Basquete NBA

Como o Charlotte Hornets quer reconstruir seu ataque coletivamente para substituir LaMelo Ball

Durante anos, LaMelo Ball pareceu ser uma peça impossível de substituir no Charlotte Hornets. O armador não era apenas o principal criador dos Hornets: ele era o jogador responsável por dar ritmo ao ataque, acelerar transições, encontrar companheiros em posições improváveis e transformar uma posse aparentemente comum em uma oportunidade de pontuação. Na última temporada, a diferença entre Charlotte com e sem LaMelo foi particularmente evidente. Quando Ball dividiu a quadra com Brandon Miller e Kon Knueppel, os Hornets produziram um offensive rating de 130,3, o melhor entre qualquer trio que tenha disputado pelo menos 60 jogos. Quando o armador estava no banco, o número despencava para 110,6.

É por isso que a troca de LaMelo Ball para o Minnesota Timberwolves poderia parecer, à primeira vista, um problema quase impossível de resolver. Como substituir um jogador que centralizava praticamente toda a estrutura ofensiva? A resposta de Charlotte, porém, não foi procurar outro armador capaz de fazer exatamente as mesmas coisas. Os Hornets parecem ter chegado a uma conclusão diferente: LaMelo não será substituído por um jogador. Será substituído por um sistema.

Essa é a principal mudança conceitual da franquia. Em vez de tentar reproduzir os passes espetaculares, as bolas longas e a criatividade improvisada de Ball, Charlotte quer distribuir suas funções entre Coby White, Brandon Miller, Knueppel, Naz Reid e uma série de jovens que ainda precisam desenvolver seus próprios jogos.

O objetivo não é fazer com que alguém seja o novo LaMelo. É fazer com que o ataque não precise mais depender de um único jogador para funcionar.

Coby White é o primeiro passo para mudar a equação

Coby White talvez seja o jogador mais diretamente ligado à tentativa de preencher parte do espaço deixado por Ball, mas esperar que ele reproduza o jogo do antigo armador seria um erro.

White não possui a mesma capacidade de lançar passes de uma mão a uma distância absurda, nem a mesma habilidade de manipular uma defesa com a informalidade característica de LaMelo. Seu jogo passa por outro caminho.

Ele pontua. E pontua em grande volume, especialmente do perímetro. White é um dos arremessadores de três pontos mais agressivos da NBA e consegue produzir tanto recebendo a bola quanto utilizando bloqueios para criar o próprio arremesso. Isso oferece a Charlotte uma ameaça diferente daquela proporcionada por Ball.

Mas talvez a característica mais importante seja outra: White ataca a cesta com muito mais frequência. Na última temporada, 33% dos seus arremessos de meia quadra vieram na área próxima ao aro, segundo dados da Synergy Sports. Com LaMelo, essa proporção era de apenas 18%. A diferença parece pequena no papel, mas muda completamente a geometria de um ataque.

Charlotte passou boa parte da última temporada dependendo excessivamente dos arremessos de fora. Brandon Miller e Knueppel também não eram jogadores que atacavam constantemente o aro, e isso deixava os Hornets vulneráveis quando as defesas conseguiam fechar os espaços no perímetro.

O problema apareceu de maneira especialmente clara na eliminação para o Orlando Magic no play-in. Charlotte tentou 45 arremessos de três pontos, mas marcou apenas 28 pontos no garrafão na derrota por 121 a 90.

A mensagem é clara: se o ataque continuar dependendo exclusivamente de jump shots, a ausência de LaMelo ficará ainda mais evidente. White oferece uma possível solução justamente porque consegue colocar a defesa em movimento de outra maneira. Ele pode arremessar de três, mas também pode colocar a cabeça no peito do defensor, chegar ao garrafão e obrigar a defesa a reagir.

E os primeiros sinais são interessantes. Nos minutos em que White jogou sem Ball na última temporada, Charlotte registrou offensive rating de 126,2. A amostra é pequena, apenas 309 minutos, mas serve como indício de que o novo armador não precisa necessariamente reproduzir LaMelo para manter a equipe competitiva. Ele precisa fazer o ataque funcionar de outra forma.

