Enzo Maresca, Manchester City. Foto: Glyn Kirk/AFP via Getty Images.
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Enzo Maresca terá o “trabalho impossível” no Manchester City? O que os sucessores de Guardiola ensinam

Existe uma expressão que parece acompanhar Enzo Maresca desde o momento em que assumiu o Manchester City: trabalho impossível. Afinal, como substituir Pep Guardiola depois de uma década de domínio, títulos e uma transformação profunda na maneira como o clube joga?

A resposta ainda vai levar algum tempo para aparecer, mas a história mostra que assumir o lugar de um treinador revolucionário não significa necessariamente começar do zero.

Em diferentes momentos do futebol europeu, sucessores conseguiram aproveitar o trabalho deixado por grandes técnicos e construir suas próprias versões de equipes vencedoras. Foi assim com Arne Slot no Liverpool após Jürgen Klopp e, em um contexto mais distante, com Stefan Kovacs no Ajax depois da revolução do totaalvoetbal de Rinus Michels. Fabio Capello também foi além da base deixada por Arrigo Sacchi no Milan e transformou aquela equipe em uma potência ainda mais dominante no futebol italiano e europeu.

Existe, porém, um ponto em comum nesses casos: os sucessores que conseguiram manter o nível normalmente tinham algum tipo de relação prévia com o trabalho anterior e encontraram uma estrutura capaz de preservar parte daquilo que já funcionava. Maresca se encaixa parcialmente nessa lógica. O italiano foi auxiliar de Guardiola no próprio Manchester City e conhece de perto os métodos do espanhol, mas terá pela frente um cenário diferente daquele encontrado por alguns de seus antecessores.

O elenco do City passou por mudanças importantes nos últimos anos, com jogadores fundamentais da era Guardiola deixando o clube. Por isso, a missão de Maresca não será simplesmente copiar o treinador que o antecedeu. Será entender o que precisa permanecer, o que precisa mudar e como transformar a equipe em uma nova versão do Manchester City.

A pergunta, portanto, não é apenas se Enzo Maresca conseguirá substituir Guardiola. É se ele será capaz de herdar uma dinastia e construir algo próprio a partir dela.

Luis Enrique mostrou que a sucessão pode funcionar

Luis Enrique, Barcelona. Foto: Manu Fernandez/Associated Press.
Luis Enrique, Barcelona. Foto: Manu Fernandez/Associated Press.

 

A primeira experiência de Guardiola como treinador profissional aconteceu justamente no Barcelona B, e seu sucessor naquele cargo foi ninguém menos que Luis Enrique. O espanhol assumiu a equipe em 2008, depois do trabalho que colocou Guardiola no caminho da transformação do futebol do Barcelona, e conseguiu dar continuidade ao processo.

A transição foi especialmente importante porque Enrique conhecia profundamente o clube. Ex-jogador do Barcelona, ele havia encerrado a carreira na Catalunha depois de também ter defendido o Real Madrid. Ao assumir o time B, chegou a resumir o sentimento com uma frase simples: “Eu voltei para casa”.

Seu trabalho também produziu resultados. O Barcelona B conseguiu a promoção para a Segunda Divisão e chegou a disputar os playoffs da competição em 2010/11, embora não pudesse participar da fase decisiva.

Entre os jogadores que passaram por suas mãos estavam Sergi Roberto, Marc Bartra e Thiago Alcântara. O técnico deixou o clube em 2011 para assumir a Roma, mas sua passagem mostrou que era possível suceder Guardiola sem destruir aquilo que havia sido construído.

E talvez exista uma lição importante para Enzo Maresca aí: conhecer a cultura do clube e compreender a ideia anterior pode ser tão importante quanto apresentar novas ideias.

Tito Vilanova teve a transição mais natural

Tito Vilanova, Barcelona. Foto: Manuel Queimadelos Alonso/Getty Images.
Tito Vilanova, Barcelona. Foto: Manuel Queimadelos Alonso/Getty Images.

 

Se existe um exemplo ainda mais próximo do que o Manchester City gostaria de conseguir, é o de Tito Vilanova. Quando Guardiola deixou o Barcelona em 2012, o clube escolheu justamente seu braço direito para assumir o comando. A expectativa era enorme. Afinal, Guardiola havia conquistado 14 títulos importantes em quatro temporadas, incluindo duas Champions League e três títulos espanhóis.

Além disso, o Barcelona chegava ao fim daquele ciclo depois de uma temporada desgastante, marcada pela disputa com o Real Madrid de José Mourinho.

