A Espanha ganhou em Wembley sem precisar ser perfeita
Existem vitórias que impressionam pelo placar e outras que revelam algo maior sobre uma equipe. O 3 a 2 da Espanha sobre a Inglaterra, em Wembley, pertence à segunda categoria.
A campeã mundial não fez uma partida perfeita. Teve momentos de dificuldade, perdeu o controle em determinados trechos e chegou ao intervalo em desvantagem depois de criar oportunidades suficientes para estar à frente. Ainda assim, encontrou uma maneira de mudar o rumo do jogo sem abandonar aquilo que a tornou uma das seleções mais fortes do futebol internacional.
Esse talvez seja o principal sinal deixado por Wembley.
A Espanha não precisou transformar sua maneira de jogar quando a Inglaterra virou o placar. Continuou circulando a bola, procurando espaços e confiando na própria estrutura. Quando Luis de la Fuente mexeu na equipe, as mudanças serviram para reforçar essa identidade, com Alex Baena e Mikel Oyarzabal participando diretamente da reação.
O resultado foi uma virada em um dos palcos mais tradicionais do futebol mundial e uma demonstração de maturidade que vai muito além dos três pontos.
A Inglaterra teve o jogo nas mãos, mas não conseguiu controlar a Espanha
A partida começou com a Espanha tomando a iniciativa e encontrando espaços principalmente quando Lamine Yamal recebia a bola. O atacante participou diretamente do primeiro gol e voltou a mostrar por que é uma das principais referências técnicas da seleção.
O problema foi que as oportunidades criadas não se transformaram em uma vantagem maior. Ferran Torres teve chances importantes, enquanto Rodri também encontrou espaço para finalizar. A Inglaterra sobreviveu ao período de pressão, aumentou a intensidade e conseguiu virar a partida ainda antes do intervalo.
De repente, o cenário era completamente diferente.
A Espanha, que havia controlado boa parte do primeiro tempo, precisava reagir contra uma Inglaterra que parecia ter tomado conta de Wembley. Foi justamente nesse momento que apareceu uma das principais características da equipe de De la Fuente: a capacidade de continuar jogando como Espanha mesmo quando o resultado dizia o contrário.
De la Fuente mexeu, e a seleção voltou a controlar o jogo
As entradas de Baena, Oyarzabal e, posteriormente, Pedri ajudaram a modificar o comportamento da equipe. Baena aumentou a qualidade técnica do meio-campo e marcou o gol de empate, enquanto Oyarzabal participou diretamente da construção que terminou com a virada espanhola.
As substituições foram importantes, mas não explicam tudo.
O mais interessante foi a maneira como a Espanha voltou a controlar a partida. Em vez de acelerar de forma desorganizada em busca do empate, a seleção recuperou sua circulação de bola e voltou a obrigar a Inglaterra a correr atrás dela.
Quando uma equipe acredita que precisa atacar a qualquer custo porque está perdendo, abre espaços e transforma o jogo em uma sucessão de transições. A Espanha fez o contrário: manteve a bola, encontrou os espaços e fez a Inglaterra defender por períodos cada vez maiores.
A reação não nasceu do desespero, mas da convicção de que o caminho para vencer continuava sendo o mesmo.
A grande força está em mudar sem perder a identidade
Essa talvez seja a principal evolução da Espanha sob o comando de De la Fuente.
A seleção não depende de uma formação perfeita ou da presença de todos os seus principais jogadores para funcionar. Ao longo dos últimos ciclos, diferentes nomes assumiram responsabilidades importantes sem que a equipe deixasse de reconhecer seu próprio estilo.
Isso ficou evidente novamente em Wembley.
A Espanha chegou ao jogo com ausências importantes, mas conseguiu manter sua capacidade de controlar a bola e encontrar soluções ofensivas. Quando precisou mudar o ritmo, mudou. Quando precisou defender, defendeu. Quando ficou atrás no placar, não abandonou seus princípios.
