Poucos jogadores conseguem olhar para o início da própria carreira e reconhecer um momento em que estiveram perto de desistir completamente. Sebastian Berhalter consegue. Aos 25 anos, o meio-campista que se tornou uma das principais peças da seleção dos Estados Unidos já passou por esse ponto de ruptura, e talvez seja justamente por isso que sua ascensão tenha sido tão diferente da trajetória habitual das grandes promessas americanas.
Berhalter não chegou ao topo como um adolescente prodígio. Não foi imediatamente transformado em titular de uma equipe da MLS, tampouco atravessou rapidamente as categorias de base até a seleção principal. Seu caminho foi marcado por empréstimos, mudanças de posição, períodos de pouca utilização e, principalmente, pela necessidade de descobrir onde poderia ser realmente útil dentro de campo.
Hoje, a situação é completamente diferente. O jogador que certa vez admitiu ter pensado que era o pior atleta em campo agora é uma peça importante da seleção dos Estados Unidos, disputou todos os jogos da equipe na Copa do Mundo de 2026 e ganhou responsabilidades como volante e cobrador de bolas paradas. No início da atual janela internacional, marcou dois gols e deu duas assistências nas vitórias sobre Chile e Peru.
Mauricio Pochettino já não o enxerga como uma promessa. O treinador argentino descreveu Berhalter como um jogador capaz de atuar pela esquerda, pela direita, como meio-campista, volante, box-to-box ou até como camisa 10.
Essa versatilidade talvez seja a principal explicação para a transformação. Berhalter não se tornou importante porque finalmente encontrou uma única posição na qual pudesse se especializar. Ele se tornou importante porque aprendeu a desempenhar diferentes funções e, sobretudo, porque descobriu como transformar suas características em valor para uma equipe.
O sobrenome sempre veio antes dele
Existe uma particularidade impossível de ignorar na história de Sebastian Berhalter: seu sobrenome.
Filho de Gregg Berhalter, ex-jogador e antigo treinador da seleção dos Estados Unidos, Sebastian cresceu dentro de um ambiente no qual o futebol e a própria seleção nacional estavam permanentemente presentes. Ele entrou na academia do Columbus Crew aos 12 anos, justamente quando seu pai comandava o clube.
Isso significava que sua carreira seria observada de maneira diferente. Berhalter chegou às categorias de base do Crew em 2013 e passou por diferentes equipes de formação, acumulando 103 partidas e 11 gols. Entre seus companheiros estava Aidan Morris, que anos depois também se tornaria jogador da seleção americana e atualmente divide com ele o vestiário no Middlesbrough.
O talento existia, mas a trajetória não indicava necessariamente que Berhalter seria uma futura estrela. Em 2019, depois de deixar a academia do Columbus, ele foi para a Universidade da Carolina do Norte. Disputou apenas 16 partidas antes de retornar ao futebol profissional, assinando como jogador formado em casa com o próprio Crew em janeiro de 2020.
A estreia profissional aconteceu em circunstâncias pouco convencionais. A pandemia interrompeu o calendário da MLS, e Berhalter só conseguiu entrar em campo pela primeira vez meses depois, no torneio MLS is Back, contra o FC Cincinnati.
Ele terminou aquela temporada como campeão da MLS Cup, mas participou de apenas nove partidas. O título poderia parecer o início de uma ascensão natural. Não foi.
A temporada seguinte mostrou o tamanho da distância que ainda existia entre Berhalter e o nível que ele precisava alcançar.
Em 2021, o meio-campista foi para o Austin FC, clube que estava iniciando sua história na MLS. Aos 19 anos, deixou o ambiente conhecido do Columbus e precisou se adaptar a uma nova cidade, um novo clube e uma realidade profissional mais exigente. O resultado foi frustrante.
Berhalter disputou 18 partidas e acumulou 651 minutos, registrando apenas uma assistência. Mais importante do que os números, porém, foi a maneira como ele passou a enxergar a própria carreira.
