O Arsenal parece ter perdido um pouco de seu gás nesta reta final de 2025, e o principal ponto para essa realidade, é a perda de parte de sua consistência. O time que se apresentava como o mais sólido do mundo, a equipe a ser batida pelos grandes clubes da Europa, começou a conhecer tropeços que não são considerados comuns.
No caso, os Gunners voltaram a assustar sua torcida nos minutos finais. De novo. Sunderland, Aston Villa, Wolves e agora Crystal Palace: quatro jogos recentes, se tratando de quatro gols sofridos no apagar das luzes. Para qualquer time que briga na parte de cima da tabela, isso seria motivo de alarme máximo. Para Mikel Arteta, porém, o problema do Arsenal não está exatamente onde todo mundo imagina.
Segundo o treinador, a defesa não é o principal vilão. O verdadeiro nó está no ataque do time londrino.
Arsenal cria muito, mas não decide
Os números ajudam a explicar por que o Arsenal tem flertado com o perigo mesmo dominando jogos. O time londrino está há mais de 300 minutos sem marcar um gol de bola rolando. Desde a vitória por 3 a 0 sobre o Club Brugge, os gols do Arsenal vieram apenas de três gols contra (dois do Wolves e um do Crystal Palace) e um pênalti convertido por Viktor Gyökeres contra o Everton.
Para um time que quer disputar títulos na Inglaterra e na Europa, isso é pouco. Muito pouco e simplesmente diferente da forma como se encaminhavam no passado recente.
Claro, gols contra e pênaltis também contam, e geralmente surgem quando o Arsenal pressiona, empurra o adversário para trás e cria caos na área. Mas os dados mostram algo preocupante: os Gunners deveriam ter marcado pelo menos seis gols nos últimos três jogos.
Quando você não mata o jogo, a bola costuma punir. E o Arsenal tem sentido isso na pele.
“Era para estar 3 ou 4 a 0”, diz Arteta
Após o empate em 1 a 1 com o Crystal Palace, decidido apenas nos pênaltis pela Carabao Cup, Arteta foi sincero, e até tranquilo:
“A margem deveria ter sido muito maior. Se estivesse 3 ou 4 a 0, não estaríamos preocupados com o que acontece no último minuto.”
Contra o Palace, o Arsenal tratou de finalizar 25 vezes. Noni Madueke perdeu chances claras no primeiro tempo, Gabriel Jesus parou repetidamente no goleiro Walter Benítez, e até Jurrien Timber apareceu bem na área, mas sem sucesso. O clube londrino dominou, pressionou, controlou… e não resolveu.
Do outro lado, os Eagles precisaram de uma chegada no fim para empatar. Um roteiro que o torcedor do Arsenal já conhece bem demais, tem a bola o tempo inteiro, mas no primeiro vacilo, David Raya não é colocado para trabalhar, pelo menos não dá forma como gostariam. No caso, tem apenas a tarefa de bsucar a bola no fundo das redes.
Dezembro: o mês indigesto do Arsenal
Esse tipo de cenário não é novidade para o Arsenal. Dezembro, nos últimos anos, tem sido um período complicado.
Em dezembro de 2023, o Arsenal perdeu para Fulham e West Ham, além de ser eliminado da FA Cup pelo Liverpool, mesmo criando inúmeras chances. Em 2022, empates frustrantes contra Fulham e Everton, vitória pouco convincente após o Natal e eliminação na Carabao Cup para o Newcastle.
Existe um padrão claro: o Arsenal cria, domina, mas não transforma isso em gols suficientes. E quando o placar fica curto, qualquer erro vira castigo. Essa questão se tornou comum nesta etapa da temporada, porque antes dela, os Gunners eram capazes de segurar a onda bem, colocar seu adversário nas cordas, e tirar todo o sangue dele. Agora, falta saber se ao término de 2025, essa realidade deixará de ser normal.
Arsenal tentou corrigir o problema no mercado
A diretoria do Arsenal reconheceu essa fraqueza. O clube foi agressivo no mercado e trouxe jogadores para dar mais agressividade e repertório ofensivo: Viktor Gyökeres, Noni Madueke, Eberechi Eze, além de ajustes no meio com nomes como Martin Zubimendi.
A ideia era simples: fazer o segundo gol rápido e evitar que o adversário voltasse para o jogo. E, por boa parte da temporada, demonstrou sua eficiência. O placar mais comum do Arsenal em 2024/25 tem sido 2 a 0, não mais o tradicional “1 a 0 sofrido”, colocando no papel seu alto nível defensivo.
Inclusive, o Arsenal já abriu 2 a 0 logo no primeiro minuto do segundo tempo em três partidas diferentes, um sinal claro de que isso é trabalhado nos vestiários por Arteta e sua comissão.
Velhos hábitos voltam a aparecer
O problema é que, nas últimas semanas, o Arsenal parece ter regredido. Marca um gol, diminui a intensidade, administra a vantagem e deixa o adversário vivo. Contra times organizados, ou simplesmente persistentes, isso é pedir para sofrer.
Se o VAR fosse mais rigoroso em um lance de William Saliba contra o Everton, se o Wolves não tivesse ajudado com um gol contra, ou se o Crystal Palace tivesse sido mais eficiente nos pênaltis, o clima em torno do Arsenal hoje seria bem mais pesado.
É importante dizer: os Gunners seguem vencendo jogos. O elenco é mais profundo, o time é mentalmente mais forte e a gestão de momentos decisivos melhorou. Em outras temporadas, esses gols sofridos no fim teriam resultado em derrotas e crises abertas. Um ponto interessante a ser citado, é que o Liverpool se encontrava desta forma no início desta campanha, mas logo, as feridas que eram pequenas, cresceram e fizeram um problema.
Não é bizarro ver uma questão se tornar complicada, ela só fica pior se não houveram ajustes para resolvê-la.
Se o Arsenal quiser realmente brigar por títulos até o fim, vai precisar ser mais cruel no ataque, algo que acaba sendo óbvio de ser dito. Criar menos drama, mais gols. Porque emoção é legal, mas ninguém quer transformar todo jogo dos Gunners em teste cardíaco, especialmente quando janeiro está logo ali
Foto: Sky Sports