Durante algum tempo, Anthony Gordon parecia destinado a ocupar apenas mais um espaço na longa fila de jogadores que a Inglaterra tentou transformar em dono do lado esquerdo do ataque. Marcus Rashford, Phil Foden, Eberechi Eze e Noni Madueke passaram pela posição nos últimos anos, enquanto Gordon precisou esperar sua oportunidade em uma seleção que nunca teve dificuldade para produzir talentos ofensivos, mas encontrou problemas para definir quem realmente deveria jogar.
Aos poucos, porém, a disputa deixou de existir. Gordon chegou à Inglaterra como uma alternativa. Depois virou uma possibilidade. Em seguida, conquistou uma vaga. Agora, começa a ocupar outro patamar dentro da equipe de Thomas Tuchel: o de jogador que, quando está disponível e em boas condições, parece difícil de tirar do time.
A transformação não aconteceu de uma hora para outra. Ela foi construída durante meses e ganhou força justamente nos momentos em que a camisa da Inglaterra costuma pesar mais. O atacante teve participação importante na reta decisiva da Copa do Mundo, manteve o nível depois do torneio e chegou à atual campanha da Nations League com uma sequência de atuações que mudou a maneira como é visto dentro e fora da seleção.
Nos últimos seis jogos pela Inglaterra, Gordon participou diretamente de seis gols, com três gols e três assistências. Desde o início da fase eliminatória da Copa do Mundo, sua média de participação em gols chegou a uma a cada 69 minutos. O número ajuda a explicar a ascensão, mas não conta sozinho a história de um jogador que precisou convencer o futebol inglês de que havia mais em seu jogo do que velocidade e pressão.
A Inglaterra finalmente encontrou o dono do lado esquerdo
O momento mais recente dessa transformação aconteceu diante da República Tcheca. Gordon marcou o primeiro gol da vitória inglesa por 2 a 0 e novamente apareceu como um dos jogadores mais ativos da equipe. Antes disso, já havia marcado na derrota por 3 a 2 para a Espanha, campeã mundial, em Wembley.
A sequência fez com que a discussão sobre sua titularidade deixasse de ser uma questão puramente tática. Harry Kane, capitão e maior artilheiro da história da Inglaterra, foi direto ao explicar o que está acontecendo. Para ele, Gordon está demonstrando que pertence ao mais alto nível e que se tornou um dos principais jogadores da seleção.
É uma mudança significativa na trajetória do atacante. Durante anos, a Inglaterra teve jogadores suficientes para preencher a posição, mas nenhum conseguiu transformar o espaço em propriedade. Gordon começou a fazer isso justamente quando passou a entregar aquilo que uma seleção de alto nível precisa de um jogador de lado: ameaça constante, capacidade de atacar diferentes espaços e participação direta nas jogadas decisivas.
Contra a República Tcheca, foram quatro finalizações, mais do que qualquer outro jogador inglês. Contra a Espanha, também foi o atleta da equipe que mais tentou finalizar.
Não é apenas uma questão de marcar gols. Gordon passou a procurar o gol com frequência. E essa mudança de comportamento é importante porque o atacante parece cada vez menos interessado em simplesmente participar da construção das jogadas. Ele quer terminá-las.
A Copa do Mundo mudou o tamanho da história
A ascensão de Gordon ganhou outro peso a partir da fase eliminatória da Copa do Mundo. Na vitória por 2 a 1 sobre a República Democrática do Congo, pelas oitavas de final, ele deu as duas assistências para os gols de Kane. Depois, diante do México, participou novamente de um momento decisivo ao conquistar o pênalti na dramática vitória inglesa no Estádio Azteca.
A partir dali, começou uma sequência que não parou. Gordon passou a ser um jogador envolvido nas principais ações ofensivas da Inglaterra, e o mais importante é que suas contribuições começaram a aparecer contra adversários de diferentes níveis e em diferentes contextos.
Essa regularidade mudou sua posição dentro do elenco. Uma coisa é ser o jogador que aparece ocasionalmente para resolver um jogo. Outra é começar a produzir constantemente. A Inglaterra encontrou em Gordon uma fonte de criação e profundidade que não depende exclusivamente de uma característica.
