O Santos decidiu mudar de postura.
Depois de preservar jogadores importantes no jogo de ida contra o Palmeiras, quando perdeu por 3 a 0 no Nubank Parque, Cuca levará força máxima para a Vila Belmiro nesta quarta-feira (2). Neymar e Gabigol estão entre os principais nomes que devem começar a partida, em uma tentativa de transformar uma desvantagem enorme em uma classificação para a semifinal da Copa do Brasil.
A decisão, isoladamente, faz sentido. O problema é que ela também expõe uma escolha anterior.
O Santos poupou peças importantes quando ainda tinha 90 minutos para disputar em condições mais equilibradas. Agora, precisa colocar tudo o que tem em campo para tentar corrigir uma situação que ficou muito mais complicada depois da derrota.
O erro está mais na ida do que na volta
Cuca tem uma justificativa para priorizar o Brasileirão. O Santos ocupa a 14ª posição, com 29 pontos, apenas quatro acima do Vasco, primeiro time dentro da zona de rebaixamento. E o próximo compromisso será justamente contra o Internacional, no Beira-Rio, no domingo (6).
Não é uma preocupação pequena. Mas existe uma diferença entre administrar o elenco e diminuir consideravelmente o potencial de uma equipe em uma partida de Copa do Brasil.
Neymar sequer viajou para o jogo de ida, enquanto Gabigol começou no banco. O Santos entrou no confronto com uma escalação que reduzia seu poder ofensivo justamente contra um adversário que costuma exigir máxima eficiência.
O resultado foi um 3 a 0 que deixou a classificação praticamente nas mãos do Palmeiras. Por isso, usar força máxima agora parece menos uma mudança de estratégia e mais uma tentativa de recuperar o que foi perdido.
O cenário ficou muito mais pesado
A matemática é cruel. O Santos precisa vencer por quatro gols de diferença para avançar diretamente. Uma vitória por três leva a decisão para os pênaltis. Qualquer outro resultado elimina a equipe. Isso muda completamente o tipo de jogo que Cuca precisa administrar.
Não basta ser melhor. É necessário marcar cedo, manter intensidade, não sofrer gols e ainda encontrar energia para continuar atacando caso o placar não apareça rapidamente. O Palmeiras, por outro lado, pode jogar com a vantagem construída no primeiro encontro.
A pressão está toda do lado santista.
Neymar muda o time, mas não resolve tudo
A presença de Neymar é importante. Além da qualidade individual, o craque aumenta a capacidade do Santos de criar e dá ao time uma referência técnica para uma partida em que será necessário assumir o controle desde os primeiros minutos.
Mas colocar Neymar, Gabigol e os demais titulares não garante uma reação. O Santos precisará transformar essa qualidade em intensidade e, principalmente, em gols.
E existe outro aspecto nessa decisão: mesmo que a classificação seja improvável, uma atuação competitiva pode ter valor para o restante da temporada. O Santos precisa de um resultado que, se não for suficiente para eliminar o Palmeiras, ao menos devolva confiança ao elenco e mostre que a equipe ainda tem capacidade de reagir depois de um momento ruim.
Isso pode ser importante para o que vem pela frente. O problema é que, quanto mais o time se lançar ao ataque, mais espaço poderá oferecer ao Palmeiras. Um gol sofrido pode praticamente encerrar qualquer esperança de classificação.
Por isso, força máxima não significa simplesmente colocar os melhores jogadores em campo. Significa ter um plano para sustentar a pressão durante 90 minutos.
E o Brasileirão?
Esse é o ponto que torna a escolha de Cuca mais delicada.
O Santos não pode tratar a Copa do Brasil como se o campeonato nacional não existisse. Quatro pontos de vantagem para o Z-4 representam uma margem pequena em uma competição longa, especialmente para uma equipe que ainda terá confrontos importantes pela frente.
Depois do Palmeiras, vem o Internacional. E o duelo no Beira-Rio pode ser muito mais importante para o futuro do Santos do que parece agora.
Se Cuca tivesse escolhido força máxima na ida, poderia ter chegado ao jogo desta quarta-feira com uma desvantagem menor — ou até em vantagem — e talvez administrado melhor o desgaste dos principais jogadores.
Agora, não existe mais esse conforto. O Santos precisa buscar uma classificação improvável e, ao mesmo tempo, pensar no que acontecerá quatro dias depois.
A escolha faz sentido, mas chega tarde
Não há problema em usar força máxima na Vila. Pelo contrário: diante da torcida, de uma competição importante e de uma desvantagem de três gols, colocar os melhores disponíveis é a decisão mais coerente.
A dúvida está em por que essa postura não apareceu desde o primeiro jogo. O Santos tinha a chance de tornar a eliminatória equilibrada. Preferiu preservar jogadores pensando no Brasileirão e agora precisa fazer uma partida quase perfeita para permanecer vivo na Copa do Brasil.
É uma consequência difícil de ignorar. Cuca pode até conseguir transformar a Vila em palco de uma reação histórica. Neymar pode decidir, Gabigol pode marcar e o Santos pode encontrar os gols que precisa. Mas, antes de pensar no impossível, o clube precisa reconhecer o que tornou o impossível necessário.
A força máxima contra o Palmeiras faz sentido. Pode servir para buscar uma classificação que hoje parece distante, mas também para algo mais imediato: recuperar a confiança de um time que precisa entrar na reta final da temporada com uma resposta positiva.
O problema é que essa resposta poderia ter começado no primeiro jogo.
Fotos: Raul Baretta/ Santos FC/ Divulgação



