O Atlético-MG retomou o Campeonato Brasileiro com uma vitória que parecia encaminhada no primeiro tempo, mas terminou sendo muito mais complicada do que o placar de 1 a 0 sobre o Red Bull Bragantino poderia indicar. Na Arena MRV, o Galo construiu a vantagem, controlou boa parte dos primeiros 45 minutos e encontrou em Bernard o jogador responsável pelo gol. Depois do intervalo, porém, a história mudou completamente. O Bragantino cresceu, passou a ocupar o campo de ataque e transformou a partida em uma sequência de ataques que poderia ter resultado no empate.
Se o Atlético terminou a noite com os três pontos, muito disso aconteceu por causa de Gabriel Delfim.
O goleiro, que entrou em campo para ocupar o lugar de Everson, novamente mostrou que a distância entre titular e reserva pode ser muito menor do que o torcedor imaginava. Em uma partida na qual o sistema defensivo perdeu força no segundo tempo e o meio-campo deixou de conseguir controlar o ritmo, Delfim apareceu justamente quando o time mais precisava de alguém capaz de sustentar a vantagem.
A atuação não serviu apenas para garantir uma vitória importante na retomada do Brasileirão. Ela também muda a maneira como o Atlético pode enxergar uma posição que, durante muito tempo, esteve diretamente associada a Everson. O goleiro titular continua sendo uma referência e um dos jogadores mais importantes do elenco, mas a presença de Delfim começa a transformar uma ausência que antes poderia gerar preocupação em uma situação administrável.
Um Atlético que construiu a vantagem antes de perder o controle
O primeiro tempo apresentou um Atlético bastante diferente daquele que terminaria a partida pressionado. Depois de mais de dez dias sem jogar por causa da Data Fifa, a equipe de Domínguez começou com intensidade e encontrou maneiras de acelerar as jogadas quando recuperava a posse.
A estratégia passava principalmente pela velocidade e pela capacidade de Cuello no um contra um pelo corredor direito. O gol, entretanto, nasceu de uma característica diferente, mas igualmente importante: a pressão sem a bola.
Bernard aproveitou um erro da defesa do Bragantino, pressionou o adversário, recuperou a posse e avançou para finalizar. O lance teve um componente individual, mas também mostrou uma característica que fez diferença para o Atlético durante os primeiros 45 minutos: a equipe estava suficientemente ligada para aproveitar um erro que o adversário ofereceu.
Depois de abrir o placar, o Galo continuou encontrando espaços para atacar. Faltou, porém, transformar algumas dessas oportunidades em uma vantagem maior. O time chegava perto da área, mas cometia erros na última decisão, o que manteve o Bragantino vivo na partida.
Naquele momento, parecia apenas uma questão de tempo até que o Atlético pudesse ampliar ou, no mínimo, administrar a vantagem sem grandes dificuldades. O segundo tempo mostrou que não seria assim.
Quando o Bragantino cresceu, Delfim precisou aparecer
A mudança de comportamento foi evidente depois do intervalo. O Bragantino voltou mais agressivo, passou a ocupar com maior frequência o campo ofensivo e começou a encontrar espaços que não estavam disponíveis na primeira etapa.
O Atlético deixou de controlar a partida e passou a reagir aos movimentos do adversário. A posse de bola já não servia para ditar o ritmo, as transições ofensivas perderam força e a equipe começou a depender cada vez mais da capacidade de sua defesa para proteger o resultado.
Foi nesse momento que Delfim deixou de ser apenas o substituto de Everson. Em uma cobrança de bola parada, Sasha apareceu para cabecear e obrigou o goleiro a fazer uma grande defesa. O lance não foi isolado. O Bragantino continuou chegando e encontrou diferentes maneiras de finalizar, seja de dentro da área, de fora ou pelo alto.
A equipe paulista também foi especialmente perigosa nas bolas paradas, setor em que conseguiu colocar a defesa atleticana sob pressão constante.
