Futebol Brasileirão

Flamengo e seus lesionados: como o clube transformou a Data Fifa em ‘operação de sobrevivência’ antes da reta final da temporada

A Data Fifa chegou ao Flamengo em um momento que vai muito além da simples interrupção do calendário. Com três jogadores no departamento médico e uma sequência de partidas decisivas esperando pelo elenco em outubro, o período sem jogos se transformou em uma espécie de operação de manutenção. O objetivo não é apenas recuperar quem está lesionado, mas também devolver ao restante do grupo as condições físicas e mentais necessárias para suportar a parte mais pesada da temporada.

O Flamengo aproveitou a pausa para combinar descanso, acompanhamento médico e trabalho específico de recuperação. Em duas semanas, serão seis dias de folga e oito sessões de treinamento, uma distribuição que mostra como o clube tenta equilibrar duas necessidades que normalmente entram em conflito neste estágio do ano: preparar o time para competir e, ao mesmo tempo, evitar que a carga acumulada produza novas baixas.

A preocupação faz sentido diante do calendário que espera o Rubro-Negro. Depois do retorno aos trabalhos no Ninho do Urubu, o time terá pela frente Santos, Fluminense, Estudiantes, Bahia, novamente Estudiantes, Atlético-MG e Vasco. São sete compromissos em pouco mais de três semanas, incluindo dois jogos de semifinal da Libertadores e três clássicos ou partidas de peso pelo Campeonato Brasileiro.

Nesse cenário, cada jogador recuperado passa a ter um peso diferente. E cada nova lesão pode alterar significativamente as possibilidades de Leonardo Jardim.

O departamento médico virou parte importante do planejamento

O caso de Plata é o exemplo mais próximo de uma recuperação bem-sucedida. O equatoriano sofreu uma lesão muscular durante o período com a seleção, foi cortado da convocação e passou os últimos dias sob cuidados do Flamengo. Sem dores, voltou a treinar com o grupo nesta quarta-feira e agora pode ser opção para o duelo contra o Santos, em 8 de outubro.

Mais do que simplesmente recuperar um jogador, o retorno de Plata representa a possibilidade de Jardim voltar a contar com uma peça ofensiva justamente quando a quantidade de partidas começará a aumentar.

A situação de Evertton Araújo exige mais paciência. O volante sofreu uma lesão grau 3 no músculo adutor da coxa esquerda e já iniciou os trabalhos no campo, mas ainda está em uma etapa intermediária do processo. O objetivo agora é recuperar força e, principalmente, confiança no movimento antes de avançar para atividades mais próximas da rotina do elenco.

A previsão de retorno é para novembro, mas o processo não será acelerado apenas pela necessidade do time. A resposta do jogador ao tratamento determinará quando ele poderá aumentar a carga.

Ayrton Lucas está um pouco mais adiantado. O lateral sofreu uma lesão muscular grau 2 na região posterior da coxa direita, está sem dores e deve começar os trabalhos no gramado em breve. A previsão inicial é de retorno ainda em outubro, mas, assim como no caso de Evertton, a data depende da evolução apresentada nas avaliações.

São situações diferentes, mas que ilustram uma mesma realidade: o Flamengo não pode tratar todos os lesionados da mesma maneira. Cada atleta está em uma fase distinta e precisa de uma progressão individual para que o retorno não seja seguido por uma nova lesão.

Arrascaeta é o caso que muda a dimensão do problema

A situação mais delicada é a de Arrascaeta. O uruguaio sofreu uma lesão no punho esquerdo durante um amistoso pela seleção e retornou ao Rio de Janeiro na quarta-feira para realizar a cirurgia. O procedimento consiste em reposicionar o osso e fixá-lo com uma placa e parafusos, seguido de um processo de acompanhamento diário da cicatrização.

A previsão inicial do Flamengo é de seis a oito semanas de recuperação. Existe a possibilidade de redução desse período caso a resposta seja muito positiva, mas o clube não trabalha apenas com a expectativa de acelerar o retorno. A evolução das dores, das radiografias e da cicatrização será determinante.

O aspecto interessante é que a lesão, apesar de exigir cirurgia, não impede necessariamente que Arrascaeta mantenha parte de seu condicionamento físico durante a recuperação. O local permite algum grau de movimentação, o que abre a possibilidade de trabalhos específicos com os preparadores físicos à medida que o processo avance.

Por outro lado, não existe uma solução simples para colocá-lo em campo antes da hora. Uma proteção convencional não é viável porque a fratura exige uma imobilização que vai da região da axila até o punho, algo incompatível com os movimentos necessários para um jogador de futebol.

