Os heróis europeus do Aston Villa já fazem parte da história do clube. Em maio, a equipe encerrou uma espera de 30 anos por um título ao conquistar a Europa League diante do Freiburg. Poucos meses depois, porém, boa parte daquele time pode estar longe do Villa Park.
A iminente saída de Ezri Konsa para o Arsenal, em uma negociação que pode chegar a 51 milhões de libras, é o capítulo mais recente de um processo de reformulação que ganhou força nesta janela de transferências. Ao todo, até seis titulares da equipe que começou a final em Istambul podem deixar o clube.
Os primeiros nomes de peso foram Youri Tielemans e Morgan Rogers. Os dois participaram da decisão europeia, mas deixaram o Villa no mês passado. No caso de Rogers, o Chelsea pagou 117 milhões de libras, valor que estabeleceu um novo recorde para um jogador inglês.
Lucas Digne também foi negociado com o Paris Saint-Germain, enquanto o Villa ainda precisa resolver a situação de Emiliano Martínez. O goleiro esteve próximo de uma transferência para a Juventus, que não se concretizou, e o clube já contratou Zion Suzuki para a posição.
O Al-Hilal também pode voltar a tentar a contratação de Ollie Watkins antes do fechamento da janela, em 1º de setembro. O Villa, por sua vez, trabalha em um novo contrato para tentar manter o atacante.
Caso todas essas movimentações se concretizem, apenas Matty Cash, Pau Torres, Victor Lindelöf, John McGinn e Emiliano Buendía permanecerão entre os jogadores que começaram a final da Liga Europa.
Por que o Aston Villa é um clube vendedor?

A necessidade de vender não é exatamente uma novidade para o Aston Villa. O clube convive há alguns anos com a necessidade de equilibrar ambição esportiva e regras financeiras, principalmente depois de retornar à Liga dos Campeões.
Na Europa, o Villa precisa respeitar o limite de custos de elenco da UEFA, que restringe os clubes a gastar até 70% de suas receitas relacionadas ao futebol com salários, comissões, transferências e outros custos ligados ao elenco.
O problema é que o clube já foi punido duas vezes pela entidade. No ano passado, recebeu uma sanção de 9,5 milhões de libras e, em junho, foi novamente multado em 19,4 milhões de libras, embora 12,9 milhões de libras tenham sido suspensos após um acordo com o órgão regulador.
As regras de Lucro e Sustentabilidade da Premier League também exerceram pressão sobre o clube, estabelecendo um limite de 105 milhões de libras em perdas em um período de três anos.
Nas contas encerradas em junho de 2025, o Villa apresentou lucro após impostos de 17 milhões de libras. Os dois anos anteriores, porém, registraram prejuízos de 119,6 milhões de libras em 2023 e 85,4 milhões de libras em 2024.
Com a chegada do novo sistema de controle de custos, que aproxima as regras da Premier League das exigências da UEFA, a margem de manobra do Villa ficou ainda menor.
“É uma necessidade por causa das regras. As questões do PSR e da SCR são bem documentadas. Parece um pouco injusto que eles estejam tendo a ambição limitada a esse nível. Mas isso forçou uma grande mudança de jogadores, o que é lamentável.” — foi o que disse um dos executivos do Villa em entrevista para a BBC.
A situação ficou ainda mais evidente nesta janela por causa do peso dos nomes que estão deixando o clube.
Nos últimos dois anos, o Villa arrecadou pouco mais de 200 milhões de libras com as vendas de Jhon Durán, por 71 milhões de libras; Douglas Luiz, por 42,5 milhões; Jacob Ramsey, por 40 milhões; e Moussa Diaby, por 50 milhões.
Nesta janela, o valor já chega a aproximadamente 212 milhões de libras caso a transferência de Konsa seja concluída. A lista inclui até Lewis Dobbin, negociado com o Southampton por 9 milhões de libras sem sequer ter disputado uma partida pela equipe principal do Villa.
A própria base também se tornou uma fonte importante de receita. Jaden Philogene e Cameron Archer foram recomprados pelo clube antes de serem novamente negociados, enquanto Aaron Ramsey deixou o Villa para o Burnley por 12 milhões de libras em 2023.
Existe ainda um efeito esportivo nessa estratégia. Quando o Villa voltou à Champions League em 2024, o clube reconheceu internamente que seria mais difícil abrir espaço para jogadores formados na academia. Isso tornou as vendas de jovens promessas uma alternativa cada vez mais importante.
O título europeu não mudou a realidade financeira

O cenário ajuda a explicar por que o Aston Villa não consegue acompanhar financeiramente os principais clubes da Premier League. Na temporada passada, por exemplo, o clube gastou 71 milhões de libras em transferências. Manchester City, Chelsea e Arsenal ultrapassaram a marca de 200 milhões, enquanto o Wolverhampton, último colocado do campeonato, gastou 109 milhões.
