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Vitória descobriu que não precisa jogar bonito para sobreviver no Brasileirão

O Vitória precisava de uma resposta depois de uma semana pesada. Vinha de quatro derrotas consecutivas, havia sido eliminado da Copa do Brasil e ainda enfrentava o Grêmio com nove jogadores lesionados e Cacá suspenso. No cenário mais complicado possível, encontrou uma solução que pode ser muito mais importante do que os três pontos: entendeu que, na luta contra o rebaixamento, nem sempre será necessário jogar bonito para vencer.

O 1 a 0 no Barradão não foi uma obra-prima. Foi uma partida madura.

O Vitória teve mais posse, finalizou mais e controlou boa parte do confronto, mas também soube conviver com seus próprios limites. Não transformou cada ataque em uma tentativa desesperada de acelerar o jogo, nem perdeu a organização quando o gol demorou a aparecer.

Essa talvez seja a principal notícia para Jair Ventura.

O Vitória começou a entender o tamanho da própria competição

Um time que luta contra o rebaixamento não pode jogar todas as partidas como se precisasse provar que é superior ao adversário. Precisa entender o que cada jogo está pedindo.

Contra o Grêmio, o Vitória percebeu rapidamente que havia espaço para tomar a iniciativa. A equipe teve 56% de posse e 11 finalizações no primeiro tempo, contra 44% e cinco do adversário. Mais importante do que os números, porém, foi a maneira como conseguiu manter o controle mesmo depois de desperdiçar algumas oportunidades.

O Vitória não precisou transformar domínio em espetáculo. Precisou evitar que o jogo escapasse.

Isso é especialmente relevante porque o time ainda tem uma limitação evidente no ataque. São apenas 25 gols marcados no Brasileirão, o pior número da Série A, e a equipe vinha encontrando enorme dificuldade para transformar volume em gols.

Por isso, insistir em um futebol baseado apenas na produção ofensiva seria perigoso. O Vitória precisa ser eficiente dentro da realidade que tem.

O pragmatismo não significa jogar na retranca

Existe uma diferença importante entre ser pragmático e ser passivo.

O Vitória foi pragmático porque conseguiu escolher os momentos em que deveria acelerar, controlar a posse quando necessário e manter a estrutura mesmo sem encontrar o gol imediatamente. A equipe também soube aproveitar a bola parada para decidir a partida, com Renê aparecendo entre os zagueiros e convertendo o escanteio de Mateus Silva.

Depois disso, não houve necessidade de transformar os minutos finais em uma corrida desenfreada.

O Grêmio precisou sair mais, mas não conseguiu construir uma pressão consistente. O Vitória ainda teve oportunidades para ampliar com Renato Kayzer e terminou a partida sem permitir uma reação significativa do adversário.

Esse tipo de comportamento pode ser decisivo na reta final do campeonato.

Uma vitória não resolve o problema, mas muda o ambiente

É preciso tomar cuidado para não transformar um triunfo em evidência de que todos os problemas desapareceram.

O Vitória continua tendo um dos ataques menos produtivos do campeonato, ainda possui limitações no elenco e não pode se dar ao luxo de depender exclusivamente de bolas paradas ou de partidas em que o adversário produza pouco.

A diferença é que agora existe um exemplo concreto de como a equipe pode competir.

Isso ganha ainda mais peso pelo contexto. O Vitória entrou em campo depois de uma sequência de resultados negativos e com um elenco extremamente desfalcado, mas conseguiu apresentar organização suficiente para superar o Grêmio. A vitória levou o time aos 32 pontos e abriu uma distância de sete para o Vasco, primeiro clube dentro do Z-4.

Não é uma vantagem definitiva, mas é uma margem que permite respirar.

E, para uma equipe que vinha pressionada, respirar também faz parte da competição.

O próximo passo é provar que não foi apenas uma noite

O maior desafio para Jair Ventura começa justamente depois da vitória.

O Vitória ainda precisa aprender a repetir esse comportamento. Uma equipe ameaçada pelo rebaixamento não se salva com uma atuação madura isolada, mas com uma sequência de partidas em que consegue reduzir erros, competir bem e aproveitar as oportunidades que aparecem.

E o calendário já oferece um teste interessante.

O próximo compromisso será contra o Mirassol, no Maião, pela 27ª rodada. O adversário também está envolvido na luta contra a parte de baixo da tabela, o que transforma o confronto em uma oportunidade para o Vitória mostrar que a vitória sobre o Grêmio pode ser mais do que um alívio momentâneo.

Há, inclusive, um problema que precisa ser enfrentado: o Vitória ainda não venceu fora de casa no Brasileirão. Portanto, se o time realmente encontrou uma maneira mais madura de competir, precisará demonstrar isso longe do Barradão.

Esse é o ponto em que uma boa vitória começa a virar tendência.

Sobreviver também é saber jogar com os próprios limites

O Vitória provavelmente não terá condições de dominar todos os adversários até o fim do campeonato. Também não precisa.

Na briga contra o rebaixamento, reconhecer as próprias limitações pode ser uma vantagem quando isso permite construir uma estratégia mais realista. O time não precisa produzir 20 chances por jogo, nem transformar cada partida em demonstração de força. Precisa encontrar maneiras de ser competitivo durante os 90 minutos.

Contra o Grêmio, conseguiu.

Teve volume quando precisava, defendeu quando foi necessário, aproveitou uma bola parada e administrou a vantagem sem perder completamente o controle. É um roteiro simples, mas pode ser exatamente o tipo de roteiro que salva uma equipe em uma temporada difícil.

O Vitória ainda está longe de ter resolvido sua situação. A distância para o Z-4 é importante, mas pode desaparecer rapidamente se os resultados voltarem a não aparecer. Por isso, a vitória no Barradão deve ser encarada menos como uma mudança definitiva de patamar e mais como uma descoberta.

O Vitória não precisa jogar bonito para sobreviver. Precisa entender o jogo, reconhecer seus limites e saber quando atacar, quando controlar e quando simplesmente não deixar a partida escapar.

Se conseguir repetir isso nas próximas rodadas, a permanência deixará de parecer apenas uma possibilidade e começará a ganhar contornos de projeto.

Foto: Victor Ferreira / EC Vitória / Divulgação