O Botafogo perdeu por 2 a 1 para o Remo, pela 33ª rodada do Brasileirão, e transformou uma situação relativamente confortável na tabela em um alerta para a reta final da temporada. Diante do vice-lanterna, o time comandado por Tite voltou a apresentar dificuldades para construir jogadas ofensivas, cometeu erros defensivos decisivos e não conseguiu impor seu futebol mesmo após sair atrás no placar. O resultado evidencia uma equipe que perdeu referências dentro de campo e começa a conviver com uma ameaça cada vez mais concreta de aproximação da zona de rebaixamento.
Com 39 pontos, o Botafogo terminou a noite com cinco pontos de vantagem sobre o Grêmio, primeiro time dentro do Z-4, que ainda tem compromisso na rodada. A distância oferece alguma margem de segurança, mas o desempenho recente torna a situação preocupante. As dificuldades contra a Chapecoense, a derrota por 3 a 0 para o Internacional e, agora, o tropeço diante do Remo mostram que o problema não está restrito a um adversário específico, mas envolve a organização coletiva e a capacidade de competir em diferentes cenários.
A derrota em Belém também levanta questionamentos sobre as escolhas de Tite e a capacidade de reação do elenco. Com desfalques importantes, o treinador precisou reorganizar o meio-campo e o ataque, mas as alternativas utilizadas não conseguiram oferecer o rendimento necessário. O Botafogo terminou a partida sem demonstrar poder de fogo suficiente para buscar o empate e ainda permitiu que o adversário explorasse repetidamente os espaços deixados pela equipe carioca.
O Botafogo voltou a falhar na defesa e não encontrou respostas no ataque
O principal problema do Botafogo foi a falta de equilíbrio entre os setores. A equipe teve dificuldades para construir jogadas perigosas, mas, ao mesmo tempo, ofereceu espaços que permitiram ao Remo chegar com frequência ao campo ofensivo. A combinação entre baixa produção no ataque e vulnerabilidade defensiva tornou o time previsível com a bola e exposto quando precisava se defender.
O primeiro gol sofrido exemplificou essas dificuldades. Alex Telles deixou espaço para Marcelinho avançar e cruzar, enquanto Domingos Andrade falhou na marcação e permitiu que Jajá aproveitasse a oportunidade para abrir o placar. O lance evidenciou problemas individuais, mas também revelou a falta de proteção e coordenação entre os jogadores responsáveis por impedir a progressão adversária.
A situação se repetiu na segunda etapa, quando o setor defensivo voltou a oferecer condições para o Remo construir uma jogada decisiva. Depois de erros de Vitinho e Huguinho, Picco encontrou espaço para finalizar e marcou um belo gol, ampliando a vantagem dos mandantes. A defesa alvinegra não conseguiu reagir a tempo, e a jogada reforçou a impressão de que os jogadores não estavam suficientemente conectados para fechar os espaços e controlar as ações rivais.
O problema se torna ainda mais difícil de justificar porque o Botafogo utilizava dois volantes, Domingos Andrade e Huguinho, em uma estrutura que deveria proporcionar maior proteção à defesa. Apesar disso, o Remo encontrou caminhos pelo meio e, principalmente, pelos lados do campo, onde as coberturas alvinegras foram insuficientes. A presença de dois jogadores com responsabilidades defensivas não se traduziu em segurança, indicando que a dificuldade vai além da escolha dos nomes e envolve o funcionamento coletivo da equipe.
Pelo lado esquerdo, a distância entre Alex Telles e Matheus Martins deixou espaços que o Remo conseguiu explorar. O lateral avançava, mas o setor não encontrava uma compensação defensiva eficiente, permitindo que os mandantes atacassem uma região vulnerável. Do outro lado, Ziyech também enfrentou dificuldades para encontrar liberdade, já que recebia a bola sob pressão de dois marcadores e raramente conseguia dar sequência às jogadas.
O resultado foi um Botafogo que não conseguia estabelecer uma forma clara de atacar. Quando tentava construir pelos lados, encontrava dificuldades para superar a marcação; quando buscava alternativas pelo centro, não tinha participação suficiente de seus jogadores de criação. A equipe passou boa parte do confronto sem ameaçar de maneira consistente, enquanto o Remo aproveitava os erros para avançar.
A derrota não pode ser explicada apenas pela atuação defensiva. O Botafogo também falhou na construção ofensiva, na ocupação dos espaços e na tomada de decisões perto da área. A equipe pareceu sem um plano capaz de responder à marcação adversária e, diante das dificuldades, passou a atacar com ansiedade, sem conseguir transformar a posse em oportunidades de qualidade.
As ausências pesaram, mas não justificam a falta de organização
O Botafogo entrou em campo sem Danilo, afastado por lesão, e Montoro, suspenso. As duas ausências obrigaram Tite a modificar a estrutura da equipe, mas o rendimento dos substitutos não correspondeu à importância dos jogadores que ficaram de fora. Medina, escolhido para exercer a função de camisa 10, teve pouca participação, enquanto Huguinho não conseguiu cumprir as tarefas esperadas de um meio-campista com capacidade para atuar de área a área.