Isso faz com que Arrascaeta seja menos uma questão de curto prazo e mais um problema de gestão. O Flamengo precisa aceitar que terá de atravessar parte da reta final sem uma de suas principais referências técnicas, enquanto tenta preparar o jogador para retornar nas melhores condições possíveis.

A Data Fifa também serviu para descansar quem ainda está de pé

O Flamengo não precisava apenas recuperar os lesionados. Precisava também reduzir a fadiga daqueles que ainda estavam disponíveis. O calendário do futebol brasileiro cria um problema particular para os clubes que avançam simultaneamente no Campeonato Brasileiro e na Libertadores. Quanto mais longe uma equipe chega nas competições, menor fica o espaço para recuperação entre uma partida e outra.

Por isso, quatro dias consecutivos de folga têm um significado que vai além do descanso físico. O desgaste acumulado ao longo de uma temporada também é mental. Viagens, treinamentos, jogos decisivos, concentração e pressão competitiva formam uma carga que não desaparece simplesmente porque o atleta não está machucado.

A estratégia do Flamengo é utilizar a Data Fifa para diminuir essa carga antes que o calendário volte a acelerar. Quando os jogadores retornaram ao Ninho do Urubu, a preparação não precisava começar do zero. O elenco já vinha de uma temporada inteira de trabalho. A questão era encontrar o ponto adequado entre recuperação e preparação.

É uma diferença importante: não se trata de preparar o Flamengo para a temporada, mas de preparar o Flamengo para sobreviver ao fim dela.

O problema é que a pausa termina justamente antes de uma sequência que pode definir boa parte da temporada. O primeiro compromisso será contra o Santos, em 8 de outubro, na Vila Belmiro. Três dias depois, o Flamengo terá o clássico contra o Fluminense, no Maracanã.

Depois vem a Libertadores. O Estudiantes será o adversário na semifinal, com o primeiro jogo marcado para 15 de outubro. Em seguida, o Flamengo encara o Bahia fora de casa, no dia 18, antes de receber novamente o clube argentino no Rio de Janeiro, em 22 de outubro, pelo segundo confronto da semifinal.

E ainda haverá mais dois clássicos nacionais no fim do mês: Atlético-MG, no dia 26, e Vasco, no dia 29. É uma sequência que praticamente transforma a gestão do elenco em uma competição paralela. Não será suficiente ter um time titular forte. O Flamengo precisará encontrar maneiras de distribuir minutos, preservar jogadores em determinadas partidas e utilizar diferentes peças sem perder competitividade.

Plata pode voltar antes da sequência mais pesada. Ayrton Lucas também pode reaparecer durante o mês. Evertton trabalha com uma previsão mais distante. Arrascaeta terá de atravessar um processo cirúrgico e de recuperação mais longo.

O elenco, portanto, não estará simplesmente completo ou desfalcado. Ele será constantemente remodelado conforme os jogadores entrarem e saírem do departamento médico.

O verdadeiro objetivo é chegar inteiro à decisão

A Data Fifa ofereceu ao Flamengo algo que o calendário normalmente não permite: tempo. Tempo para os médicos tratarem. Tempo para os jogadores descansarem. Tempo para os preparadores físicos controlarem cargas. Tempo para Leonardo Jardim reorganizar o elenco.

Mas esse tempo também tem um limite. A partir de outubro, o calendário volta a exigir respostas praticamente a cada três dias. O Flamengo terá de transformar o descanso obtido durante a pausa em capacidade competitiva quando a bola voltar a rolar.

É por isso que a gestão física pode acabar sendo tão importante quanto a preparação tática. Em uma reta final com Libertadores e Campeonato Brasileiro simultaneamente, não necessariamente estará em vantagem quem tiver apenas os melhores onze jogadores. A disponibilidade do elenco pode ser tão determinante quanto sua qualidade.

O Flamengo está usando a Data Fifa, portanto, para tentar controlar aquilo que ainda pode controlar. Não consegue impedir todas as lesões, não consegue reduzir o número de jogos e não consegue escolher a intensidade do calendário. Pode, porém, administrar melhor o descanso, acelerar recuperações quando houver segurança e evitar que o desgaste dos jogadores disponíveis se transforme em novas baixas.

A operação começou durante a pausa. Mas sua verdadeira importância será medida quando outubro chegar. Porque, para o Flamengo, a questão agora não é simplesmente voltar a jogar.

É chegar à reta final com jogadores suficientes, fisicamente preparados e capazes de suportar uma sequência que pode colocar a temporada inteira em jogo.

(Foto: Jung Yeon-Je/AFP)