É justamente esse contexto que sustenta o discurso de Unai Emery de que o Villa ainda não faz parte da elite financeira do futebol inglês.
O clube chegou a passar meses trabalhando na contratação de Conor Gallagher, mas acabou vendo o Tottenham fechar o negócio em janeiro.
A venda de Rogers ao Chelsea, por 117 milhões de libras, acabou sendo uma das maneiras mais diretas de o Villa aliviar a pressão causada pelas regras financeiras da UEFA. Desse modo, o plano definido após a primeira punição é claro: o clube precisa alcançar o equilíbrio financeiro na temporada 2026/27.
E há um detalhe importante nessa conta. A campanha até as quartas de final da Liga dos Campeões em 2024/25 rendeu quase 70 milhões de libras ao Villa e foi determinante para que o clube apresentasse lucro em suas contas mais recentes.
A conquista da Liga Europa também trouxe retorno financeiro. O título garantiu cerca de 45,6 milhões de libras, incluindo o valor mínimo relacionado à classificação para a próxima edição da Champions League.
Ou seja, mesmo o sucesso esportivo não elimina o problema. Pelo contrário: enquanto o Villa cresce dentro de campo, as exigências financeiras continuam obrigando o clube a fazer escolhas difíceis fora dele.
Emery continua sendo a principal esperança
Apesar das saídas, o ambiente no Villa ainda é de otimismo. A derrota para o PSG na Supercopa, na semana passada, mostrou que a equipe continua competitiva e que Emery mantém capacidade para adaptar o time às mudanças. O treinador convive com esse processo desde que chegou ao clube, há três anos e meio, e conseguiu elevar constantemente o nível do Villa depois de assumir uma equipe que estava em 14º lugar sob o comando de Steven Gerrard.
Na Áustria, John McGinn destacou justamente a permanência do treinador como um dos fatores de confiança para a nova temporada. Enquanto Manchester City, Liverpool e Chelsea iniciam novos ciclos com outros comandantes, a estrutura do Villa continua nas mãos de Emery.
“Temos uma estrutura, padrões e regras que nos tornaram um sucesso. Estou realmente animado com o novo Aston Villa”, afirmou o capitão.
Garotada vem forte?
Essa renovação também passa pela chegada de jogadores mais jovens. Brian Madjo é um dos exemplos mais interessantes. Depois de o Villa vencer uma disputa com a FIFA para conseguir registrá-lo, o atacante de 17 anos fez sua estreia contra o PSG e marcou oito meses depois de ter sido contratado do Metz por cerca de 10 milhões de libras. Ele pode ser uma das surpresas da temporada.
A busca por jogadores mais jovens ganhou força depois que Roberto Olabe substituiu Monchi, em setembro do ano passado, como responsável pelas operações de futebol. A ideia passou a ser trabalhar com um projeto de médio e longo prazo no mercado.
Nesta janela, chegaram jogadores como João Gomes, de 25 anos, Zion Suzuki, de 23, e Matteo Ruggeri, de 24. Antes deles, Johan Manzambi, de 20 anos, havia se tornado a contratação mais cara da história do clube.
O Villa também teve uma proposta de 18 milhões de libras rejeitada pelo Southampton por Taylor Harwood-Bellis, de 24 anos.
Além disso, o clube aposta em negócios que permitam diluir os custos. A chegada de Alejandro Garnacho, por empréstimo com obrigação de compra, é um exemplo. Aaron Wan-Bissaka também deve seguir caminho semelhante em uma possível transferência do West Ham.
O problema é que esse modelo coloca o Villa em uma espécie de cadeia de transferências, na qual a chegada de determinados jogadores depende da saída de outros.
“Às vezes, eles podem estar no fim de uma cadeia de transferências, com os jogadores envolvidos e seus objetivos de mercado dependendo de outras mudanças acontecerem primeiro”, explicou o ex-executivo do clube.
No fim das contas, porém, o maior trunfo do Aston Villa continua sendo Emery. O espanhol já precisou reconstruir a equipe anteriormente e conseguiu fazê-la alcançar um nível que poucos imaginavam quando assumiu o cargo.
Agora, o desafio é ainda maior: reconstruir um time que acabou de conquistar um título europeu sem perder a competitividade que o levou até lá.
“Há muita esperança e ambição no treinador. Ele é a carta principal que eles têm e todos esperam que, com a experiência e o conhecimento dele, consigam se virar”, afirmou o ex-executivo.
A pressão, entretanto, será enorme. O Villa conseguiu transformar limitações financeiras em crescimento esportivo nos últimos anos. Agora, Emery terá de fazer o mesmo em uma escala ainda maior, enquanto vê alguns dos principais jogadores de sua equipe campeã deixarem o clube.
Se conseguir, talvez essa seja uma das maiores conquistas de sua passagem pelo Villa Park.
Créditos da foto de capa: Reprodução/Aston Villa FC via site oficial



