Durante muitos anos, qualquer conversa sobre Cristiano Ronaldo parecia inevitavelmente levar ao mesmo nome: Lionel Messi. Um aparecia de um lado, o outro respondia do outro. Real Madrid e Barcelona transformaram a rivalidade em espetáculo, enquanto Portugal e Argentina serviam como extensão de uma disputa que nunca foi oficialmente uma disputa entre os dois. Agora, porém, essa história está chegando ao fim.
Messi já decidiu encerrar sua trajetória pela seleção argentina após a Copa do Mundo de 2026, enquanto Cristiano Ronaldo, dois anos mais velho, escolheu continuar. O português foi convocado por Jorge Jesus para a primeira Data Fifa da nova era de Portugal e estará à disposição para os compromissos da Liga das Nações.
É uma mudança simbólica. Pela primeira vez em muitos anos, Ronaldo seguirá seu caminho internacional sem a possibilidade de Messi aparecer do outro lado. E talvez seja justamente isso que torne este momento tão interessante: o português não tem mais uma rivalidade histórica para alimentar sua narrativa. O desafio agora é descobrir quanto ainda pode entregar antes de finalmente colocar um ponto final na carreira.
Jorge Jesus não vai escalar Ronaldo pelo nome
A primeira convocação de Jorge Jesus deixou uma coisa clara: Cristiano Ronaldo continua fazendo parte dos planos de Portugal. O atacante do Al-Nassr aparece entre os 25 convocados para os próximos compromissos da Liga das Nações, ao lado de nomes como Bruno Fernandes, Bernardo Silva, Vitinha, Rafael Leão e João Félix.
Mas existe uma diferença importante em relação ao passado.
Jesus conhece Ronaldo de perto. O treinador trabalhou com o atacante no Al-Nassr e, mesmo reconhecendo o tamanho de sua carreira, deixou claro que a história do camisa 7 não será suficiente para garantir minutos em campo.
O critério será desempenho.
Segundo o técnico, Ronaldo será tratado como qualquer outro jogador da seleção. Se apresentar rendimento nos treinamentos e nas partidas, joga. Caso contrário, pode ficar no banco. Jesus reconheceu que o português possui um status diferente por causa dos cinco prêmios de Bola de Ouro e de tudo o que conquistou, mas afirmou que isso não terá peso em suas decisões esportivas.
É uma mudança relevante para um jogador que passou boa parte da carreira sendo praticamente intocável em suas equipes. Aos 41 anos, Ronaldo continua sendo Cristiano Ronaldo, mas o futebol ao seu redor mudou. E Jorge Jesus parece disposto a deixar isso bem claro desde o começo.
Último grande objetivo de Cristiano Ronaldo
Se a rivalidade com Messi deixou de ser o principal combustível narrativo, Ronaldo ainda tem uma motivação individual enorme: chegar aos 1.000 gols na carreira.
O português alcançou 979 gols por clubes e seleção no início de setembro, após marcar contra o Abha pelo Al-Nassr. Isso significa que faltam 21 gols para chegar à marca histórica.
A conta parece simples, mas o contexto torna o desafio bem mais interessante.
Ronaldo já admitiu que a temporada 2026/27 pode ser a última de sua carreira. Com isso, existe uma corrida contra o relógio para transformar o número 979 em 1.000 antes de finalmente abandonar os gramados. Segundo levantamento recente, o atacante chegou ao início da temporada com três gols em cinco jogos pelo Al-Nassr, ainda distante de uma garantia de que alcançará a marca com tranquilidade.
E existe uma curiosidade nisso tudo: Jorge Jesus sequer parece interessado em usar a seleção portuguesa como caminho para o milésimo.
O treinador afirmou que acredita que Ronaldo deveria buscar esse objetivo principalmente pelo Al-Nassr, deixando claro que a seleção precisa pensar em desempenho e resultados, não em ajudar o craque a alcançar uma estatística pessoal.
Ou seja: se CR7 quiser colocar mais três dígitos na história, vai ter que trabalhar por eles.
