O Arsenal de Mikel Arteta se depara com o sonho de múltiplos treinadores, onde simplesmente conta com inúmeras opções interessantíssimas para o seu ataque, porém, nem tudo são as mil maravilhas neste cenário. Por agora, se encontra num grande dilema. Com Viktor Gyökeres, Gabriel Jesus e Kai Havertz disponíveis (ou quase), o treinador dos Gunners precisa decidir não apenas quem joga, mas como cada um deve ser usado. E a vitória sobre a Inter de Milão pode ter dado pistas importantes.
O triunfo no San Siro não foi só mais um bom resultado na Champions League, por se tratar de um time de ponta da Itaçia, que briga por título. Ele escancarou algo que vinha incomodando parte da torcida: o Arsenal parece mais fluido, mais criativo e mais imprevisível quando Gabriel Jesus começa jogando como camisa 9.
Gabriel Jesus e o Arsenal que volta a respirar
Com Jesus no comando do ataque, o Arsenal apresentou algo que nem sempre aparece nesta temporada: jogo associativo rápido, passes curtos, movimentação constante e troca de posições, se trata de um atacante mais leve, com mais mobilidade. O primeiro gol nasceu exatamente assim. O brasileiro saiu da área, fez o pivô, tabelou com Mikel Merino e apareceu de novo para finalizar com instinto puro de atacante.
Não foi só o gol. Jesus caiu pelos lados, dialogou com os pontas, criou espaços para Eberechi Eze, acionou Bukayo Saka em profundidade e, em alguns momentos, parecia mais um armador do que um centroavante tradicional. Para quem lembra do início explosivo dele no clube em 2022, foi quase uma viagem no tempo, antes da sequência cruel de lesões.
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Claro, teve também o gol de cabeça em bola parada. Mas o impacto maior foi com a bola rolando. O Arsenal virou outro time: menos previsível, menos engessado e muito mais difícil de marcar. Acaba se desprendendo da realidade do centroavante mais lento, forte e alto.
Gyökeres: força, profundidade… e limitações
Isso não significa que Viktor Gyokeres não tenha valor. Muito pelo contrário. Quando entrou no segundo tempo, com a Inter mais exposta e desesperada pelo empate, o sueco mostrou exatamente o cenário ideal para o seu jogo. Atacou o espaço, ganhou na corrida, recebeu o passe de Martinelli e finalizou com categoria.
Foi um gol que Jesus provavelmente não faria. Assim como o primeiro gol do Arsenal, cheio de passes curtos e improviso, dificilmente sairia dos pés de Gyökeres. E está tudo bem. São jogadores diferentes. Possuem qualidades e habilidades distintas, isso precisa ser entendido o quanto antes.
O problema é que a Premier League raramente oferece espaço. Defesas fechadas, linhas compactas e pouco campo para correr são a regra nos dias atuais, todos andam se defendendo muito bem. E Gyokeres sofreu com isso. Sem um gol com bola rolando desde 1º de novembro, ele vive um momento complicado no Arsenal, com baixo aproveitamento nas finalizações e pouca participação no jogo coletivo.
Mesmo assim, Arteta seguiu apostando nele como titular em quase todas as rodadas, muito por falta de opção. Jesus e Havertz passaram longos períodos no departamento médico, e o sueco virou a única referência disponível, sem contar que foi motivo de um alto investimento, então existem expectativas que precisam ser respondidas por parte dele.
Números que ajudam a explicar o dilema
O Arsenal até venceu bastante com Gyökeres começando jogos, 13 vitórias em 17 partidas de Premier League. Mas há um detalhe importante: grande parte desses gols veio de bolas paradas. Em jogo aberto, o time produz menos, cria menos e depende mais de jogadas individuais, algo que não ocorre de forma tão solta com o sueco em campo, porque não é tão móvel quanto Gabriel Jesus.
Não por acaso, algumas das melhores atuações ofensivas da temporada aconteceram sem Gyökeres como titular: contra Bayern de Munique, Tottenham e agora Inter. Nessas partidas, Arteta optou por um falso 9 ou por atacantes com maior capacidade técnica e associativa.
E aí entra o terceiro personagem dessa história.
Kai Havertz: o “titular invisível”
Havertz é talvez o jogador mais subestimado desse trio. Criticado por chances perdidas e por não ser exatamente um camisa 9 clássico, o alemão entrega algo que Arteta valoriza muito: inteligência tática, leitura de espaços e contribuição coletiva. Simplesmente se encontra no mesmo caminho de Gyokeres, porque o alemão tem conseguido entregar bem ao Arsenal, quando o assunto é recomposição, se postar defensivamente.
Os números ajudam a reforçar isso. Em 31 jogos de Premier League como atacante pelo Arsenal, Havertz participou diretamente de 24 gols, 15 gols e nove assistências. Antes da lesão que encerrou sua última temporada, ele vinha no ritmo para ter o melhor ano da carreira em termos de gols.
Não é exagero dizer que, quando está saudável, Havertz tem tudo para ser o plano A de Arteta. O problema é que sua recuperação tem sido mais lenta do que o esperado, o que abriu espaço para o debate atual. Sem contar que, Jesus voltou com o pé na porta, querendo demais, tornando a vida do Arsenal mais tranquila.
Então… qual é a solução?
Talvez a resposta não esteja em escolher apenas um, mas em usar cada um no contexto certo. Jesus parece ideal para começar jogos em que o Arsenal precisa controlar, circular a bola e desmontar defesas fechadas. Gyokeres pode ser devastador entrando no segundo tempo, contra defesas cansadas e linhas mais altas. E Havertz, quando estiver 100%, segue sendo o nome mais equilibrado para o pacote completo.
É verdade que um atacante de £64 milhões não é contratado para ser reserva, e com certeza, essa realidade deve bater na cabeça do técnico espanhol em diversas oportunidades. Mas insistir para que o sueco vire algo que ele não é pode custar caro. Às vezes, o segredo não está em mudar o jogador e sim em mudar o papel dele.
Se o duelo contra o Manchester United se aproxima, o que aconteceu no San Siro pode ter deixado um recado bem claro para Arteta. O quebra-cabeça está montado. Agora, cabe ao treinador escolher como encaixar as peças.
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