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São Paulo encontrou uma fórmula, mas o Boca dirá se ela é para valer

O São Paulo passou boa parte dos últimos meses procurando respostas. Contra o Atlético-MG, finalmente encontrou uma que parece fazer sentido.

A vitória por 2 a 0 no Morumbis não foi importante apenas pela segunda vitória consecutiva no Brasileirão. Foi, sobretudo, a melhor atuação do time desde o retorno de Dorival Júnior, justamente porque o resultado veio acompanhado de uma evolução clara no funcionamento coletivo.

Existe ainda um detalhe que torna a atuação mais interessante: o treinador repetiu a estrutura que havia funcionado contra o Red Bull Bragantino, com três zagueiros, alas com liberdade, pressão alta e mais mobilidade no ataque.

Dessa vez, porém, o São Paulo não apenas venceu. Dominou. Foram 21 finalizações contra apenas duas do Atlético-MG, que estava invicto havia 14 partidas. O Tricolor controlou o jogo, dificultou a saída adversária e transformou sua superioridade em vantagem no segundo tempo.

Mas existe uma diferença importante entre encontrar uma boa solução e encontrar definitivamente o time. E o Boca Juniors será o adversário responsável por ajudar a responder essa questão.

Dorival encontrou uma estrutura que potencializa o São Paulo

O mérito de Dorival não está simplesmente em ter colocado três zagueiros, mas em ter encontrado uma maneira de fazer essa estrutura potencializar outras características da equipe.

Com mais proteção atrás, o São Paulo conseguiu adiantar suas linhas e pressionar o Atlético-MG desde a saída. O time recuperava a bola mais perto do gol adversário e, ao mesmo tempo, tinha segurança para não transformar cada perda de posse em uma corrida para trás.

O Atlético praticamente não conseguiu jogar, e isso também abriu espaço para os alas participarem mais do ataque.

Lucas Ramon ganhou liberdade pela direita e participou diretamente das principais ações ofensivas. Artur, mais à frente, teve espaço para atacar por dentro e pelo corredor, enquanto Gustavo Santana mostrou mobilidade para sair da referência e aparecer pelo lado esquerdo. Luciano, por sua vez, alternou entre a área e posições mais recuadas.

O resultado foi um São Paulo menos previsível, capaz de encontrar diferentes caminhos para chegar ao ataque em vez de depender exclusivamente de uma jogada individual.

O mais importante foi a repetição

Contra o Red Bull Bragantino, o sistema de três zagueiros poderia ser tratado como uma tentativa de Dorival. Diante do Atlético-MG, depois de uma segunda atuação consistente, passou a parecer uma ideia que merece ser desenvolvida.

Essa distinção importa porque o treinador chegou a escalar 13 formações diferentes em 13 partidas desde o retorno, sinal de que ainda estava procurando a melhor combinação entre as peças. Agora, pela primeira vez, existe uma estrutura que começa a oferecer respostas em sequência, e não apenas uma solução pontual.

Mais do que repetir a formação, o São Paulo repetiu comportamentos. Pressionou mais, criou mais, sofreu menos e, pela primeira vez desde o retorno pós-Copa do Mundo, terminou uma partida sem sofrer gol.

Dorival não encontrou apenas uma escalação. Encontrou um ponto de partida que pode permitir ao time trabalhar com mais estabilidade daqui para frente.

Mas existe um asterisco nessa vitória

É justamente aqui que entra a parte que impede qualquer euforia exagerada.

O Atlético-MG chegou ao Morumbis com uma sequência de 14 jogos sem perder, mas também estava no meio de uma agenda pesada e preservou parte dos titulares pensando nos compromissos pelas copas. Isso não diminui a atuação do São Paulo, mas muda o tamanho da conclusão que pode ser tirada dela.

O Tricolor fez seu melhor jogo sob Dorival e dominou um adversário qualificado, apresentando uma organização que não vinha conseguindo manter. Ainda assim, o contexto favoreceu uma equipe que conseguiu impor pressão desde o início diante de um adversário com menos força em campo.

O Boca não será um Atlético-MG jogando com um olho na próxima decisão. Na Bombonera, o São Paulo encontrará um jogo de outra natureza, com mais pressão, outro ambiente e provavelmente situações em que não terá tanto controle territorial.

É justamente por isso que a partida chega no momento perfeito.

O Boca vai fazer as perguntas que faltam

A nova estrutura funciona quando o São Paulo consegue pressionar e recuperar a bola rapidamente, mas ainda falta saber como ela se comportará diante de um adversário disposto a baixar as linhas e entregar menos espaços.

O time conseguirá desmontar uma defesa fechada? Será capaz de manter a organização quando perder a bola e não conseguir recuperá-la imediatamente? E, principalmente, terá alternativas caso precise jogar por longos períodos sem controlar a partida?

Essas são perguntas que ainda não foram respondidas.

Contra o Atlético, o São Paulo conseguiu impor o jogo. O próximo desafio será mostrar que também sabe sobreviver quando o adversário impõe o seu.

É aí que uma boa estrutura precisa começar a virar identidade, porque uma fórmula de jogo não pode depender de o cenário ser favorável. Se o São Paulo precisar jogar mais baixo, sofrer sem a bola ou encontrar um gol em uma partida truncada, Dorival terá de mostrar que a equipe evoluiu também nesse aspecto.

O Boca será um teste muito mais cruel e, justamente por isso, muito mais revelador.

O São Paulo mudou de ambiente — agora precisa mudar de patamar

Duas vitórias consecutivas não apagam a sequência de dez 10 sem vencer no Brasileirão, assim como uma boa atuação não resolve automaticamente todos os problemas que fizeram Dorival testar tantas formações.

Mas o ambiente mudou.

O São Paulo voltou a vencer, voltou a não sofrer gol e voltou a dominar um adversário. Talvez mais importante do que isso, começou a dar aos jogadores funções que parecem combinar melhor com suas características.

O sistema protege mais a defesa, libera os alas e permite que os homens de frente troquem de posição. São mecanismos simples na teoria, mas que podem fazer enorme diferença quando executados com coordenação.

Dorival finalmente parece ter saído da fase de tentativa e erro para entrar na fase de aperfeiçoamento. Agora, precisa provar que consegue permanecer nela mesmo quando as circunstâncias forem menos favoráveis.

O Boca é o verdadeiro exame

É tentador dizer que o São Paulo encontrou seu time depois de uma atuação tão convincente, mas ainda seria cedo para chegar a essa conclusão. O que o Tricolor encontrou foi uma estrutura que funciona e que, pela primeira vez, parece capaz de oferecer uma base para a evolução coletiva.

Um time de verdade precisa sobreviver a diferentes adversários, diferentes contextos e diferentes momentos dentro de uma mesma partida. O Atlético mostrou que o São Paulo pode ser dominante, enquanto o Boca dirá se também pode ser resistente, inteligente e competitivo quando o jogo exigir outras características.

Esse é o verdadeiro valor do confronto pela Sul-Americana. Se o São Paulo repetir o desempenho, ou mesmo se não repetir o domínio mas conseguir competir com a mesma organização, a vitória sobre o Atlético ganhará outro peso.

Deixará de ser apenas uma boa noite e poderá representar o começo de alguma coisa.

Dorival encontrou uma fórmula, mas agora precisa provar que ela não depende do adversário certo, da noite certa ou do contexto certo. O Boca será o primeiro grande teste dessa hipótese e, talvez, justamente a partida que o São Paulo precisava para descobrir se finalmente encontrou um time ou apenas uma boa maneira de jogar.

Foto: Rubens Chiri e Paulo Pinto / São Paulo FC / Divulgação