O cenário poderia ter sido completamente diferente caso Delfim não estivesse preparado. O goleiro não apenas defendeu as finalizações que chegaram até ele. Passou segurança em uma etapa na qual o restante da equipe demonstrava dificuldades para recuperar o controle. Quando o Atlético precisava de alguém para interromper o crescimento do adversário, encontrou seu goleiro.
Isso é particularmente relevante porque goleiros reservas normalmente entram em um jogo carregando uma dificuldade que não aparece na escalação: a necessidade de transmitir confiança imediatamente, mesmo tendo poucos minutos acumulados ao longo da temporada.
Delfim parece estar conseguindo fazer isso.
A ausência de Everson deixou de significar um problema
Durante muito tempo, a ausência de Everson poderia ser interpretada como uma perda significativa demais para o Atlético. Não apenas pela qualidade do titular, mas pela importância que ele adquiriu dentro da estrutura da equipe.
Everson é um goleiro que participa da construção, assume responsabilidade em momentos de pressão e já se transformou em uma das principais referências do elenco. Quando um jogador com esse peso fica fora, o substituto normalmente entra em campo sob uma comparação inevitável.
Delfim está começando a escapar dela. A questão não é dizer que o reserva se tornou melhor ou que a posição de Everson está ameaçada. A atuação contra o Bragantino não sustenta uma conclusão desse tamanho. O que ela demonstra é algo talvez mais importante para um elenco que pretende competir em várias frentes: o Atlético possui uma alternativa confiável para momentos em que não puder contar com seu principal goleiro.
Essa diferença pode ser decisiva ao longo de uma temporada. Lesões, suspensões, convocações e desgaste fazem parte da rotina de qualquer equipe. Ter um reserva capaz de entrar e atuar em jogos de alta pressão significa que a ausência de um titular não necessariamente obriga o treinador a modificar todo o funcionamento da equipe.
No caso de Delfim, existe ainda um componente recente que fortalece essa confiança. Ele já havia sido decisivo contra o Santos pela Copa Sul-Americana, quando assumiu protagonismo em uma partida de mata-mata. Contra o Bragantino, voltou a fazer isso em uma competição de pontos corridos.
São contextos diferentes, mas existe uma característica em comum: Delfim está começando a aparecer quando o Atlético mais precisa dele.
O goleiro não corrige tudo, mas pode salvar uma partida
É importante não transformar a atuação de Delfim em uma forma de esconder os problemas apresentados pelo Atlético no segundo tempo.
O goleiro foi decisivo, mas o fato de ter sido tão exigido também revela uma queda coletiva de rendimento. O Bragantino conseguiu se impor durante praticamente toda a etapa final, enquanto o Atlético encontrou dificuldades para competir pela posse e impedir que o adversário chegasse perto de sua área.
Domínguez percebeu o problema e tentou mudar o cenário com as entradas de Victor Hugo e Cassierra, mas as alterações não foram suficientes para devolver ao time o controle que havia existido no primeiro tempo.
Isso é um alerta importante para o Atlético. Uma equipe que pretende disputar objetivos maiores não pode depender constantemente de seu goleiro para proteger vantagens mínimas. Em algum momento, um adversário mais eficiente pode transformar volume de jogo em gols, e nem mesmo uma grande atuação individual será suficiente para evitar a perda de pontos.
Mas também existe um lado positivo nessa história. Grandes equipes precisam de goleiros capazes de ganhar partidas que o time não conseguiu controlar. E, nesse sentido, Delfim entregou exatamente o que se espera de alguém nessa posição.
O Atlético não foi perfeito. Não dominou os 90 minutos. Não conseguiu manter o mesmo ritmo depois do intervalo e terminou sendo pressionado. Ainda assim, encontrou no banco uma resposta que talvez não tivesse tanta clareza alguns meses atrás.
(Foto: Pedro Souza/Atlético-MG)



