O Botafogo precisava vencer o Atlético-MG para afastar o risco de entrar nas últimas rodadas do Brasileirão novamente ameaçado pelo rebaixamento. Conseguiu o resultado no Nilton Santos, mas passou longe de construir uma atuação tranquila. O triunfo por 1 a 0 teve como principal mérito a recuperação da segurança defensiva, com uma formação diferente das últimas partidas e uma atuação importante de Huguinho como primeiro volante. No entanto, a dificuldade para controlar o jogo depois de abrir o placar e o desperdício de oportunidades no segundo tempo transformaram uma vitória que poderia ter sido mais confortável em um exercício de resistência.
O alívio dos torcedores no apito final refletiu a importância do resultado. O Botafogo vinha de uma sequência de resultados preocupante e sabia que um novo tropeço poderia aproximá-lo perigosamente da zona de rebaixamento. Com os três pontos, abriu cinco de vantagem para o Z-4 e recuperou uma margem que permite encarar a reta final com um pouco mais de tranquilidade. A questão é que o desempenho também deixou claro que Tite ainda precisa encontrar uma maneira de fazer a equipe controlar melhor as partidas, especialmente quando consegue construir uma vantagem.
A vitória teve dois lados bastante distintos: um sistema defensivo que funcionou com mais consistência e um ataque que voltou a apresentar dificuldades para transformar suas chegadas em domínio efetivo. O Atlético-MG, mesmo utilizando uma equipe praticamente reserva, conseguiu pressionar em alguns momentos e teve oportunidades para buscar o empate. O Botafogo sobreviveu porque se defendeu bem, mas também porque o adversário não conseguiu aproveitar suas melhores situações.
Huguinho dá equilíbrio a uma formação diferente
A principal novidade da escalação de Tite foi a utilização de três zagueiros, com Ferraresi, Justino e Marçal, além do retorno de Huguinho à função de primeiro volante. A mudança alterou significativamente o comportamento defensivo do Botafogo, que vinha apresentando dificuldades para proteger a própria área e concedendo oportunidades com frequência aos adversários.
Dessa vez, a equipe mostrou mais organização sem a bola. Huguinho foi um dos principais responsáveis por essa melhora, ocupando os espaços à frente da defesa e dificultando a progressão dos jogadores do Atlético-MG pelo centro. Sua atuação foi importante não apenas pela capacidade de desarme, mas também pela leitura dos movimentos adversários. O volante conseguiu proteger a região central e deu aos zagueiros melhores condições para controlar as investidas do Galo.
Gabriel Batista também teve participação importante quando foi exigido. Embora não tenha enfrentado o mesmo volume de finalizações perigosas de outras partidas, respondeu bem nas situações em que precisou intervir, especialmente na chance de Alexsander ainda no primeiro tempo. A linha defensiva também conseguiu evitar que a posse de bola atleticana se transformasse em uma sequência de oportunidades claras.
O sistema com três zagueiros, portanto, ofereceu uma resposta a um dos problemas mais evidentes do Botafogo nas últimas rodadas. A equipe conseguiu proteger melhor a área e teve condições de reduzir os espaços para um adversário que, mesmo sem seus principais titulares, apresentou jogadores capazes de encontrar bons passes e acelerar as jogadas.
Ofensivamente, porém, o funcionamento foi bem menos convincente. O Botafogo encontrou dificuldades para construir pelo centro, e Medina voltou a ter uma atuação apagada, sem conseguir oferecer a criatividade necessária para conectar o meio-campo ao ataque. Nos primeiros minutos, a equipe dependeu principalmente das movimentações de Vitinho pelos lados, que encontrou espaço para avançar e acabou sendo decisivo na construção do gol.
A jogada que abriu o placar mostrou uma alternativa que o Botafogo precisa aproveitar com mais frequência. Vitinho conduziu pelo lado direito, encontrou espaço diante da marcação pouco combativa de Pascini e conseguiu entrar na área antes de servir Edenilson. O meia apareceu livre para finalizar e marcou seu sexto gol na temporada, confirmando mais uma vez sua capacidade de chegar à área e participar diretamente das jogadas ofensivas.