Brandon Miller precisa deixar de ser apenas uma promessa

Se Coby White pode assumir parte da criação, a verdadeira transformação de Charlotte depende de Brandon Miller.

A segunda escolha do Draft de 2023 foi selecionada justamente porque apresentava características de jogador capaz de produzir em diferentes níveis da quadra. Com 2,01 m, Miller pode arremessar, atacar a cesta, criar para os companheiros e explorar diferentes tipos de marcação.

Mas existe uma etapa que ainda falta. **Miller precisa aprender a criar quando a jogada planejada acaba. **Na última temporada, ele ficou entre os jogadores menos eficientes da NBA em situações de isolamento entre aqueles que tiveram pelo menos 100 posses desse tipo. Sem LaMelo, porém, esse tipo de posse inevitavelmente aumentará.

Quando o ataque precisar de alguém para criar uma cesta nos últimos segundos do relógio, Miller terá mais oportunidades para assumir essa responsabilidade.

Isso pode ser um problema no curto prazo, mas também pode ser exatamente o tipo de desenvolvimento que Charlotte precisa.

Durante a era LaMelo, era natural entregar a bola ao armador e permitir que ele encontrasse uma solução. Agora, essas responsabilidades terão de ser distribuídas. Miller terá de aprender a produzir contra defesas preparadas para ele, enquanto White e Knueppel também receberão mais liberdade.

O contexto físico de Miller também merece atenção. O jogador passou por cirurgia no ombro esquerdo em maio depois de conviver com instabilidade na região durante a temporada. Mesmo jogando com o problema, ele terminou o último campeonato com médias de 20,2 pontos, 4,9 rebotes e 3,3 assistências, além de converter 38% das bolas de três.

Se a recuperação permitir que Miller finalmente jogue sem as limitações físicas que o acompanharam, Charlotte poderá descobrir que a saída de LaMelo não significa apenas perda de protagonismo.

Pode significar também a abertura de espaço para o jogador que deveria ser o próximo grande protagonista da franquia.

Knueppel pode ser mais do que um arremessador

Kon Knueppel representa outra parte importante dessa transformação. O novato terminou sua primeira temporada liderando a NBA em bolas de três convertidas, mas reduzir seu jogo ao arremesso seria ignorar justamente aquilo que tornou o jogador uma escolha tão alta no Draft.

Knueppel não é um criador explosivo no sentido tradicional. Ele não depende de velocidade ou de uma sequência de dribles para produzir vantagem. Seu jogo é construído sobre ritmo, leitura e tomada de decisão.

Pode utilizar um bloqueio, atacar o espaço deixado pela defesa e fazer o passe correto. Pode atacar um closeout e finalizar com um floater. Pode funcionar sem a bola e, ao mesmo tempo, assumir responsabilidades maiores quando necessário.

Sem LaMelo, essas possibilidades serão testadas. A questão é descobrir até onde Knueppel pode avançar como criador. Se o segundo-anista conseguir transformar sua gravidade como arremessador em uma ferramenta para gerar infiltrações e passes, Charlotte ganhará outro jogador capaz de iniciar ações ofensivas.

E isso é justamente o que a franquia precisa. Quanto mais jogadores capazes de criar uma vantagem, menos importante se torna ter um único jogador capaz de criar todas elas.

Naz Reid muda a geometria do time

A troca também trouxe uma peça que pode alterar completamente a maneira como o ataque dos Hornets é organizado: Naz Reid. O pivô não chega apenas para preencher espaço no garrafão. Sua capacidade de arremessar de três e atacar jogadores mais lentos permite que Charles Lee utilize formações que seriam muito mais difíceis de construir com um pivô tradicional.

Charlotte pode, por exemplo, colocar cinco jogadores capazes de ameaçar o perímetro. Pode utilizar Knueppel como bloqueador para Reid em situações de pick-and-roll invertido. Pode colocar Moussa Diabaté ao lado de Reid, permitindo que um jogador ataque o rebote enquanto o outro abre a quadra.

Também existe a possibilidade de utilizar Ryan Kalkbrenner para aumentar o tamanho e a proteção de aro da equipe.

