Djamal Ziane conhece bem a sensação de ser campeão. O problema é que ele também conhece a sensação de continuar exatamente no mesmo lugar depois de conquistar o título. Aos 34 anos, o capitão do Lokomotive Leipzig já levantou três vezes o troféu da Regionalliga Nordost, a quarta divisão do futebol alemão. Neste verão europeu, voltou a repetir a cena pela segunda temporada consecutiva. A taça estava em suas mãos, os torcedores comemoravam e o trabalho de uma temporada inteira havia sido recompensado.
Mas havia uma diferença entre vencer e avançar. Enquanto outros campeões da quarta divisão alemã garantiriam automaticamente um lugar na 3. Liga, o Lokomotive precisaria disputar uma repescagem contra o campeão da Regionalliga Bayern. O adversário foi o Würzburger Kickers. Ziane chegou a marcar, mas o time de Leipzig, prejudicado por uma série de lesões, perdeu por 3 a 1 no placar agregado.
Mais uma vez, o título terminava onde deveria começar uma nova etapa para Ziane. Nas arquibancadas, cerca de 2 mil torcedores do Lokomotive que viajaram para acompanhar a decisão resumiram a frustração em uma faixa: “Euer System ist krank”, ou “seu sistema está doente”. Não era apenas uma reclamação contra uma derrota. Era a manifestação de um clube que havia feito exatamente aquilo que o futebol deveria exigir de um campeão: terminar em primeiro. Ainda assim, precisava vencer outra vez para ter o direito de subir.
Para Ziane, a frustração é difícil de explicar porque a promoção para a 3. Liga representa justamente o ponto mais alto que um clube como o Lokomotive pode alcançar dentro de sua realidade atual. E, pela terceira vez em sua carreira, o atacante ficou a um passo de chegar lá.
Um campeão que precisa vencer duas vezes
O problema enfrentado pelo Lokomotive não nasceu de uma temporada específica. Ele está na própria estrutura das divisões inferiores do futebol alemão.
Abaixo da Bundesliga, da 2. Bundesliga e da 3. Liga, a quarta divisão é formada por cinco competições regionais: Norte, Oeste, Sudoeste, Nordeste e Baviera. Cada uma possui seu próprio campeão. O problema aparece quando chega a hora de decidir quem sobe.
A 3. Liga possui apenas quatro vagas de acesso, enquanto existem cinco campeões na divisão imediatamente abaixo. Alguém, portanto, necessariamente precisa ficar de fora.
O modelo atual estabelece que os campeões das regiões Oeste e Sudoeste garantem promoção direta. Uma terceira vaga automática é alternada entre Norte, Nordeste e Baviera em um ciclo de três temporadas. A última vaga é decidida por um playoff entre os dois campeões restantes.
Na prática, isso significa que existe uma possibilidade bastante peculiar: uma equipe pode vencer sua liga, terminar a temporada inteira acima de todos os adversários de sua região e, ainda assim, não subir.
Foi exatamente o que aconteceu com Ziane. E não apenas uma vez. Em 2020, o Lokomotive conquistou o título e não conseguiu a promoção. Em 2025, repetiu o feito e voltou a ficar na quarta divisão. Em 2026, foi campeão novamente. O resultado foi o mesmo. Três títulos. Nenhuma promoção.
A situação também atingiu outros clubes históricos do futebol do leste alemão. O Dynamo Berlin, vencedor de diversos campeonatos da antiga Alemanha Oriental, perdeu a disputa pelo acesso em 2022. No ano seguinte, foi a vez do Energie Cottbus ficar pelo caminho.
O problema ganhou, assim, uma dimensão maior do que a história particular do Lokomotive. A Regionalliga Nordost, que reúne clubes do território da antiga Alemanha Oriental, passou a enxergar a estrutura de promoção como parte de um problema mais amplo.
A questão esportiva se mistura com a história da Alemanha
O futebol alemão carrega uma divisão geográfica que não desapareceu completamente depois da reunificação do país. As diferenças econômicas entre o antigo leste e o oeste continuam refletidas na estrutura dos clubes.
As regiões ocidentais possuem mais habitantes e, consequentemente, mais equipes de futebol masculino registradas. Esse é o principal argumento utilizado para justificar a distribuição atual das vagas de promoção. Não se trata, portanto, de uma regra criada simplesmente para beneficiar determinados clubes, mas de uma consequência da própria organização territorial do futebol alemão.
