A Fórmula 1 está prestes a escrever um novo capítulo de sua história na Espanha. Depois de passar por diferentes circuitos ao longo das décadas, o Grande Prêmio espanhol chega a Madri para uma nova era, com a estreia do Madring, circuito urbano que colocará a capital espanhola novamente no calendário da categoria.
A novidade terá um significado ainda maior para Carlos Sainz. Nascido em Madri, o piloto da Williams finalmente poderá disputar uma corrida em sua cidade natal e de uma maneira bastante especial. Além de ser um dos principais rostos da promoção do evento, Sainz também participou das discussões envolvendo o desenho do novo traçado.
Mas a chegada da F1 a Madri também é uma oportunidade para relembrar algumas histórias pouco conhecidas envolvendo a categoria na região. Antes do Madring, o circuito de Jarama, localizado na Comunidade de Madri, recebeu o GP da Espanha em diversas ocasiões e foi palco de algumas das atuações mais marcantes da história da Fórmula 1. Entre elas estão as vitórias improváveis de Gilles Villeneuve, em 1981, e Niki Lauda, em 1974.
Sainz finalmente terá seu verdadeiro GP em casa
Para Sainz, a chegada da Fórmula 1 a Madri representa a realização de um sonho antigo. O piloto esperava por uma oportunidade como essa desde antes mesmo de estrear na categoria, em 2015. “É algo muito difícil de descrever para mim, porque é algo que sempre sonhei: ter a oportunidade de correr na minha cidade natal”, afirmou Sainz ao falar sobre a chegada da F1 à capital espanhola.
Agora, esse sonho se tornou ainda mais especial porque o espanhol teve participação direta na construção do projeto. Como embaixador do Madring, Sainz não ficou restrito às ações promocionais do evento. O piloto também ofereceu sua perspectiva sobre o traçado, ajudando os responsáveis pelo circuito a entender como determinadas curvas e zonas de frenagem poderiam funcionar melhor para quem estará efetivamente ao volante.
A participação do piloto aconteceu desde os primeiros estágios do projeto. Durante a apresentação inicial do traçado, Sainz revelou que outros pilotos chegaram a perguntar sua opinião sobre as características do circuito. “Os pilotos me perguntaram sobre o circuito, as curvas, o traçado… Eu disse a eles para não se preocuparem e que tentaria ajudar o máximo possível para tornar o circuito um bom espetáculo”, explicou.
Entre os principais pontos de preocupação de Sainz estavam as oportunidades de ultrapassagem. Para o espanhol, um circuito urbano não precisa necessariamente ter as curvas mais agradáveis para os pilotos se oferecer boas corridas. O objetivo, segundo ele, era garantir que as duas principais zonas de ultrapassagem tivessem espaço suficiente para permitir disputas reais entre os carros.
Sainz citou Baku como exemplo. Embora muitas curvas do circuito do Azerbaijão não sejam particularmente apreciadas pelos pilotos, as longas retas e as oportunidades de ultrapassagem ajudam a produzir corridas interessantes. “Não existe realmente uma curva em Baku que seja bonita do ponto de vista do piloto. Mas, se há uma reta muito longa e isso cria um bom espetáculo, todo mundo gosta de Baku. É isso que estamos procurando”, explicou.
Assim, a estreia do Madring também será uma espécie de teste para a contribuição de Sainz. O piloto não apenas correrá diante de sua torcida, como poderá observar em primeira mão o resultado das decisões para as quais ajudou a contribuir.
Villeneuve venceu em Madri com um carro que parecia incapaz de ganhar
Muito antes de Sainz sonhar em disputar um GP em sua cidade, Madri já havia testemunhado uma das vitórias mais improváveis da história da Fórmula 1. Em 1981, Gilles Villeneuve chegou ao circuito de Jarama com uma Ferrari 126C que estava longe de ser considerada uma das melhores máquinas do grid.
O próprio canadense descreveu o carro como um “grande Cadillac vermelho”. A comparação não era um elogio. A Ferrari tinha um comportamento difícil e sofria especialmente nas curvas, onde perdia desempenho para seus principais adversários. Jarama também não ajudava.