Vilanova, entretanto, não tentou reconstruir tudo. A transição foi natural. O treinador manteve boa parte da estrutura e começou sua passagem com resultados impressionantes: venceu 23 dos primeiros 25 jogos de La Liga e conduziu o Barcelona ao título nacional com 100 pontos, igualando o recorde estabelecido pelo Real Madrid na temporada anterior.

Seu trabalho, infelizmente, foi interrompido de maneira cruel pela doença que o levou à morte em 2014, aos 45 anos. O declínio do Barcelona no período pós-Guardiola só se tornou mais evidente posteriormente, com passagens de treinadores como Ronald Koeman e Quique Setién.

Para Enzo Maresca, o caso de Vilanova oferece talvez a principal lição: quando existe uma estrutura vencedora, o sucessor não precisa necessariamente reinventá-la imediatamente.

Ancelotti mostrou o outro lado da história

Carlo Ancelotti, Bayern. Foto: Alexander Hassenstein/Bongarts/Getty Images.
Carlo Ancelotti, Bayern. Foto: Alexander Hassenstein/Bongarts/Getty Images.

 

Nem todas as sucessões, porém, funcionam dessa maneira. No Bayern de Munique, Guardiola assumiu uma equipe que vinha de uma temporada histórica sob o comando de Jupp Heynckes. O clube havia conquistado três títulos consecutivos da Bundesliga e duas Copas da Alemanha, além da Champions League de 2013.

O espanhol conseguiu manter o domínio doméstico, mas não alcançou o principal objetivo continental. Depois de três eliminações consecutivas nas semifinais da Champions League, deixou o clube com a sensação de que algo havia ficado pelo caminho.

Para substituí-lo, o Bayern escolheu Carlo Ancelotti, um treinador com enorme experiência e três títulos da Champions League no currículo. A escolha fazia sentido. Ancelotti tinha conhecimento suficiente para mexer na equipe sem necessariamente destruir a estrutura construída por Guardiola, Heynckes e Louis van Gaal.

O problema foi justamente a adaptação: o Bayern continuou dominante na Alemanha, mas caiu nas quartas de final da Champions para o Real Madrid. Na temporada seguinte, a relação entre Ancelotti e parte do elenco se deteriorou rapidamente. Thomas Müller, por exemplo, afirmou que não se sentia valorizado pelo treinador.

A abordagem mais flexível do italiano também contrastava com o nível de detalhamento característico de Guardiola. Em setembro de 2017, depois da derrota por 3 a 0 para o PSG, Ancelotti acabou demitido.

O caso mostra que um grande treinador não necessariamente é o sucessor ideal para uma grande equipe. A capacidade de administrar um elenco vencedor e, principalmente, compreender a cultura tática criada pelo antecessor também pesa.

Onde começa o desafio de Enzo Maresca?

Enzo Maresca, Manchester City. Foto: Imago/PA Images
Enzo Maresca, Manchester City. Foto: Imago/PA Images

 

Enzo Maresca tem uma vantagem que poucos sucessores poderiam ter: ele conhece Guardiola por dentro. O italiano trabalhou como auxiliar do espanhol no Manchester City antes de iniciar sua trajetória como treinador principal. Isso significa que ele conhece não apenas os princípios de jogo do clube, mas também a rotina, os métodos de treinamento e a maneira como Guardiola trabalha seus jogadores.

Ao mesmo tempo, não seria razoável esperar que Maresca simplesmente reproduzisse o futebol de Guardiola. O Manchester City já não é exatamente o mesmo time que dominou a Inglaterra e a Europa durante boa parte da última década. Algumas das principais referências daquele ciclo deixaram o clube, enquanto outras estão em fases diferentes de suas carreiras.

Esse cenário cria uma diferença importante em relação ao Barcelona de Vilanova. Maresca não recebe uma equipe completamente pronta para continuar funcionando da mesma maneira. Ele recebe uma equipe em transformação. E isso pode ser justamente sua maior oportunidade.

Se Vilanova conseguiu preservar uma estrutura vencedora e Ancelotti encontrou dificuldades para adaptar sua filosofia a um grupo acostumado a outro nível de controle, Enzo Maresca terá de encontrar um meio-termo: preservar a identidade do Manchester City sem ficar preso ao passado.

A missão é enorme. Guardiola não deixou apenas títulos no Etihad Stadium. Deixou uma cultura, uma forma de jogar e um padrão de exigência que transformaram o Manchester City em uma das principais referências do futebol mundial. Maresca, portanto, não precisa ser o novo Guardiola.

Precisa ser o primeiro Maresca do Manchester City, e talvez seja justamente essa a única maneira de transformar o chamado “trabalho impossível” em uma nova era.

Créditos da foto de capa: Glyn Kirk/AFP via Getty Images