A dificuldade de Medina foi particularmente relevante porque o Botafogo precisava de alguém capaz de conectar o meio-campo ao ataque. Com Ziyech constantemente pressionado e os jogadores de lado sem conseguir criar vantagem, a participação do argentino poderia ter sido determinante para encontrar espaços por dentro e acelerar as jogadas. Entretanto, o meia permaneceu apagado durante boa parte da partida, e a equipe não encontrou uma alternativa consistente para organizar suas ações ofensivas.
Huguinho, por sua vez, deveria oferecer presença na área adversária e ajudar a sustentar o meio-campo sem comprometer a proteção defensiva. O desempenho ficou aquém dessas expectativas. O jogador arriscou pouco, teve dificuldades quando tentou participar das jogadas ofensivas e ainda esteve envolvido no erro que antecedeu o segundo gol do Remo. Sua atuação contribuiu para a falta de conexão entre os setores e deixou a equipe sem a intensidade necessária para disputar as segundas bolas e pressionar o adversário.
A ausência de Danilo e Montoro ajuda a compreender por que Tite precisou recorrer a alternativas diferentes, mas não explica a quantidade de espaços concedidos nem a dificuldade para criar oportunidades. Um time que pretende se manter distante da zona de rebaixamento precisa encontrar soluções mesmo quando não conta com todos os titulares. Contra o Remo, o Botafogo não conseguiu fazer isso e apresentou limitações que vão além das ausências individuais.
Também faltou uma resposta coletiva depois de sofrer os gols. A equipe não demonstrou capacidade para reorganizar o meio-campo, diminuir os espaços entre os setores ou estabelecer uma pressão capaz de empurrar o adversário para trás. Mesmo quando teve a necessidade de buscar o resultado, continuou vulnerável aos contra-ataques e permitiu que o Remo encontrasse novas oportunidades.
Esse cenário coloca Tite diante de um desafio importante. O treinador precisa definir uma estrutura que ofereça mais segurança defensiva sem comprometer a capacidade de criação, além de encontrar jogadores que consigam executar as funções exigidas pelo modelo de jogo. A simples troca de peças não será suficiente se os problemas de posicionamento e de ocupação dos espaços continuarem aparecendo.
Ziyech ficou isolado, e o ataque alvinegro perdeu força
A atuação de Ziyech ajuda a explicar por que o Botafogo encontrou tanta dificuldade para ameaçar o Remo. Principal contratação do clube na temporada, o marroquino não conseguiu ter influência no primeiro tempo porque era cercado rapidamente por dois marcadores sempre que recebia a bola pelo lado direito. Sem espaço para girar ou conduzir, o jogador teve poucas oportunidades para explorar sua qualidade técnica e criar situações de perigo.
Diante desse cenário, Tite tentou modificar a distribuição das ações ofensivas, recuando Ziyech e oferecendo mais liberdade para as subidas de Vitinho. A mudança, entretanto, não produziu o efeito esperado. Vitinho teve pouca participação no ataque, enquanto o recuo do marroquino reduziu sua presença em regiões nas quais poderia ser mais decisivo. O Botafogo mudou a maneira de ocupar o campo, mas continuou sem encontrar uma solução para superar a marcação adversária.
O problema também envolveu a ocupação do lado esquerdo. Com Alex Telles e Matheus Martins avançando, a equipe buscava criar superioridade pelas laterais, mas não conseguia transformar essas chegadas em oportunidades claras. Os espaços deixados atrás dos jogadores ofensivos ainda permitiam que o Remo recuperasse a bola e acelerasse em direção à defesa alvinegra.
A falta de eficiência foi evidente na atuação de Arthur Cabral. O centroavante chegou a acertar o travessão em uma cabeçada, mas voltou a passar em branco e ampliou para 17 jogos consecutivos a sequência sem marcar. O lance foi uma das poucas situações em que o Botafogo conseguiu levar perigo real ao gol adversário, mas também mostrou como o time depende de oportunidades isoladas para ameaçar.
A sequência negativa do atacante não pode ser analisada separadamente do funcionamento ofensivo da equipe. Arthur precisa receber bolas em condições favoráveis, contar com aproximações e encontrar espaços dentro da área. Quando o time não consegue construir jogadas com qualidade ou abastecer o centroavante, a tarefa de marcar se torna mais difícil. Ainda assim, a falta de gols por tantos jogos aumenta a pressão sobre o jogador e reforça a necessidade de encontrar alternativas para o ataque.
A entrada de Kauan Toledo no lugar de Matheus Martins foi uma tentativa de modificar esse cenário. O jovem da base fez uma boa jogada logo depois de entrar, oferecendo um sinal de que poderia acrescentar energia ao setor ofensivo. Contudo, a mudança não foi suficiente para transformar o comportamento do Botafogo nem para criar uma pressão constante sobre o Remo.
O time continuou com dificuldades para acelerar as jogadas e chegar à área com superioridade numérica. A equipe precisava de uma reação mais organizada, mas os ataques passaram a depender de iniciativas individuais e decisões apressadas. Sem uma referência clara de criação, o Botafogo não conseguiu aproveitar os minutos finais para construir uma reação consistente.