O antigo circuito era conhecido por oferecer poucas oportunidades de ultrapassagem. John Watson, que competia pela McLaren naquele ano, descreveu a pista como um traçado tradicional de uma única linha, no qual sair do traçado ideal significava entrar em uma área muito menos favorável. Por isso, poucos imaginavam que Villeneuve pudesse brigar pela vitória.
Mas a Ferrari tinha uma qualidade importante: velocidade em linha reta. Villeneuve largou apenas em sétimo, mas conseguiu utilizar a potência do 126C para avançar pelo pelotão. Quando assumiu a liderança, seus adversários permaneceram colados em sua traseira. O problema para eles era encontrar uma maneira de passar.
Villeneuve utilizou a velocidade de reta da Ferrari com perfeição e, apesar das limitações do carro nas curvas, não cometeu o erro que os rivais precisavam para conseguir a ultrapassagem. “Ele estava usando de maneira excepcional os benefícios daquele carro em linha reta”, relembrou Watson. “Mas estava conduzindo um carro absolutamente ruim pelas curvas.”
O resultado foi uma das chegadas mais apertadas da história da categoria. Os quatro pilotos seguintes terminaram a apenas 1,24 segundo de Villeneuve. A vitória também ganhou um peso histórico ainda maior com o passar do tempo. Aquele foi o último triunfo de Villeneuve na Fórmula 1. Menos de um ano depois, o canadense morreria em um acidente durante o GP da Bélgica, em Zolder.
Jarama não voltaria a receber a Fórmula 1 depois daquela temporada até 1986, quando o GP da Espanha foi transferido para Jerez. Por isso, Villeneuve permanece até hoje como o último vencedor de um Grande Prêmio de F1 realizado em Madri antes da chegada do Madring.
Lauda transformou dúvidas em confiança da Ferrari
Outra história importante aconteceu sete anos antes, também em Jarama. Quando Niki Lauda chegou à Ferrari em 1974, o austríaco ainda não tinha o reconhecimento que conquistaria posteriormente. Para parte da imprensa e dos torcedores italianos, a escolha da Ferrari causava estranheza.
A equipe não conquistava o Campeonato Mundial desde 1964, e a torcida queria resultados. Muitos questionavam por que a Ferrari havia escolhido um jovem austríaco relativamente desconhecido em vez de apostar em um piloto italiano. Clay Regazzoni, companheiro de equipe de Lauda e um dos responsáveis por apoiar sua contratação, relembrou posteriormente o ambiente daquela época. “Quando Niki chegou, a imprensa italiana não concordava. ‘Por que Lauda?’ Eles sempre pressionavam por um piloto italiano”, contou.
Lauda, porém, tratou de responder rapidamente na pista. Foram necessárias apenas quatro corridas para que ele conquistasse sua primeira vitória pela Ferrari. E o triunfo aconteceu justamente em Madri, no GP da Espanha de 1974.
A corrida, no entanto, esteve longe de ser tranquila. Lauda havia conquistado a pole position no sábado, mas perdeu a liderança logo na largada. Depois, precisou recuperar a posição em condições complicadas, com chuva e pista molhada dificultando o controle dos carros.
A prova ainda precisou ser encerrada antes do previsto. Foram completadas 84 das 90 voltas programadas. Nada disso impediu Lauda de conquistar a vitória.
Regazzoni completou a corrida em segundo, garantindo uma dobradinha para a Ferrari e proporcionando exatamente o tipo de resultado que a equipe precisava naquele momento. Mais do que uma vitória, o resultado ajudou a transformar a percepção sobre Lauda dentro da Ferrari. O piloto que havia chegado cercado de dúvidas rapidamente começou a mostrar por que Enzo Ferrari havia apostado nele.
Décadas depois, Madri volta a receber a Fórmula 1. Desta vez, porém, a história será escrita em um cenário completamente diferente. O Madring chega como um circuito urbano moderno e tem Carlos Sainz como um de seus principais embaixadores. O espanhol terá finalmente a oportunidade de disputar um Grande Prêmio em sua cidade natal e, ao mesmo tempo, verá em ação um circuito cuja concepção ajudou a influenciar.
Enquanto isso, as histórias de Villeneuve e Lauda servem como lembrete de que Madri já foi palco de momentos capazes de desafiar expectativas. Agora, resta saber qual será o próximo capítulo.
Foto: (Reprodução/ Fórmula 1)