Ele pode receber aberto e atacar o lateral pela velocidade. Pode cortar para dentro. Pode atacar a área. Pode cruzar. Pode pressionar a saída adversária. Pode aproveitar espaços criados por Kane.
Essa variedade explica por que sua importância cresceu tanto. Desde o início da fase eliminatória da Copa, Gordon aparece entre os quatro melhores jogadores ingleses em métricas como gols esperados, assistências esperadas, passes para a área, toques na área adversária, chances criadas e finalizações no alvo.
O mais significativo talvez seja outro número: no mesmo período, Gordon participou diretamente de seis gols pela Inglaterra, exatamente o mesmo total de Jude Bellingham. O atacante que durante tanto tempo foi tratado como alternativa passou a produzir no mesmo nível de um dos principais nomes da geração inglesa.
O duelo com Rashford ganhou um novo significado
Existe ainda uma história paralela que ajuda a explicar a dimensão da mudança. Marcus Rashford e Gordon não disputam apenas espaço na seleção inglesa. A trajetória dos dois também se cruzou no futebol espanhol.
Rashford passou uma temporada emprestado ao Barcelona, mas o clube catalão decidiu não tornar o negócio permanente. Gordon, por outro lado, deixou o Newcastle e foi contratado pelo Barcelona por cerca de £69 milhões.
A troca de caminhos criou uma comparação inevitável. Rashford voltou ao Manchester United. Gordon chegou à Catalunha carregando um preço elevado e a necessidade de provar que poderia atuar em um dos clubes mais exigentes do futebol europeu.
No início, havia quem questionasse o investimento. Agora, a discussão é diferente. Gordon começou a temporada na Espanha com cinco assistências em La Liga e passou a ser utilizado em um contexto que exige muito mais do que velocidade. No Barcelona, a necessidade de participar da circulação de bola, interpretar espaços e tomar decisões em ambientes mais congestionados fez com que outras características do jogador ganhassem evidência.
E esse talvez seja o ponto mais importante da evolução. Durante muito tempo, Gordon foi reduzido a duas características: velocidade e intensidade.
Ele próprio reconhece que essa era a percepção dominante na Inglaterra. Segundo o atacante, as pessoas respeitavam sua capacidade de correr e pressionar, mas não necessariamente enxergavam sua inteligência e sua qualidade técnica.
A experiência no Barcelona começou a mudar isso. Em um time que exige capacidade técnica e compreensão do jogo em praticamente todas as ações, as limitações de um jogador aparecem rapidamente. Gordon, entretanto, encontrou maneiras de fazer sua velocidade funcionar dentro de um contexto mais elaborado.
Em vez de deixar de ser rápido, passou a mostrar que a velocidade era apenas uma parte de seu jogo.
Tuchel encontrou uma peça que combina com sua ideia
A evolução também coincide com a chegada de Thomas Tuchel ao comando da Inglaterra. O treinador costuma ser bastante claro sobre as funções de seus jogadores. Não basta simplesmente ser talentoso. Cada atleta precisa entender o que precisa fazer para manter sua posição.
Foi exatamente esse processo que Gordon parece ter vencido. Tuchel não trata o atacante como um titular absoluto por decreto. Pelo contrário. Ao explicar sua evolução, o técnico afirmou que Gordon está “defendendo sua camisa” e “defendendo sua posição”.
A frase é importante porque revela como o treinador enxerga a disputa interna. Gordon não ganhou a posição porque os concorrentes deixaram de ser bons. Ele ganhou porque passou a produzir o suficiente para tornar difícil sua retirada.
Essa é uma diferença enorme. Foden continua sendo um jogador de elite. Rashford possui experiência internacional e capacidade de decidir partidas. Eze e Madueke continuam oferecendo características diferentes. A questão é que Gordon construiu uma sequência de atuações que tornou sua presença no time cada vez mais justificável.
Ele não está apenas ocupando uma vaga. Está criando uma função. Para uma seleção que pretende chegar à Eurocopa de 2028 com ambições de título, isso pode ser decisivo.