O Remo aproveitou os espaços e poderia ter construído uma vitória maior
Embora o Remo ocupe a 19ª posição do Campeonato Brasileiro, a equipe encontrou condições para competir e explorar os problemas do Botafogo. Os mandantes não precisaram dominar a posse de bola durante todo o confronto para ameaçar: bastava recuperar a bola e acelerar em direção aos espaços deixados pelos cariocas. A estratégia funcionou porque o adversário não conseguiu proteger adequadamente o meio-campo nem fechar as laterais.
O primeiro gol nasceu de uma falha de cobertura pelo lado esquerdo, enquanto o segundo surgiu depois de uma sequência de erros que deixou Picco em condições de finalizar. Em ambos os lances, o Remo demonstrou capacidade para identificar os espaços disponíveis e aproveitar a desorganização alvinegra. A equipe soube transformar os problemas do rival em oportunidades concretas e construiu uma vantagem que poderia ter sido ainda maior.
O número de chances desperdiçadas pelos mandantes, porém, também evidencia por que o Remo ocupa a parte inferior da tabela. A equipe encontrou espaços e chegou com frequência ao ataque, mas não conseguiu converter todas as oportunidades criadas. Diante de uma defesa que ofereceu tantas facilidades, os paraenses poderiam ter construído um placar mais confortável e evitado qualquer possibilidade de reação adversária.
Ainda assim, a vitória representa um resultado importante para o Remo, que conseguiu superar um adversário com mais recursos e agravou a situação de um concorrente que buscava manter distância do Z-4. O time mostrou que pode aproveitar erros de equipes pressionadas, embora ainda precise melhorar a eficiência nas finalizações para transformar esse tipo de atuação em resultados mais frequentes.
Para o Botafogo, o desempenho do adversário deveria servir de alerta. Mesmo diante de um time que também enfrenta dificuldades no campeonato, os cariocas não conseguiram controlar os espaços nem limitar as oportunidades de contra-ataque. Quando o rival encontra facilidade para avançar, a superioridade técnica ou o investimento do elenco deixam de ser suficientes para garantir um resultado positivo.
A derrota também reforça que a situação da tabela não deve ser usada como justificativa para minimizar os problemas apresentados. O Remo pode estar entre os últimos colocados, mas entrou em campo disposto a explorar as fragilidades do Botafogo e conseguiu fazer isso com eficiência. A posição do adversário não diminui o peso do resultado, especialmente porque o time alvinegro precisa enfrentar outros concorrentes em uma sequência decisiva.
A distância para o Z-4 ainda existe, mas o Botafogo perdeu margem para errar
Com 39 pontos, o Botafogo permanece cinco pontos à frente do Grêmio, que abre a zona de rebaixamento e ainda joga nesta rodada. A vantagem significa que o clube não está, neste momento, entre os quatro últimos colocados, mas a sequência recente exige atenção. A equipe perdeu pontos diante de adversários que ocupam as últimas posições e demonstrou dificuldades que podem voltar a aparecer contra qualquer rival.
O risco está justamente na incapacidade de transformar a margem atual em tranquilidade. A derrota para o Remo veio depois de dificuldades contra a Chapecoense e de um resultado negativo diante do Internacional. Esses jogos mostram que o Botafogo não tem conseguido encontrar estabilidade nem mesmo quando enfrenta equipes que também convivem com problemas durante a temporada.
A reta final exige mais do que confiança na vantagem sobre os concorrentes. O time precisa recuperar uma identidade de jogo, estabelecer uma estrutura defensiva confiável e melhorar a produção ofensiva. Sem essas mudanças, cada partida pode se transformar em um confronto de alto risco, especialmente quando o adversário percebe que há espaço para atacar e que o Botafogo tem dificuldade para reagir depois de sofrer um gol.
Tite também precisará avaliar a utilização de jogadores que não corresponderam às expectativas e a maneira como pretende compensar as ausências de Danilo e Montoro. O elenco precisa apresentar alternativas funcionais, e não apenas substituições individuais que alteram a escalação sem resolver os problemas coletivos. A equipe necessita de um meio-campo capaz de proteger a defesa, construir jogadas e manter o time conectado durante os 90 minutos.
A derrota em Belém deixa uma conclusão preocupante: o Botafogo não perdeu apenas três pontos, mas também desperdiçou a oportunidade de afastar as dúvidas sobre seu desempenho. O resultado contra o vice-lanterna expôs uma equipe sem consistência defensiva, com pouca criatividade e incapaz de transformar suas poucas chances em pressão efetiva.
A vantagem sobre o Z-4 ainda oferece tempo para corrigir a rota, mas não deve servir de conforto diante de uma sequência tão irregular. O Botafogo precisa reagir antes que a disputa contra o rebaixamento se torne ainda mais apertada. Para isso, será necessário recuperar a organização, dar melhores condições aos jogadores ofensivos e impedir que erros básicos continuem decidindo partidas. Caso contrário, a distância atual para a zona de rebaixamento poderá diminuir rapidamente, transformando a reta final em uma luta muito mais difícil do que a equipe imaginava.
(Foto: Vítor Silva/Botafogo)