Messi saiu de cena, mas a comparação não desapareceu
Durante quase 20 anos, era impossível discutir Ronaldo sem mencionar Messi. Os dois acumularam títulos, recordes, gols e prêmios em uma escala que dificilmente será repetida.
A rivalidade atingiu seu auge durante os anos de Barcelona e Real Madrid. Messi comandava o time catalão, Ronaldo era a principal referência do clube espanhol, e os dois se enfrentavam nos maiores jogos possíveis enquanto disputavam também a Bola de Ouro. Ao todo, eles somam 13 prêmios individuais, cinco para Ronaldo e oito para Messi.
O mais curioso é que, apesar de toda a narrativa criada ao redor deles, Messi já explicou que não existia uma guerra pessoal entre os dois. Segundo o argentino, a competição era essencialmente esportiva e ganhou proporções gigantescas porque ambos estavam disputando praticamente tudo ao mesmo tempo.
Agora, os dois vivem os últimos capítulos de suas carreiras em ambientes completamente diferentes.
Messi continua no Inter Miami e marcou recentemente seu 100º gol pelo clube, aos 39 anos. Ronaldo permanece no Al-Nassr e tenta chegar aos quatro dígitos. A distância geográfica entre os dois é enorme, mas a comparação continua aparecendo sempre que um deles alcança alguma marca importante.
A diferença é que já não existe a mesma corrida.
Portugal também precisa aprender a seguir em frente
A permanência de Ronaldo não significa que Portugal possa simplesmente continuar dependendo dele como acontecia em outros momentos. A seleção possui uma geração forte e vários jogadores que já assumiram papéis importantes.
Bruno Fernandes, Bernardo Silva, Vitinha, João Neves, Rafael Leão, Pedro Neto e outros nomes formam uma base capaz de dividir responsabilidades. A própria primeira convocação de Jorge Jesus trouxe quatro novidades em relação ao grupo que disputou a Copa do Mundo: Samuel Soares, Nuno Tavares, João Palhinha e Fábio Silva.
Isso mostra que a mudança já começou. Ronaldo pode continuar sendo uma referência, principalmente dentro da área e nos momentos em que sua experiência fizer diferença. Mas Portugal precisa encontrar uma forma de jogar que não dependa exclusivamente da presença do camisa 7.
Na Copa de 2026, Portugal foi eliminado pela Espanha nas oitavas de final. Ronaldo marcou três gols no torneio, mas a campanha terminou antes do que os portugueses gostariam. Agora, a seleção inicia outro ciclo, com Jorge Jesus substituindo Roberto Martínez e tentando construir uma equipe que consiga equilibrar experiência e renovação.
O que resta para Cristiano Ronaldo?
Essa talvez seja a pergunta mais interessante desta nova fase.
Ronaldo já ganhou praticamente tudo que um jogador poderia conquistar em clubes. Foi campeão na Inglaterra, na Espanha e na Itália, venceu a Champions League cinco vezes, conquistou a Eurocopa com Portugal e acumulou uma coleção de recordes individuais difícil de acompanhar.
O Mundial, porém, nunca veio. E agora não virá mais. O próprio Ronaldo confirmou que a Copa de 2026 foi seu último Mundial. Por isso, os objetivos são outros. Chegar aos 1.000 gols. Continuar competitivo no Al-Nassr. Ajudar Portugal em uma nova geração. E, principalmente, decidir quando é o momento certo de parar.
Durante anos, Cristiano Ronaldo e Lionel Messi fizeram o futebol parecer uma disputa particular. Um recorde de um era respondido pelo outro, uma atuação espetacular gerava outra, e cada temporada parecia oferecer um novo capítulo daquela história.
Agora, Messi tomou seu caminho e Ronaldo escolheu continuar. Sem o argentino ao lado para servir de comparação constante, o português entra em uma fase na qual a maior disputa será contra o próprio relógio. E, aos 41 anos, talvez essa seja a rivalidade mais difícil de todas.
Foto: Yasser Bakhsh/Getty Images