O jogador contou posteriormente que tinha dificuldades para estabelecer uma rotina e que, pela primeira vez, olhava ao redor e sentia que poderia ser o pior jogador em campo.
A constatação foi tão pesada que ele chegou a pensar em abandonar o futebol. É justamente esse ponto que torna sua trajetória tão interessante. A diferença entre o Berhalter de 2021 e o jogador que hoje aparece como uma das referências da seleção americana não foi criada por uma transferência milionária ou por uma explosão repentina de talento.
Foi construída depois de uma temporada em que ele acreditou ter fracassado. E foi nesse momento que apareceu Vancouver.
Vancouver desenvolveu Berhalter
O Vancouver Whitecaps pagou apenas US$ 50 mil em General Allocation Money para adquirir os direitos de Berhalter do Austin FC.
O valor ajuda a explicar como ele era percebido naquele momento. Não se tratava de uma contratação de impacto. O clube canadense estava apostando em um jogador jovem que precisava reconstruir a própria carreira.
O primeiro ano também não foi espetacular. Berhalter disputou 18 partidas em 2022, alternando entre a equipe principal e o sistema de desenvolvimento do clube. Foram 1.024 minutos, ainda sem uma função completamente consolidada.
A diferença estava no processo. Vinni Sartini, treinador do Whitecaps, passou a trabalhar gradualmente com Berhalter, exigindo mais de sua preparação física, força e intensidade. O meio-campista começou a entender que não bastava possuir energia ou disposição para pressionar.
Era necessário transformar essas características em uma função tática. Em 2023, os primeiros sinais apareceram: dois gols, duas assistências e 28 partidas. Mais importante, Berhalter começou a participar de maneira mais consistente das partidas e conquistou um título da Canadian Championship.
Mas foi em 2024 que a transformação realmente começou. Sartini deixou de tratá-lo como um jogador que poderia atuar em diferentes setores e passou a utilizá-lo principalmente no meio-campo defensivo. Ao lado de Andrés Cubas, Berhalter encontrou uma posição que permitia explorar melhor sua intensidade, sua capacidade de pressionar, sua leitura defensiva e sua qualidade nas bolas paradas.
Foram 31 partidas, 18 como titular, dois gols e cinco assistências. Aquele já não era o mesmo jogador que havia chegado de Austin.
A mudança de posição revelou o jogador que estava escondido
A história de Berhalter mostra como uma carreira pode mudar quando um jogador encontra não apenas uma posição, mas uma função que conversa com suas características.
Durante parte da formação, ele havia sido utilizado em posições mais abertas. Em Vancouver, porém, começou a atuar mais centralizado e recuado.
A mudança teve consequências. De frente para o jogo, Berhalter passou a ter mais participação na construção. Sua intensidade ganhou utilidade defensiva. A capacidade de conduzir a bola passou a aparecer em zonas mais importantes. E sua qualidade nas bolas paradas começou a se transformar em uma arma ofensiva.
Em vez de precisar decidir uma jogada individualmente, ele passou a participar da construção das jogadas.
Isso também ajudou a explicar sua evolução estatística. Em 2025, Berhalter se tornou um dos principais jogadores do Whitecaps. A lesão de Ryan Gauld aumentou ainda mais sua responsabilidade, e o americano passou a fornecer energia, liderança e presença ofensiva para uma equipe que chegou à final da Concacaf Champions Cup.
Na competição, marcou três gols e deu duas assistências em oito partidas. Na MLS, o salto foi ainda maior: quatro gols e 12 assistências em 29 jogos, com 2.296 minutos, até então, o maior volume de participação de sua carreira.
Mas havia algo ainda mais importante acontecendo. Berhalter começava a ser reconhecido como um jogador capaz de melhorar os outros ao seu redor.
Foi nesse contexto que Thomas Müller apareceu em sua trajetória. A chegada do alemão ao Vancouver Whitecaps poderia ser tratada apenas como uma contratação de grande impacto para a MLS. Para Berhalter, porém, ela significou outra coisa.
