O Manchester City entrou em uma nova fase de sua história depois que a comissão independente responsável pelo caso das 115 acusações da Premier League considerou o clube culpado pela ampla maioria das infrações financeiras analisadas. Segundo informações divulgadas pela imprensa britânica, 114 das 115 acusações foram consideradas procedentes, embora a decisão formal sobre as sanções ainda esteja pendente e o clube tenha indicado que pretende recorrer. O impacto ultrapassa uma eventual punição esportiva: a discussão agora alcança diretamente o período em que os Citizens construiram a base de sua transformação em potência do futebol inglês.
De acordo com levantamento da BBC Sport, o Manchester City gastou aproximadamente 1,2 bilhão de libras em contratações entre o verão de 2009 e janeiro de 2018, justamente o intervalo associado às principais acusações financeiras. No mesmo período, a equipe conquistou sete grandes troféus: três títulos da Premier League, uma FA Cup e três Copas da Liga Inglesa. O contraste entre o investimento e a ascensão esportiva ajuda a dimensionar o tamanho da discussão atual, principalmente porque a comissão apontou que cerca de 830 milhões de libras teriam sido inflados ou inseridos de maneira indevida nas contas do clube, segundo a investigação citada pelo veículo.
A questão central no Manchester City, porém, não é simplesmente contabilizar quanto foi gasto em transferências. O ponto mais sensível é determinar até que ponto a capacidade financeira utilizada para montar aqueles elencos estava relacionada às irregularidades consideradas comprovadas pela comissão. A BBC observa que receitas não são destinadas exclusivamente a contratações e também financiam salários, infraestrutura, operações e outros departamentos. Ainda assim, a dimensão dos valores levanta uma pergunta impossível de responder definitivamente: quanto daquela trajetória esportiva teria sido alcançado sem os recursos considerados indevidamente registrados?
É nesse contexto que surgiu a expressão “era do asterisco”, utilizada para representar a dúvida sobre como a história daquele período deverá ser interpretada. Sergio Aguero, David Silva, Yaya Touré, Fernandinho e Kevin De Bruyne estão entre os jogadores contratados durante os anos analisados e que tiveram participação decisiva na transformação do Manchester City. O clube passou de uma equipe que não conquistava um grande título desde 1970 para uma força dominante do futebol inglês, estabelecendo as bases para o ciclo que posteriormente seria ampliado durante a passagem de Pep Guardiola.
Isso não significa, entretanto, que os títulos tenham sido automaticamente anulados. Até o momento, não existe uma decisão publicada determinando perda de troféus, rebaixamento ou qualquer outra sanção definitiva em relação ao Manchester City nesta temporada. As possíveis consequências ainda estão em discussão, e relatos indicam que outros clubes da Premier League já buscam orientação jurídica sobre eventuais pedidos de compensação. Entre as possibilidades mencionadas estão multa, perda de pontos e até expulsão da competição, mas nenhuma dessas punições deve ser tratada como definitiva antes da conclusão do processo e de seus recursos.
A dimensão histórica do caso também está relacionada ao efeito acumulativo das conquistas. Os títulos conquistados geraram premiações, receitas comerciais, exposição internacional e participação em competições europeias, criando novas condições para investimentos posteriores. Por isso, a discussão sobre os 1,2 bilhão de libras não termina na lista de jogadores contratados entre 2009 e 2018. Ela alcança a própria formação do modelo esportivo que permitiu ao Manchester City permanecer entre os protagonistas da Inglaterra durante a década seguinte.
O chamado “asterisco” representa, portanto, uma questão histórica ainda em aberto, e não uma conclusão automática sobre cada partida ou cada troféu. Os resultados aconteceram, os jogadores foram contratados e os títulos foram registrados, mas a confirmação das infrações financeiras cria uma camada adicional de controvérsia sobre aquele período. O futuro do Manchester City dependerá das sanções, dos recursos e das decisões das autoridades esportivas. Já o passado dificilmente poderá ser analisado novamente sem considerar o peso de 1,2 bilhão de libras em transferências e as conclusões da comissão independente.

Como o Manchester City investiu pesado em bilhões de reforços nos últimos anos e viu a situação ficar sob risco na Premier League
Antes de se tornar potência do Big Six, o Manchester City construiu, ao longo dos últimos anos, um dos projetos mais caros e vencedores do futebol mundial. A chegada de grandes investimentos após a mudança de controle em 2008 abriu espaço para contratações de alto valor, mas foi durante a era Pep Guardiola que o clube transformou esse poder financeiro em uma estrutura esportiva capaz de dominar a Inglaterra e conquistar a Champions League. Em setembro de 2026, porém, esse modelo passou a ser observado por outro ângulo depois da decisão da comissão independente que considerou o clube culpado por graves violações das regras financeiras da Premier League entre 2009/10 e 2017/18.
A dimensão dos investimentos ajuda a entender o tamanho dessa transformação. Desde a chegada dos proprietários de Abu Dhabi, o Manchester City passou a investir regularmente em jogadores de primeira linha, começando com nomes como Robinho, Yaya Touré e David Silva e avançando posteriormente para contratações como Kevin De Bruyne, Raheem Sterling, Riyad Mahrez, Erling Haaland e outros protagonistas da era Guardiola.
O processo não terminou com a consolidação do treinador espanhol no comando do Manchester City. Mesmo depois de sua saída, o clube manteve uma política agressiva no mercado e desembolsou cerca de 457,5 milhões de libras em reforços no primeiro mercado de Enzo Maresca como técnico, incluindo 125 milhões de libras por Enzo Fernández, valor que igualou o recorde britânico.
O técnico Pep Guardiola foi o principal responsável por transformar esse investimento em uma identidade esportiva duradoura. A partir de 2016, o catalão conduziu o Manchester City a uma sequência de conquistas que incluiu oito títulos da Premier League no período da atual propriedade, além de quatro FA Cups, sete Copas da Liga e, em 2023, a inédita Champions League, dentro de uma histórica tríplice coroa. A temporada de 2017/18, marcada pelos 100 pontos no campeonato, tornou-se um símbolo da força alcançada pelo projeto.
O problema agora está justamente na relação entre essa trajetória esportiva e as conclusões apresentadas em setembro. A comissão afirmou que o clube utilizou mecanismos que teriam inflado receitas e reduzido custos em mais de £900 milhões entre 2009 e 2018, além de considerar comprovadas diversas acusações relacionadas à apresentação de informações financeiras e à cooperação com a investigação. O Manchester City rejeitou as conclusões e informou que pretende recorrer.
Ainda não existe uma punição definitiva. A Premier League poderá defender diferentes medidas, enquanto a comissão independente deverá estabelecer eventuais sanções após a conclusão do processo de recurso. Entre as possibilidades estão dedução de pontos, restrições no mercado de transferências e até uma possível expulsão da competição. No entanto, nenhuma dessas medidas pode ser apresentada como decisão tomada neste momento. O caso ainda depende das etapas previstas no procedimento, e seus desdobramentos poderão determinar o impacto esportivo sobre o Manchester City nas próximas temporadas.
Assim, o Manchester City chega a uma etapa inédita: depois de anos utilizando investimentos gigantescos para sustentar um ciclo de conquistas, precisa agora lidar com as consequências esportivas e institucionais de um julgamento que coloca sob pressão parte da construção financeira de sua trajetória. A era Guardiola deixou uma marca incontestável nos gramados, mas setembro de 2026 acrescentou um capítulo jurídico que poderá influenciar a maneira como todo esse período será lembrado.