Edenilson foi importante justamente por oferecer uma presença que faltava em outros momentos do ataque. Sua movimentação a partir do meio-campo permite que o Botafogo tenha mais um jogador na zona de finalização, sem depender exclusivamente de Tiquinho. O problema é que a equipe não conseguiu transformar essa vantagem inicial em um controle mais consistente da partida.
Botafogo voltou a recuar depois de marcar e quase pagou o preço
O comportamento depois do gol foi um dos principais pontos de atenção. Em vez de aproveitar o momento para aumentar a pressão e tentar encaminhar a vitória, o Botafogo passou a adotar uma postura mais conservadora. Sem a bola, a equipe se organizou em um 5-4-1, com Tiquinho isolado no ataque e os demais jogadores concentrados na proteção defensiva.
A estratégia não foi completamente equivocada, porque o Atlético-MG teve dificuldades para encontrar espaços e transformar a posse em chances claras. Ainda assim, o Botafogo ofereceu campo ao adversário e deixou de utilizar a velocidade de seus jogadores para ameaçar em transições. O time passou a jogar mais perto da própria área, permitindo que o Galo avançasse e aumentasse a presença ofensiva.
Esse comportamento repete um problema que já havia aparecido em outros compromissos de Tite. Contra Coritiba e Chapecoense, por exemplo, o Botafogo também teve dificuldades para administrar situações favoráveis e acabou permitindo que os adversários permanecessem vivos até os minutos finais. A equipe consegue construir resultados, mas ainda não demonstra maturidade suficiente para controlar o ritmo das partidas depois de assumir a vantagem.
A dificuldade é especialmente preocupante porque o Botafogo não dispõe de uma margem confortável na tabela. Quando uma equipe luta contra o rebaixamento, defender uma vantagem é parte importante da estratégia, mas isso não significa abandonar completamente a capacidade de atacar. Sem conseguir manter a bola ou oferecer perigo em contra-ataques, o time fica exposto a uma pressão que pode resultar em erros defensivos, bolas paradas e situações de maior risco.
As substituições de Tite também demoraram a produzir o efeito esperado. A entrada de Alex Telles criou uma configuração incomum, com dois laterais-esquerdos em campo e Paulinho deslocado para a ponta. A experiência durou apenas nove minutos, até a saída de Paulinho para a entrada de Kauan Toledo. A velocidade e a capacidade de atacar os espaços só apareceram de maneira mais evidente a partir dos 30 minutos do segundo tempo, quando Matheus Martins também passou a oferecer mais profundidade.
O Botafogo finalmente encontrou condições para sair de trás e teve oportunidades para definir o confronto. Matheus Martins ficou cara a cara com Éverson, mas finalizou mal e desperdiçou uma chance clara de ampliar. Kauan Toledo também teve situações em que poderia ter tomado decisões melhores para aproveitar os espaços deixados pelo Atlético-MG.
Esses erros aumentaram a tensão nos minutos finais. Em vez de transformar os contra-ataques em um segundo gol que praticamente encerraria a disputa, o Botafogo manteve o adversário em condições de buscar o empate. A equipe acabou dependendo novamente da organização defensiva e da atuação de Gabriel Batista para proteger uma vantagem mínima.
Atlético-MG teve posse, mas faltou intensidade para competir
A derrota também precisa ser observada pelo contexto das escolhas de Domínguez. O Atlético-MG entrou em campo com uma formação praticamente reserva, preservando seus principais jogadores para o confronto de volta da semifinal da Copa do Brasil. A decisão é compreensível diante da importância da competição eliminatória e do desgaste do calendário, mas teve consequências claras no desempenho da equipe.
O Galo teve a posse de bola durante boa parte do primeiro tempo, mas encontrou dificuldades para transformar esse controle em oportunidades. A circulação acontecia longe da área do Botafogo, sem velocidade suficiente para desmontar a marcação. Além disso, o meio-campo apresentou pouca combatividade e permitiu que os jogadores adversários encontrassem espaços para avançar.
O gol de Edenilson foi consequência direta dessa falta de pressão. Vitinho conseguiu progredir pela direita sem encontrar oposição adequada, enquanto Pascini não conseguiu acompanhar a jogada. Na sequência, o lateral Preciado não manteve o alinhamento da defesa e deixou o autor do gol em condição regular. O Botafogo encontrou uma situação favorável com relativa facilidade, expondo a falta de coordenação do sistema defensivo atleticano.