Para os clubes do leste, entretanto, o argumento não resolve o problema. O Lokomotive Leipzig possui uma das torcidas mais numerosas da quarta divisão. Na última temporada, a média de público da Regionalliga Nordost ficou em torno de 3.125 espectadores, aproximadamente o dobro das demais competições regionais. O próprio Lokomotive levou, em média, 6.352 torcedores ao estádio, enquanto o clássico contra o Chemie Leipzig ultrapassou 11 mil pessoas.
O clube não está simplesmente tentando convencer as autoridades de que merece subir por sua tradição. Seus dirigentes também enxergam na capacidade de mobilização dos torcedores um argumento para mostrar que existe potencial econômico na região.
Toni Wachsmuth, diretor-executivo do Lokomotive, conhece a dificuldade de competir financeiramente com clubes do oeste. Aos 39 anos, ele trabalha em um ambiente no qual tradição e torcida não necessariamente se transformam em receitas suficientes para acompanhar adversários de regiões economicamente mais fortes. O problema é que o futebol não distribui pontos por história. Nem por torcida. Nem por tradição.
E é justamente essa contradição que torna a discussão tão complicada. O sistema precisa considerar a estrutura econômica das diferentes regiões, mas também precisa encontrar uma maneira de garantir que o campeão tenha um caminho esportivamente coerente para subir.
Quando a revolta deixou de ser apenas de Leipzig
A insatisfação começou a ganhar uma forma mais organizada em 2025, quando clubes do leste alemão lançaram uma campanha com um lema simples: “Meister müssen aufsteigen!”, ou “campeões precisam subir”.
A proposta ficou conhecida como modelo da bússola. Em vez das atuais cinco Regionalligen, seriam criadas quatro competições. As fronteiras entre elas poderiam mudar de uma temporada para outra, utilizando um algoritmo para considerar fatores como distância das viagens, distribuição geográfica e a existência de clássicos regionais.
A ideia possui um elemento importante: a Regionalliga Nordost estaria disposta a abandonar a ligação rígida com o território da antiga Alemanha Oriental. Para seus defensores, a questão deixou de ser uma disputa entre leste e oeste. O objetivo passou a ser criar um sistema em que a distribuição das vagas de acesso corresponda de maneira mais direta ao desempenho esportivo.
Tommy Haeder, dirigente do Chemnitzer FC e uma das principais figuras da campanha, tenta justamente afastar a discussão da nostalgia da antiga Alemanha Oriental. Para ele, uma nova geração de dirigentes pode olhar para o problema sem carregar as mesmas divisões históricas.
O movimento começou a ganhar apoio em diferentes partes do país. Mais de 80 clubes aderiram à proposta, incluindo o Union Berlin, que ainda disputava a quarta divisão nos anos 2000, e o Borussia Dortmund.
Até Marco Rose, treinador do Bournemouth e ex-jogador e treinador do próprio Lokomotive Leipzig, manifestou apoio à ideia. Para quem conhece a realidade desses clubes, existe uma questão que vai além da simples promoção. As equipes das divisões inferiores precisam acreditar que o investimento realizado durante uma temporada pode produzir uma recompensa esportiva concreta.
Esse ponto também envolve a formação de jogadores. Clubes menores do leste têm dificuldades para competir com categorias de base de equipes estabelecidas em cidades maiores e regiões mais ricas. Se conseguem formar um jovem talento, existe o risco de perdê-lo muito cedo para clubes como Dortmund, Stuttgart ou Hamburgo.
Para os defensores do modelo da bússola, fortalecer os clubes regionais significaria também criar condições melhores para que eles continuem desenvolvendo jogadores dentro de suas próprias comunidades.
O que parecia ser uma discussão cada vez mais próxima de uma solução, porém, voltou a encontrar resistência. Em junho, os clubes deveriam votar o novo modelo depois de meses de negociações. No entanto, pouco antes da votação, duas mudanças importantes foram introduzidas. As quatro novas ligas passariam a ter 18 clubes, e não 20, enquanto também foi estabelecida a exigência de que o projeto obtivesse maioria em cada uma das cinco regiões.
