O desafio de Enzo Maresca no Manchester City vai muito além de substituir Pep Guardiola. O treinador italiano assumiu um clube que passou uma década construindo uma identidade extremamente vencedora e agora precisa conduzir uma transformação profunda sem permitir que o nível de competitividade despenque. A missão parece impossível justamente porque o ponto de comparação é um dos períodos mais dominantes da história recente do futebol inglês. Guardiola deixou uma estrutura consolidada, mas também um elenco que precisava de renovação em posições importantes.
O primeiro grande obstáculo para Maresca está na dimensão da mudança. O Manchester City perdeu peças importantes e viu sua antiga espinha dorsal sofrer alterações significativas. Rodri deixou o clube para defender o Barcelona, enquanto Bernardo Silva também saiu, aumentando a necessidade de encontrar novos líderes técnicos e novas referências no meio-campo. Segundo levantamento recente, cerca de 37,2% dos minutos disputados pelo elenco na temporada anterior precisavam ser substituídos, índice que evidencia o tamanho da reconstrução.
A diretoria respondeu com uma das janelas de transferências mais agressivas de sua história. Elliot Anderson, Ayyoub Bouaddi, Iliman Ndiaye e Enzo Fernández chegaram para participar de uma reformulação que modificou profundamente o perfil do elenco. Apenas as contratações de Anderson, Bouaddi e Ndiaye já representaram um investimento superior a 400 milhões de euros, enquanto o argentino chegou do Chelsea por 125 milhões de libras, igualando o recorde de transferência da Premier League. Não se trata, portanto, de uma simples reposição de jogadores, mas da tentativa de construir uma nova geração capaz de sustentar o Manchester City no topo.
O problema é que dinheiro e talento não produzem automaticamente uma equipe pronta. Maresca precisa transformar jogadores de características diferentes em um coletivo funcional, enquanto administra a expectativa de um clube acostumado a disputar todos os títulos. A temporada para o Manchester City com o italiano começou de maneira positiva, com vitórias nos compromissos iniciais da Premier League e também na disputa da UEFA Champions League, mas o próprio treinador reconhece que ainda existe um processo de desenvolvimento pela frente.
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A escolha de Maresca também carrega uma contradição interessante. Ele conhece profundamente a metodologia do Manchester City por ter trabalhado anteriormente no clube e sido auxiliar de Guardiola. Ao mesmo tempo, sua contratação representa a tentativa de construir algo diferente. A tendência é que alguns princípios permaneçam, principalmente a valorização da posse, da ocupação racional dos espaços e da saída de bola, mas o novo treinador precisa encontrar soluções próprias para um elenco que já não possui exatamente os mesmos jogadores que tornaram o modelo de Guardiola tão eficiente.
Essa transição ficou evidente no início do trabalho. O Manchester City apresenta movimentos mais flexíveis e, em determinadas circunstâncias, uma abordagem mais pragmática. A equipe não demonstra a mesma obsessão pela posse de bola de alguns dos melhores momentos da era Guardiola e já mostrou disposição para baixar as linhas e explorar diretamente Erling Haaland quando a situação exige. No clássico contra o Manchester United, por exemplo, a expulsão de Phil Foden obrigou Maresca a modificar sua estratégia, compactando o time e apostando em uma postura mais cautelosa até alcançar a vitória por 1 a 0.
Haaland, naturalmente, continua sendo uma peça central nesse projeto. O norueguês oferece ao treinador uma referência ofensiva capaz de transformar diferentes estilos de jogo em ameaças reais. Mas a reconstrução não pode depender exclusivamente de seus gols. Enzo Fernández precisa assumir protagonismo no meio-campo, Anderson precisa justificar o enorme investimento, enquanto jovens como Bouaddi terão de ser incorporados gradualmente a uma equipe pressionada por resultados imediatos.
O maior teste para Maresca será equilibrar presente e futuro. O Manchester City não pode simplesmente aceitar uma temporada de adaptação, porque sua estrutura financeira, seu elenco e sua posição na elite europeia impõem a obrigação de competir por troféus. Ao mesmo tempo, exigir que uma equipe profundamente remodelada reproduza instantaneamente o futebol de Guardiola seria ignorar a dimensão da transformação, em busca de recuperar sua hegemonia na Premier League após perder os títulos para Liverpool e Arsenal nas duas últimas edições.
Por isso, a missão de Maresca talvez seja menos reconstruir o Manchester City do que redefini-lo. O treinador não precisa criar outro Guardiola, nem reproduzir exatamente o time que dominou a Inglaterra e conquistou a Europa. Precisa estabelecer uma nova identidade vencedora. O início invicto e a vitória no primeiro dérbi da era pós-Guardiola são sinais promissores, mas ainda insuficientes para responder à pergunta principal: se o italiano conseguir transformar tantas mudanças em uma equipe competitiva sem perder a ambição que marcou a última década, o impossível começará a parecer apenas o começo de uma nova era.

Como o Manchester City busca manter os 100% de aproveitamento na temporada com Maresca
O Manchester City vive um início de temporada que começa a transformar as dúvidas sobre a saída de Pep Guardiola em expectativa diante do trabalho de Maresca. Depois de uma década marcada pelo domínio do treinador espanhol, o clube iniciou uma nova etapa com um elenco reformulado e, até aqui, conseguiu manter 100% de aproveitamento nos jogos oficiais. As vitórias sobre Crystal Palace, Coventry, Porto e Manchester United mostram que a equipe encontrou respostas rápidas para uma mudança que poderia ter provocado um período de instabilidade.