Depois de sofrer o gol, o Atlético melhorou. Scarpa passou a ter maior influência na construção, e Pascini também conseguiu participar mais das jogadas ofensivas. A melhor oportunidade da equipe no primeiro tempo surgiu justamente em uma boa movimentação pelo corredor, quando o lateral encontrou Alexsander na área. O volante finalizou com qualidade, mas parou em Gabriel Batista.
O Galo voltou para o segundo tempo mantendo a postura ofensiva e conseguiu pressionar o Botafogo durante alguns minutos. A equipe ocupou o campo adversário e tentou encontrar espaços diante da linha defensiva mais baixa, mas não conseguiu sustentar a intensidade até o fim. O desgaste dos jogadores que receberam oportunidade também pesou, e a equipe perdeu capacidade de acelerar as jogadas na reta final.
É importante reconhecer que o Atlético não apresentou força suficiente para justificar uma vitória, mas também não teve uma atuação completamente improdutiva. Scarpa e Alexsander conseguiram gerar algumas situações interessantes, enquanto Everson evitou que a diferença aumentasse com uma defesa importante diante de Matheus Martins. O problema foi a falta de consistência coletiva para transformar esses momentos em uma reação.
A sequência de cinco derrotas consecutivas, algo que não acontecia desde 2019, aumenta a preocupação. Mesmo com a preservação dos titulares, o Atlético precisava demonstrar maior capacidade competitiva e organização. A derrota também pode complicar a disputa por uma vaga na Libertadores pelo Campeonato Brasileiro, dependendo dos resultados de Bahia e Fluminense na rodada.
Vitória importante, mas Tite ainda precisa resolver a falta de controle
O Botafogo tem motivos para comemorar o resultado, principalmente porque precisava interromper a sequência de dificuldades e recuperar uma distância mais segura em relação à zona de rebaixamento. A vitória sobre o Atlético-MG mostrou que Tite pode encontrar alternativas defensivas com a utilização de três zagueiros e a presença de Huguinho como primeiro volante. A atuação do meio-campista foi um dos principais sinais positivos da noite e pode influenciar as escolhas do treinador para os próximos compromissos.
Entretanto, o resultado não deve esconder a repetição de problemas ofensivos e comportamentais. O Botafogo ainda tem dificuldades para manter a intensidade depois de marcar, controlar a posse de bola e aproveitar os espaços que aparecem quando o adversário precisa se lançar ao ataque. A equipe teve oportunidades suficientes para fazer o segundo gol, mas desperdiçou chances que poderiam ter evitado o sufoco nos minutos finais.
A melhora defensiva é um passo importante, mas precisa ser acompanhada por uma evolução na capacidade de administrar vantagens. Não basta proteger a área durante 90 minutos se o time não consegue construir saídas para aliviar a pressão e manter o adversário preocupado com os contra-ataques. A postura excessivamente reativa pode funcionar em determinadas circunstâncias, mas se torna arriscada quando o placar é mínimo e a equipe não consegue aproveitar as oportunidades para ampliar.
Para o Atlético-MG, a prioridade agora é transformar a preservação dos titulares em uma vantagem na semifinal da Copa do Brasil. A escolha de poupar jogadores foi planejada, mas a sequência de derrotas exige uma resposta imediata para evitar que a falta de confiança também comprometa a competição eliminatória. A evolução de jovens como Gutte e Gabriel Veneno é um aspecto positivo, assim como a participação de Vitão, que demonstrou estar preparado para receber mais oportunidades no elenco profissional.
No fim, o Botafogo conquistou três pontos fundamentais, abriu cinco de vantagem para o Z-4 e conseguiu respirar depois de uma sequência de resultados preocupante. Foi uma vitória construída pela segurança defensiva, pela importância de Huguinho e pela chegada de Edenilson à área, mas que também expôs a dificuldade de Tite para fazer o time controlar os jogos. O alívio é legítimo, mas a atuação mostra que ainda há trabalho a fazer para que a luta contra o rebaixamento não continue sendo decidida no sufoco.
(Foto: Thiago Ribeiro/AGIF)