Mesmo com essas alterações, o modelo da bússola recebeu 50,9% dos votos no total. O Nordeste, região diretamente mais interessada na mudança, registrou 76,3% de apoio. Oeste e Norte também foram favoráveis.
Mas o resultado não foi suficiente. O Sudoeste preferiu uma alternativa que previa o fim da Regionalliga Nordost e a redistribuição de seus clubes. A Baviera, por sua vez, optou por defender novas discussões, sem aceitar abrir mão simplesmente de sua própria competição.
O resultado foi uma votação que não resolveu o problema e aumentou a irritação dos clubes. Para Haeder, foi um desastre. Para outros dirigentes, a mudança proposta apresentava riscos econômicos e esportivos que ainda não estavam suficientemente claros. E foi nesse momento que a discussão saiu das salas de reunião e chegou às arquibancadas.
Na temporada seguinte, protestos passaram a aparecer em diferentes partes do futebol alemão. Na Regionalliga Nordost, os jogadores de praticamente todas as partidas passaram a atrasar o início dos jogos em um minuto como forma de manifestação. No primeiro jogo do Lokomotive após mais um título sem promoção, seus torcedores jogaram centenas de troféus de plástico no gramado.
Se o título não garante acesso, qual é o valor da taça?
Na Baviera, torcedores do Bayern também protestaram durante uma partida da equipe reserva na quarta divisão. Uma coreografia representava dirigentes da federação bávara usando um ímã para puxar a agulha de uma bússola em sua direção. Em seguida, os torcedores utilizaram sinalizadores vermelhos para simbolizar a tentativa de fazer a bússola voltar para o lado das arquibancadas.
A discussão, portanto, já não pertencia apenas aos clubes que disputavam diretamente a promoção. Torcedores de equipes da Bundesliga também passaram a exibir faixas coordenadas durante as partidas, com uma mensagem que resumia a campanha: clubes e torcedores foram traídos, campeões precisam subir e o modelo da bússola precisa ser implementado.
O debate havia se transformado em uma questão nacional.
Para Ziane, talvez a mudança chegue tarde demais
Existe, porém, uma ironia particularmente cruel na história de Djamal Ziane. Depois de três títulos e três frustrações, o atacante continua defendendo o Lokomotive Leipzig. Ele começou sua 13ª temporada pelo clube, mas a possibilidade de finalmente jogar na 3. Liga pode chegar tarde demais para ele.
A Federação Alemã de Futebol anunciou uma assembleia geral extraordinária para dezembro, na qual o assunto voltará à pauta. O presidente do DFB, Bernd Neuendorf, afirmou que a questão precisa ser resolvida e reconheceu que o modelo da bússola foi a proposta mais votada e apresenta uma possibilidade de concentração de desempenho e desenvolvimento de talentos.nMesmo que uma mudança seja aprovada, entretanto, ela só seria implementada a partir da temporada 2028-29.
Ziane teria 36 anos. É por isso que a história deixa de ser apenas uma discussão sobre regulamentos. Para um dirigente, mudar o formato significa reorganizar competições. Para uma federação, significa equilibrar interesses regionais. Para um clube, significa tentar construir uma estrutura capaz de competir. Para um torcedor, significa saber se a taça levantada no fim da temporada realmente abre uma porta.
Para Ziane, significa algo ainda mais simples: ele quer subir com o clube de sua cidade. Depois de três títulos, essa conquista continua sendo a que falta. O capitão já sabe como é levantar a taça. Já sabe como é liderar o Lokomotive até o primeiro lugar. Já sabe como é comemorar uma temporada inteira de trabalho.
O que ele ainda não sabe é como é entrar em campo na terceira divisão pelo clube que representa sua cidade. E talvez seja justamente isso que torne sua história tão difícil de esquecer. Ziane precisou aprender a comemorar aquilo que, no futebol, deveria ser apenas o começo. O Lokomotive Leipzig foi campeão três vezes. Em duas delas, consecutivamente, mas continua sendo um campeão da quarta divisão.
Para um jogador que está chegando ao fim da carreira, a maior conquista não é levantar novamente a taça. É conseguir, antes que seja tarde, dar orgulho para uma cidade que o deu tudo, mas que quer buscar a glória de um acesso.
(Foto: Divulgação/Lok Leipzig)


