Fernando Alonso afirma que a “única dúvida” que tem sobre as mudança de regras radicais que a Fórmula 1 implantará para 2026 é como a arte da ultrapassagem será impactada pela nova geração de carros.
Alonso pilotará sua sétima geração diferente de carro de F1 em 2026, com chassis e motores passando por grandes reformulações, incluindo a introdução da aerodinâmica ativa. Os motores também terão quase três vezes mais potência de bateria do que em 2025, com 350 kW gerados pelos sistemas aprimorados.
Com a aerodinâmica ativa, o DRS, como é conhecido, será abolido, com as asas dianteira e traseira se movendo para obter o melhor desempenho possível. Os pilotos terão que equilibrar o uso de suas reservas de energia com as tentativas de ultrapassagem, algo que Alonso teme que possa fazer com que os pilotos “paguem o preço”.
“No fim das contas, o carro, ou o esporte, continua basicamente o mesmo”, disse Alonso à imprensa. “Você corre contra o cronômetro e depois corre contra seus concorrentes. Há um desempenho diferente no carro, mas talvez um pouco menos de aderência porque, com os regulamentos, a força descendente será menor.”, seguiu.
“A única dúvida que tenho é sobre as possibilidades de ultrapassagem. Pilotando no simulador e lendo os regulamentos, todos podem usar o DRS nas retas, tanto o carro da frente quanto o de trás.”, continuou Alonso. “Então, não há realmente como fazer a diferença a menos que você gaste muita energia nas retas, mas se você gastar essa energia, pagará o preço nas retas seguintes.”, explicou.
“Talvez você seja ultrapassado pelo carro que acabou de ultrapassar. Se tentar a ultrapassagem, perderá tempo sendo ultrapassado na próxima reta, então talvez não haja incentivo para ultrapassá-lo, pois ambos perderão tempo, mas essa é uma ideia inicial.”, falou o bicampeão.
“Acho que até os carros entrarem na pista e vermos realmente quanta energia é necessária para cada ultrapassagem, coisas assim são difíceis de prever, e o fator mais importante são os pneus.”, apontou.
“Quando tivermos corridas com três ou quatro paradas, a diferença no desempenho dos pneus quando você para, ou algo assim, não precisa de energia ou DRS, você faz a ultrapassagem imediatamente na volta de saída dos boxes.”, prosseguiu o veterano. “Portanto, os pneus serão o principal tópico para melhorar as ultrapassagens, se eles estiverem se degradando e forem necessárias múltiplas paradas.”, concluiu.
Alonso tocou num ponto fundamental para o espetáculo
Fernando Alonso levantou uma dúvida extremamente pertinente sobre o regulamento da Fórmula 1 para 2026, e concordar com ele é praticamente inevitável para quem entende o quanto as ultrapassagens são o coração do espetáculo.

A preocupação gira em torno do piloto que tentar executar uma ultrapassagem, já que talvez ele não tenha vantagem suficiente para completar a manobra, ou pior, que a tentativa custe tanta energia que mais valha a pena permanecer atrás.
A ultrapassagem, por natureza, exige risco, ousadia e uma janela de oportunidade. Se o regulamento torna essa janela estreita demais ou coloca um custo energético tão alto que o piloto precisa pensar duas vezes antes de atacar, a corrida perde fluidez, perde ritmo e, acima de tudo, perde emoção.
Alonso também chama atenção para um ponto que muitos ignoram: com tanta dependência da parte elétrica, se ambos os pilotos estiverem usando modos de potência semelhantes, a ultrapassagem pode virar uma batalha meramente aerodinâmica, porém, num carro que por definição terá menos arrasto e menor pressão aerodinâmica nas retas.
E com menos pressão e menor turbulência a possibilidade de aproximação diminui. Esse é um risco real que precisa ser discutido, porque a história recente da F1 já mostrou que regulamentos mal calibrados podem prejudicar gravemente o espetáculo, como ocorreu entre 2009 e 2016, quando várias pistas viraram procissões.
Fernando Alonso, com toda sua experiência, sabe que o público não quer apenas velocidade: quer disputa. Quer ver pilotos lutando lado a lado, freando no limite, buscando brechas. Se o novo regulamento não conseguir garantir vantagens reais para quem ataca, então a F1 2026 pode nascer com um problema estrutural, corridas bonitas de ver, tecnicamente sofisticadas, mas pobres em ação. E isso seria trágico para a categoria.
Por isso a dúvida levantada por Alonso não deve ser descartada; deve ser tratada como um alerta importante. Se a FIA quer uma nova era mais sustentável, tecnológica e equilibrada, ótimo, mas isso não pode acontecer às custas da essência do esporte.
Ultrapassagens são o pulso da Fórmula 1. Se elas falharem, tudo falha junto. Alonso está certo em levantar a voz agora, antes que o regulamento seja definitivo demais para ser ajustado.
(Imagem de capa: Alessio Morgese/NurPhoto via Getty Image)