A vitória por 1 a 0 sobre o Manchester United, em Old Trafford, foi especialmente importante para Maresca. Além de representar seu primeiro dérbi de Manchester, o resultado mostrou a capacidade do time de competir em circunstâncias adversas, já que Phil Foden foi expulso ainda no primeiro tempo. Mesmo com um jogador a menos durante grande parte da partida, o Manchester City conseguiu proteger a vantagem construída por Erling Haaland e preservar a sequência perfeita. O resultado também reforçou uma característica que diferencia o novo projeto: maior capacidade de adaptação durante os jogos.
A reformulação do elenco é um dos principais desafios de Maresca. O treinador assumiu uma equipe que perdeu referências importantes da era Guardiola e precisou incorporar rapidamente jogadores contratados para formar uma nova base. Enzo Fernández, por exemplo, chegou apenas no fim da janela de transferências e já exerce influência dentro do grupo. Segundo Maresca, o argentino tem demonstrado liderança e mentalidade vencedora desde os primeiros compromissos pelo clube.
A sequência de setembro, entretanto, exigirá que o Manchester City mantenha a concentração. O próximo compromisso será contra o Chesterfield, pela Copa da Liga Inglesa, antes de o time receber o Norwich City pela Premier League. Na sequência, haverá o confronto com o Sunderland, também no Etihad Stadium. São partidas diante de adversários teoricamente menos fortes, mas importantes para que Maresca dê minutos aos novos jogadores sem comprometer a consistência coletiva.
O verdadeiro teste da reconstrução aparecerá posteriormente. O calendário reserva confrontos contra Liverpool e Paris Saint-Germain, adversários que permitirão avaliar com maior precisão até onde a nova equipe pode chegar. O Liverpool aparece no caminho pela Premier League, enquanto o PSG será o próximo compromisso europeu relevante em outubro.
Manter os 100% de aproveitamento, portanto, não significa apenas continuar vencendo. Para Maresca, o objetivo é utilizar essa sequência para consolidar um Manchester City competitivo, capaz de administrar diferentes estilos de jogo e, ao mesmo tempo, desenvolver os reforços que chegaram para substituir parte da estrutura construída por Guardiola. A temporada ainda está no começo, mas os primeiros resultados indicam que a transição não provocou o esperado período de queda. Agora, o desafio será provar que esse bom início pode se transformar em uma nova identidade vencedora.
Será que o Manchester City vai construir duas eras de ouro entre os trabalhos de Guardiola e Maresca no futebol inglês?
A ideia de que “dois raios não caem no mesmo lugar” parece adequada quando se olha para o desafio de Maresca no Manchester City. Pep Guardiola construiu uma das eras mais dominantes da história do futebol inglês, conquistando 19 troféus em dez anos no comando do clube. Repetir uma trajetória dessa dimensão seria extraordinário. Ainda assim, os primeiros meses de Maresca indicam que o City não pretende simplesmente sobreviver à saída do espanhol, mas tentar construir uma nova fase de protagonismo.
A transição, porém, acontece em circunstâncias completamente diferentes. Guardiola deixou uma equipe acostumada a controlar partidas, disputar títulos e estabelecer padrões técnicos elevados. Maresca recebeu, ao mesmo tempo, a responsabilidade de preservar essa cultura vencedora e reconstruir um elenco que perdeu jogadores importantes. Cerca de 37,2% dos minutos da temporada anterior precisaram ser substituídos, com as saídas de nomes como Rodri e Bernardo Silva tornando ainda maior a dimensão da mudança.
O início de setembro oferece motivos para acreditar que a ruptura não será imediata. O Manchester City venceu seus primeiros compromissos da temporada e abriu sua campanha na Champions League com uma vitória por 2 a 0 sobre o Porto. A equipe também derrotou o Manchester United por 1 a 0 em Old Trafford, resultado especialmente significativo porque Maresca precisou reorganizar o time depois da expulsão de Phil Foden.
Esse comportamento pode ser justamente a chave para uma possível segunda era de ouro. Maresca não precisa ser Guardiola. O novo treinador pode aproveitar conceitos assimilados durante sua passagem pelo clube, mas acrescentar maior flexibilidade tática e uma maneira diferente de administrar os momentos das partidas. O investimento em jogadores como Enzo Fernández, Elliot Anderson e Ayyoub Bouaddi também demonstra que o projeto está direcionado para uma renovação profunda, e não para simplesmente prolongar a antiga geração.
Ainda assim, “dois raios não caem no mesmo lugar” porque repetir a dimensão do ciclo de Guardiola será uma tarefa quase impossível. O espanhol não apenas ganhou títulos: transformou o Manchester City em referência mundial. Maresca terá de construir sua própria história, enfrentando Premier League e Champions League com um elenco reformulado e expectativas enormes.
Se conseguir transformar essa reconstrução em uma equipe capaz de disputar troféus por vários anos, Maresca poderá provar que o fim da era Guardiola não significou o fim da era dourada do Manchester City. Talvez o segundo raio não caia exatamente no mesmo lugar, mas pode iluminar novamente o Etihad Stadium nos próximos meses.
(Foto: Getty Images)
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