Os dois rapidamente desenvolveram uma relação próxima. Jogavam golfe, assistiam a partidas de hóquei e, principalmente, conversavam sobre futebol.
Müller passou a atuar quase como um mentor. O alemão analisava vídeos com Berhalter, discutia decisões tomadas durante as partidas e o incentivava a pensar sobre maneiras de melhorar seu jogo. Também passou a mencionar publicamente o potencial do americano.
Para um jogador que havia pensado em abandonar o futebol alguns anos antes, receber esse tipo de orientação de um campeão mundial e ídolo do Bayern de Munique representava uma oportunidade enorme.
Berhalter não escondeu o impacto. A grande diferença, porém, é que Müller não criou as características que fizeram o americano chegar à seleção. Ele ajudou Berhalter a reconhecê-las.
Da MLS para a seleção e depois para a Europa
A temporada de 2025 finalmente levou Berhalter à seleção dos Estados Unidos. Ele estreou contra a Suíça e participou da campanha americana na Gold Cup, dando duas assistências. Depois, em novembro, marcou um gol e deu uma assistência na goleada por 5 a 1 sobre o Uruguai.
Naquele momento, o sobrenome já não era suficiente para explicar sua presença. Berhalter tinha construído uma carreira própria.
A Copa do Mundo de 2026 consolidou essa transformação. Ele participou de todos os jogos dos Estados Unidos no torneio e marcou seu primeiro gol em Mundiais contra a Turquia.
Ao mesmo tempo, sua evolução no futebol de clubes abriu uma nova porta. O Middlesbrough pagou US$ 2 milhões para tirá-lo de Vancouver, e Berhalter chegou ao futebol inglês ao lado de antigos companheiros do Columbus, como Aidan Morris e Max Arfsten.
O início na Inglaterra também reforçou a impressão de que a ascensão não foi circunstancial: nos primeiros dez jogos pelo clube, marcou dois gols e deu duas assistências.
O jogador que não conseguia encontrar espaço na MLS agora estava atuando no Championship, depois de disputar uma Copa do Mundo pela seleção de seu país.
O verdadeiro diferencial de Berhalter é ter aprendido a ser útil
A ascensão de Sebastian Berhalter não é exatamente uma história sobre talento escondido. Ele sempre teve qualidades. O que mudou foi a capacidade de utilizá-las.
A intensidade que parecia apenas uma característica física virou ferramenta de pressão. A capacidade de ocupar diferentes espaços transformou-se em versatilidade tática. A qualidade na bola parada ganhou importância. A experiência de jogar em diferentes funções permitiu que ele se tornasse mais adaptável.
E talvez essa seja a razão pela qual Pochettino o considere tão valioso. Em uma seleção que precisa encontrar diferentes soluções durante uma partida, um jogador capaz de atuar como volante, box-to-box, meia ou até em posições mais abertas oferece algo que não aparece necessariamente em uma estatística individual.
Ele oferece opções. A possibilidade de Berhalter assumir um papel ainda maior na seleção americana, inclusive na discussão sobre a próxima capitania após a aposentadoria internacional de Tim Ream, é consequência desse processo.
Não significa que ele tenha chegado ao ponto final da carreira. Pelo contrário. Aos 25 anos, Berhalter está apenas entrando no período em que muitos meio-campistas alcançam sua maior maturidade.
A diferença é que ele chega a essa fase depois de já ter enfrentado a possibilidade de não chegar. Há cinco anos, Sebastian Berhalter olhava para o campo e pensava que talvez fosse o pior jogador em campo.
Hoje, é um dos jogadores em quem os Estados Unidos mais confiam. Sua história não é a de uma promessa que cumpriu aquilo que todos esperavam.
É a de um jogador que precisou fracassar, mudar de posição, reconstruir a confiança e descobrir uma nova maneira de jogar antes de finalmente encontrar seu espaço.
(Foto: Getty Images)