Essa variedade é uma parte importante da substituição de LaMelo. A versatilidade de uma equipe não está apenas na quantidade de posições que seus jogadores conseguem defender. Está também na quantidade de formas diferentes que o treinador consegue utilizar para atacar.

Charlotte agora pode jogar grande, jogar pequeno, acelerar, explorar o perímetro, atacar o garrafão ou simplesmente colocar cinco jogadores capazes de arremessar em quadra.

Isso oferece a Lee algo que LaMelo, por mais talentoso que fosse, não poderia oferecer sozinho: possibilidades táticas.

Os jovens são parte da aposta, não apenas peças de desenvolvimento

A estratégia também explica outras escolhas do Draft. Hannes Steinbach, selecionado na 14ª posição, chega com uma característica que combina imediatamente com a identidade dos Hornets: rebote ofensivo.

Charlotte terminou a última temporada em segundo lugar na NBA em taxa de rebotes ofensivos. Steinbach pode reforçar justamente essa característica, usando físico e posicionamento para punir equipes que optem por formações menores.

Mas ele não é apenas um jogador de garrafão. O alemão também apresenta capacidade de arremessar, passar a partir do elbow e funcionar como uma espécie de ponto de conexão ofensiva. Para um time que está tentando distribuir a criação, esse tipo de jogador pode ser especialmente útil.

Christian Anderson, escolhido na 18ª posição, representa outra aposta. Na universidade, produziu 18,6 pontos e 7,5 assistências por jogo, além de 41,5% nas bolas de três. Assim como LaMelo, não é um jogador naturalmente inclinado a atacar o aro, mas possui capacidade de criação no meio da quadra, arremesso e disposição para compartilhar a bola.

A diferença é que Anderson não precisa ser titular imediatamente. Ele pode crescer atrás dos veteranos, aprender o sistema e, eventualmente, assumir um papel maior. Essa é uma das grandes vantagens do novo planejamento de Charlotte: a franquia não precisa resolver hoje um problema que pretende solucionar nos próximos anos.

Charlotte está tentando descobrir quem será o dono do ataque

Existe, naturalmente, um risco. Espalhar as funções de LaMelo não garante que o ataque continuará funcionando no mesmo nível. Há uma razão para Ball ter sido tão importante: quando uma posse entrava em colapso, ele conseguia criar algo do nada.

Um passe impossível. Um arremesso fora do ritmo. Uma infiltração inesperada. Uma transição iniciada em um instante. Charlotte inevitavelmente sentirá falta disso em algumas noites.

Mas existe uma diferença entre sentir falta de um jogador e construir uma equipe incapaz de funcionar sem ele. É justamente essa dependência que os Hornets parecem querer eliminar.

Coby White pode fornecer volume de pontuação e pressão no aro. Brandon Miller precisa transformar talento em criação consistente. Knueppel pode evoluir de arremessador para um jogador mais completo. Naz Reid altera a geometria das formações. Steinbach e Anderson representam possibilidades para o futuro.

Nenhum deles é LaMelo Ball. E talvez esse seja exatamente o ponto.

Charlotte está apostando que o próximo passo da franquia não será encontrar alguém capaz de reproduzir o que seu antigo armador fazia, mas desenvolver vários jogadores capazes de fazer partes diferentes daquilo que ele fazia.

No curto prazo, isso pode produzir um ataque menos espetacular. Haverá posses em que nenhum jogador encontrará a solução que LaMelo encontraria.

Mas, no longo prazo, existe uma possibilidade mais interessante.

Miller pode se tornar o criador principal. White pode ser o pontuador que ataca o aro e pune de três. Knueppel pode virar um segundo organizador. Reid pode criar problemas no frontcourt. Os jovens podem adicionar novas dimensões à estrutura.

O resultado seria um time em que a bola não precisa passar sempre pelas mãos de um único jogador para que uma vantagem seja criada.

LaMelo era o motor do ataque de Charlotte. Agora, os Hornets querem construir um carro com vários motores.

A aposta é que nenhum deles será capaz de fazer tudo o que Ball fazia. Mas, juntos, talvez consigam fazer Charlotte jogar de uma maneira que Ball sozinho nunca permitiria.