clube.
É finalmente construir um time forte o suficiente para que as duas coisas possam funcionar juntas.
(Foto de capa: Connie France/AFP)



