A Red Bull teve a oportunidade de observar George Russell, Lando Norris e Oscar Piastri antes de os três pilotos chegarem à Fórmula 1, mas não conseguiu incorporá-los ao seu programa de desenvolvimento de jovens talentos. A revelação foi feita por Christian Horner, ex-chefe da equipe austríaca, que contou como os três impressionaram os responsáveis pelo simulador da escuderia ainda no início de suas trajetórias. Anos depois, os pilotos se consolidaram na principal categoria do automobilismo mundial por caminhos diferentes, enquanto a Red Bull passou a conviver com a lembrança de uma oportunidade que poderia ter mudado sua história recente.
O episódio chama a atenção porque não se trata de pilotos que surgiram de maneira inesperada ou que só demonstraram seu potencial depois de chegar à Fórmula 1. Segundo Horner, Russell, Norris e Piastri já haviam chamado a atenção de profissionais da própria Red Bull, a ponto de o responsável pelo simulador considerar que os três eram melhores do que alguns jovens que já recebiam apoio da equipe. Mesmo diante desse alerta, nenhum deles foi contratado para integrar o programa de desenvolvimento, conduzido por Helmut Marko, uma das figuras centrais na identificação de talentos da organização.
A história revela uma contradição importante na trajetória de uma equipe reconhecida justamente pela capacidade de descobrir e promover jovens pilotos. A Red Bull construiu parte de sua identidade esportiva ao oferecer oportunidades a talentos como Sebastian Vettel e Max Verstappen, mas deixou escapar três nomes que posteriormente alcançariam posições de destaque na categoria. A declaração de Horner, feita durante participação no podcast High Performance, não esclarece todos os motivos que impediram os acordos, mas evidencia como até os programas mais bem-sucedidos de formação podem falhar na avaliação e no recrutamento de pilotos.
Os sinais de talento já apareciam antes da Fórmula 1
De acordo com Horner, Russell, Norris e Piastri utilizaram o simulador da Red Bull quando ainda buscavam construir suas carreiras no automobilismo. As sessões eram financiadas pelas próprias famílias, que pagavam pelo acesso ao equipamento da equipe. Naquele momento, os três não tinham vínculo oficial com o programa de desenvolvimento da escuderia, mas a oportunidade de trabalhar nas instalações permitiu que suas habilidades fossem observadas por profissionais da organização.
O responsável pelo simulador teria sido o primeiro a insistir na qualidade dos jovens pilotos. Segundo o relato de Horner, ele procurou o então chefe da equipe para afirmar que aqueles talentos estavam superando alguns dos integrantes que já faziam parte da estrutura de formação da Red Bull. A avaliação foi suficientemente relevante para que Horner levasse o assunto a Helmut Marko, responsável por supervisionar o programa de jovens pilotos.
O que torna a história importante é a combinação entre o alerta recebido e o sucesso posterior dos pilotos. Russell, Norris e Piastri não apenas chegaram à Fórmula 1, como conseguiram se estabelecer em equipes competitivas. O retrospecto posterior transforma a lembrança em um exemplo de como decisões tomadas durante a formação de um atleta podem ganhar proporções muito maiores quando observadas anos depois.
A Red Bull, por sua vez, sempre dependeu de um processo seletivo rigoroso para alimentar sua estrutura principal. A equipe encontrou talentos capazes de conquistar títulos mundiais, mas o próprio modelo de desenvolvimento exige escolhas constantes entre diferentes promessas. Nem todos os jovens apoiados conseguem chegar à categoria, e nem todos os pilotos que ficam de fora deixam de alcançar o sucesso. O caso de Russell, Norris e Piastri é especialmente emblemático porque reúne três trajetórias que prosperaram longe do sistema austríaco.
Russell, Norris e Piastri encontraram espaço em equipes rivais
Depois das sessões no simulador da Red Bull, os três pilotos seguiram caminhos distintos até a Fórmula 1. George Russell passou a integrar o programa de jovens pilotos da Mercedes e estreou na categoria em 2019, pela Williams. A passagem por uma equipe que enfrentava dificuldades de desempenho serviu como etapa de desenvolvimento antes de sua promoção para a Mercedes, onde passou a disputar posições mais competitivas e a construir sua reputação entre os principais nomes do grid.
Lando Norris, por sua vez, ingressou no programa de desenvolvimento da McLaren e também estreou na Fórmula 1 em 2019. O britânico encontrou na equipe uma estrutura que lhe permitiu crescer ao longo das temporadas, ganhar experiência e se transformar em uma das referências da categoria. O auge dessa trajetória chegou em 2025, quando conquistou o título mundial após superar Max Verstappen na disputa pelo campeonato, um desfecho que deu ainda mais peso à lembrança de Horner sobre a oportunidade perdida.
Oscar Piastri percorreu uma rota diferente. O australiano recebeu apoio da Renault e da Alpine durante sua formação nas categorias de base antes de se transferir para a McLaren, pela qual estreou na Fórmula 1 em 2023. Sua chegada ao grid reforçou a reputação de um piloto que já havia demonstrado capacidade de vencer em categorias inferiores e que rapidamente passou a competir em alto nível na principal categoria do automobilismo.
A existência de três trajetórias bem-sucedidas não significa que a Red Bull necessariamente teria conquistado mais títulos se tivesse contratado os pilotos. O desempenho de um competidor depende do carro, da equipe técnica, do ambiente de trabalho e das oportunidades recebidas ao longo da carreira. Ainda assim, ter um piloto do calibre de Russell, Norris ou Piastri sob contrato poderia ter ampliado as opções da escuderia em diferentes momentos, especialmente diante das mudanças de formação e das decisões estratégicas que acompanham uma equipe de ponta.
A reação de Horner resume o peso da oportunidade perdida
Ao recordar o episódio, Horner adotou um tom de ironia ao comentar o destino dos três pilotos. Depois de explicar que havia levado a recomendação a Marko, o ex-chefe da Red Bull resumiu sua frustração com uma expressão provocativa, seguida do reconhecimento de que a decisão acabou tendo um resultado favorável para os pilotos: “Olha no que deu”.
Para a equipe austríaca, o episódio não apaga os acertos de seu programa de desenvolvimento, mas oferece uma lembrança de que o sucesso anterior não garante decisões perfeitas no futuro. A organização soube reconhecer e promover grandes talentos em diferentes períodos, porém também deixou de contratar pilotos que demonstraram potencial antes de chegar à Fórmula 1. A ironia está justamente nisso: uma equipe conhecida por encontrar futuros campeões teve a chance de observar três deles e não os levou para sua própria estrutura.
No automobilismo, não existe uma fórmula capaz de prever com certeza a trajetória de um jovem piloto. O que existe são avaliações, oportunidades e decisões que, com o passar dos anos, revelam seus acertos e limitações. No caso de Russell, Norris e Piastri, o retrospecto transformou uma sessão de simulador financiada pelas famílias em uma história que Horner ainda recorda com frustração. E o título mundial de Norris em 2025 tornou a lembrança ainda mais difícil de ignorar: a Red Bull reconheceu sinais de talento, recebeu um alerta interno e, mesmo assim, viu três pilotos de destaque construírem suas carreiras longe de sua estrutura.