Essa flexibilidade é especialmente importante em torneios de seleções. Em uma competição curta, não existe tempo para reconstruir uma equipe depois de cada problema. Lesões, suspensões, desgaste e adversários com estilos diferentes fazem parte do caminho.
A seleção que consegue adaptar seus jogadores sem perder sua identidade parte de uma condição diferente.
A Espanha parece ter encontrado exatamente esse equilíbrio.
A campeã mundial também aprendeu a sobreviver
Outro aspecto importante da vitória em Wembley está na capacidade de sofrer.
Durante determinados momentos, a Inglaterra conseguiu colocar a Espanha em uma situação desconfortável. O jogo ficou físico, a pressão aumentou e o placar chegou a indicar que os ingleses haviam encontrado a fórmula para superar os atuais campeões mundiais.
A Espanha, porém, não abandonou sua maneira de jogar.
Esse é um detalhe importante porque o verdadeiro teste de uma seleção não aparece apenas quando tudo funciona. Ele surge quando o plano inicial deixa de funcionar e o adversário consegue impor outro cenário.
Foi exatamente o que aconteceu em Wembley.
A Espanha precisou lidar com erros, desvantagem no placar e pressão da torcida inglesa. Mesmo assim, continuou procurando passes, movimentações e superioridade numérica até encontrar os espaços necessários para virar.
É uma característica que costuma aparecer nas grandes equipes: a capacidade de sofrer sem transformar o sofrimento em desespero.
Wembley reforça uma tendência que já não parece acidental
A vitória sobre a Inglaterra também amplia uma sequência de resultados importantes da Espanha contra adversários de alto nível.
Desde a derrota para a Escócia em março de 2023, a seleção passou a construir uma trajetória marcada por confrontos contra algumas das principais equipes do futebol mundial. Argentina, Uruguai, Alemanha, França, Itália e a própria Inglaterra aparecem entre os adversários derrotados nesse período.
O dado mais relevante, porém, não está apenas na lista de adversários. Está na maneira como essas partidas foram disputadas.
A Espanha não construiu sua força enfrentando apenas equipes dispostas a entregar a bola. Também precisou encontrar soluções contra seleções capazes de pressionar, acelerar o jogo e explorar suas fragilidades.
Wembley foi mais um exemplo.
A Inglaterra conseguiu ferir a campeã mundial, virou o placar e criou um ambiente no qual a Espanha poderia ter perdido a referência. O que não conseguiu foi fazê-la abandonar o próprio caminho.
A Espanha não precisa assustar os adversários para ser favorita
É exagerado dizer que a Espanha coloca medo em todos os rivais. O futebol de seleções é imprevisível demais para permitir esse tipo de certeza, e nenhuma equipe atravessa um ciclo inteiro sem tropeços.
Mas existe algo que os adversários já perceberam.
Vencer a Espanha exige mais do que encontrar uma maneira de pará-la durante alguns minutos. É preciso conseguir sustentar o plano durante toda a partida, porque a seleção de De la Fuente possui qualidade suficiente para encontrar respostas mesmo quando o cenário parece desfavorável.
A Inglaterra mostrou isso em Wembley. Teve momentos em que parecia ter encontrado as respostas, virou o placar e colocou a campeã mundial em uma situação desconfortável. Mesmo assim, a Espanha retomou o controle e terminou a partida vencendo por 3 a 2.
Essa é a mensagem mais importante deixada pela noite em Londres. A Espanha pode ser pressionada, pode sofrer e pode ficar atrás no placar. O que mudou é que essas situações já não parecem suficientes para fazê-la abandonar aquilo que sabe fazer.
E uma campeã mundial que consegue atravessar momentos de dificuldade sem perder a identidade se torna ainda mais difícil de enfrentar. Em Wembley, a Espanha não venceu porque conseguiu deixar de ser a Espanha.
Venceu justamente porque, quando a partida mais exigiu personalidade, continuou sendo ela mesma.
Foto: Reprodução/Instagram/@sefutbol



