manchester city
Futebol Premier League UEFA Champions League

Entenda a enorme dívida do Manchester City que pode afetar outros clubes

O Manchester City atravessa um dos momentos mais delicados de sua história fora de campo. A situação envolvendo as acusações financeiras da Premier League pode gerar consequências importantes para o clube, mas os possíveis efeitos não necessariamente ficarão restritos ao próprio City.

A grande preocupação está relacionada às transferências. O clube acumulou nos últimos anos uma quantidade enorme de compromissos financeiros com outros times. Estimativas apontam que a dívida líquida relacionada a transferências pode chegar a aproximadamente £550 milhões, embora o número definitivo dependa das contas de 2026 e de como os pagamentos das negociações serão contabilizados.

O valor chama atenção porque o mercado de transferências moderno funciona cada vez mais com pagamentos parcelados. Quando um clube contrata um jogador por uma determinada quantia, raramente todo o dinheiro é pago imediatamente. Uma parte é desembolsada no momento da contratação e o restante é dividido em parcelas que podem durar vários anos.

Isso significa que uma contratação de £100 milhões pode representar apenas £35 milhões ou £40 milhões saindo imediatamente dos cofres do comprador. O restante será pago posteriormente. Esse sistema permite que os clubes façam investimentos enormes sem precisar ter todo o dinheiro disponível naquele momento.

No caso do Manchester City, o volume de operações recentes fez com que essas obrigações aumentassem rapidamente.

O crescimento das obrigações do Manchester City

Janela de transferências
Foto: Divulgação/Manchester City

A evolução dos números mostra como a situação mudou em poucos anos. A dívida líquida do Manchester City relacionada a transferências era estimada em apenas £39,6 milhões em 2022. Nas contas de 2025, esse número já havia chegado a £327,6 milhões.

A situação ficou ainda maior depois da última janela de transferências. O City gastou aproximadamente £458 milhões no verão de 2026 e chegou a cerca de £720 milhões em gastos desde o verão anterior. Esses números não representam necessariamente o gasto líquido do clube, mas mostram o tamanho dos compromissos assumidos nas negociações.

Entre os principais negócios estão Enzo Fernandez, contratado por €145 milhões, Elliot Anderson, por €135 milhões, Ayyoub Bouaddi, por €95 milhões e Iliman Ndiaye, por €70 milhões. Outros jogadores também aparecem na lista, como Allan, Mathys Detourbet, Jeremy Monga, Pierce Charles e Geronimo Rulli.

O detalhe mais importante é que esses valores não significam necessariamente que todo o dinheiro já tenha sido pago.

Se uma contratação de €100 milhões for dividida em várias parcelas, o clube vendedor terá uma receita futura garantida em contrato. Para o comprador, entretanto, isso representa uma obrigação que continuará existindo nos próximos anos.

Por isso, uma dívida líquida próxima de £550 milhões seria significativa. O número ainda é uma estimativa e poderá mudar quando as contas do City referentes a 2026 forem divulgadas, mas serve para dimensionar o tamanho dos compromissos acumulados.

Esse modelo também não é exclusivo do Manchester City. Os pagamentos parcelados se tornaram cada vez mais comuns no futebol europeu, especialmente em grandes transferências.

A dívida líquida relacionada a transferências dos clubes da Premier League teria chegado a aproximadamente £2,85 bilhões. Uma década atrás, esse número era estimado em apenas £165 milhões.

O crescimento mostra como o futebol inglês passou a trabalhar cada vez mais com dinheiro futuro. Os clubes gastam valores maiores, mas uma parcela significativa desse dinheiro será paga somente posteriormente.

O possível efeito dominó no futebol

Bouaddi Manchester City
Foto: Divulgação/Manchester City

É justamente aqui que o problema do Manchester City pode deixar de ser apenas uma questão do clube.

O mercado de transferências funciona como uma grande cadeia financeira. Um clube compra um jogador e combina o pagamento em parcelas. O clube vendedor recebe esses valores ao longo dos anos e, muitas vezes, utiliza receitas futuras para planejar seus próprios investimentos.

Assim, um único negócio pode estar conectado a várias outras operações.

Um exemplo é o de Robert Lewandowski. O Barcelona ainda possuía valores a pagar ao Bayern pela contratação do atacante mesmo depois de o jogador ter deixado o clube. Isso mostra como uma transferência pode continuar gerando obrigações financeiras durante vários anos.

Agora imagine esse mecanismo envolvendo o Manchester City.

Se o clube tiver sua capacidade de operação afetada por uma eventual punição da Premier League, sua capacidade de cumprir compromissos futuros também pode se tornar uma preocupação para os clubes que têm dinheiro a receber.

O problema não precisa necessariamente significar que todos os pagamentos deixarão de acontecer. Uma mudança na situação financeira poderia provocar renegociações, alterações nos prazos ou outras soluções para preservar o fluxo de caixa.

E isso pode afetar mais clubes do que aqueles que negociaram diretamente com o City.

As transferências também podem envolver cláusulas de revenda. Quando um jogador é vendido, o clube anterior pode ter direito a uma porcentagem de uma negociação futura. Dessa forma, uma transferência que começou envolvendo dois clubes pode acabar conectando três ou quatro equipes.

O cenário fica ainda mais complexo quando existem pagamentos parcelados relacionados à transferência original.

Por isso, uma eventual dificuldade financeira em um dos principais clubes do mercado pode provocar consequências em diferentes pontos da cadeia.

Por que o caso pode ser maior do que o City

maresca city
Foto: Imago / PA Images

O Manchester City ainda terá batalhas importantes pela frente. O processo envolvendo as acusações da Premier League possui consequências esportivas e financeiras que ainda dependem dos próximos passos, incluindo possíveis recursos e a definição das punições.

Mas a questão dos pagamentos de transferências adiciona uma dimensão diferente ao problema.

O futebol moderno movimenta bilhões de libras em negociações, mas grande parte desse dinheiro não circula imediatamente. Os clubes trabalham com receitas futuras, parcelas, bônus, cláusulas de revenda e compromissos que podem durar anos.

Enquanto todos os envolvidos conseguem cumprir seus contratos, o sistema funciona normalmente. O problema aparece quando um dos grandes clubes dessa cadeia sofre uma mudança significativa em sua capacidade financeira.

É por isso que os aproximadamente £550 milhões em obrigações futuras do Manchester City chamam tanta atenção. O número não representa simplesmente uma dívida isolada. Ele representa dinheiro que outros clubes esperam receber.

Se o City continuar cumprindo normalmente seus compromissos, o mercado seguirá funcionando como acontece com qualquer outro clube. Porém, caso as consequências do processo provoquem uma alteração significativa em sua capacidade financeira, os efeitos podem atingir outras equipes.

E quanto mais clubes estiverem conectados por transferências parceladas, cláusulas de revenda e obrigações futuras, maior pode ser o impacto.

O caso mostra como o mercado de transferências mudou nos últimos anos. Os valores ficaram maiores, os pagamentos passaram a ser distribuídos por várias temporadas e os clubes passaram a depender cada vez mais de receitas futuras.

O Manchester City pode estar no centro dessa discussão, mas a questão envolve uma estrutura muito maior. Se um dos principais elos dessa cadeia for afetado, outros clubes também podem sentir as consequências.

author
Kaique