O Atlético-MG pode aceitar a derrota para o São Paulo. O momento da temporada permite isso. No meio de uma sequência decisiva pelas competições mata-mata, com a classificação para a semifinal da Copa do Brasil recém-conquistada e o Santos pela frente na Sul-Americana, preservar jogadores importantes era uma escolha compreensível. O problema não está no 2 a 0 sofrido no Morumbis.
Está no que a partida revelou. Com uma escalação modificada, o Atlético teve enormes dificuldades para competir durante boa parte dos 90 minutos. Foram mais de 20 finalizações do São Paulo contra apenas quatro do Galo, que terminou o primeiro tempo sem conseguir sequer finalizar até os 42 minutos.
Uma derrota isolada não muda o cenário de uma equipe que vinha de 14 jogos sem perder. Mas uma atuação como essa oferece informações importantes para Eduardo Domínguez, especialmente porque o calendário ainda exigirá muito do elenco.
O Atlético sentiu demais a ausência dos titulares
Não é novidade que jogadores importantes fazem diferença. O que chamou atenção no Morumbis foi o tamanho dessa diferença. O Atlético-MG tentou manter seu modelo mesmo com mudanças na escalação, mas não conseguiu reproduzir a intensidade e a qualidade que vinha apresentando com seus principais jogadores.
A pressão do São Paulo desmontou a saída de bola atleticana. O meio-campo encontrou dificuldades para receber, os atacantes ficaram isolados e o time passou longos períodos sem conseguir avançar no campo.
Reinier começou mais centralizado, enquanto Bernard e Cuello ocupavam os lados. Sem um centroavante de ofício, porém, faltou uma referência para prender os zagueiros e dar continuidade às poucas bolas que chegavam ao ataque.
O resultado foi um Atlético que defendia muito e atacava pouco. Isso não significa que Domínguez errou ao preservar jogadores. Significa que o treinador recebeu uma resposta sobre o quanto seu time consegue manter o nível quando precisa recorrer a uma formação alternativa.
E a resposta não foi das melhores.
O segundo tempo mostrou que havia soluções, mas não suficientes
Domínguez tentou corrigir o cenário depois do intervalo. Fred, Cassierra e Vitor Hugo entraram para aumentar a qualidade da equipe, enquanto Bernard, Castaño e Reinier deixaram o campo. O Atlético-MG passou a ter mais presença com a bola e conseguiu respirar um pouco mais no campo ofensivo.
A mudança confirmou uma impressão importante: o problema não era apenas coletivo. A qualidade individual também pesava. Com jogadores mais preparados para aquele tipo de partida, o Atlético conseguiu circular melhor e incomodar um pouco mais.
Mas a alteração também criou outro problema.
Alan Franco passou a atuar mais centralizado ao lado de Alexsander, e os corredores ficaram mais expostos. O São Paulo percebeu rapidamente o espaço e passou a explorar os lados do campo com ainda mais frequência.
Foi justamente por ali que surgiram os caminhos para os dois gols. O Atlético ganhou qualidade para atacar, mas perdeu equilíbrio para defender.
O São Paulo expôs uma fragilidade que o calendário pode cobrar
Esse talvez seja o ponto mais preocupante. O Atlético vai precisar rodar o elenco novamente. Não há como disputar Brasileirão, Copa do Brasil e Sul-Americana mantendo os mesmos jogadores em todas as partidas.
Por isso, ter reservas capazes de entrar e sustentar o modelo não é um luxo. É uma necessidade. O problema é que, contra o São Paulo, o time alternativo não conseguiu sequer competir em condições equilibradas durante o primeiro tempo.
É verdade que o contexto ajuda a explicar a atuação. Domínguez tinha motivos para pensar no Santos e não precisava transformar o Brasileirão em prioridade absoluta naquele momento.
Mas o futebol também funciona como teste. E o São Paulo mostrou que, quando consegue pressionar uma equipe que não tem a mesma qualidade para sair jogando, pode controlar completamente o confronto.
O Atlético precisa encontrar respostas para esse tipo de cenário antes que ele apareça em uma partida na qual não exista a possibilidade de tratar a derrota como aceitável.
A dependência dos principais jogadores merece atenção
Existe uma diferença entre ter titulares melhores e depender excessivamente deles. Todo grande time possui jogadores que elevam o nível coletivo. A questão é saber quanto desse nível permanece quando três ou quatro deles são retirados simultaneamente.
O Atlético descobriu que essa distância ainda é considerável. Fred e Cassierra descansaram parte do jogo e entraram depois. Outros titulares também foram preservados. A estratégia pode funcionar perfeitamente ao longo da temporada, desde que o time consiga escolher os momentos certos para fazer isso.
Mas o calendário não permite controlar todas as circunstâncias. Lesões, suspensões e desgaste podem obrigar Domínguez a escalar uma formação semelhante à que enfrentou o São Paulo em uma partida muito mais importante.
Por isso, a derrota precisa ser usada como diagnóstico. O Galo não precisa entrar em pânico. Precisa trabalhar.
A derrota é administrável; a informação, nem tanto
O Atlético continua em boa posição nas competições que realmente podem definir o tamanho da temporada. A eliminação do Cruzeiro colocou o time na semifinal da Copa do Brasil, enquanto a Sul-Americana ainda oferece outro caminho para um título. No Brasileirão, a derrota não alterou significativamente sua situação.
Por esse motivo, seria exagerado transformar o resultado no Morumbis em crise. Mas também seria um erro simplesmente descartá-lo.
A partida mostrou que existe uma diferença importante entre o Atlético titular e o Atlético alternativo. Mostrou também que, quando a equipe perde qualidade na saída e intensidade para pressionar, seu modelo fica muito mais vulnerável.
Domínguez terá tempo para corrigir algumas dessas questões, mas não terá tempo para ignorá-las. Nas próximas semanas, o Atlético precisará justamente da profundidade que faltou diante do São Paulo.
E é aí que essa derrota aparentemente inofensiva pode ganhar importância.
O Atlético pode aceitar perder no Morumbis porque o calendário justificava o risco. O que não pode aceitar é descobrir, em uma decisão, que seu modelo só funciona quando os principais jogadores estão em campo.
A derrota não compromete a temporada.
Mas revelou uma pergunta que Domínguez terá de responder antes que ela deixe de ser apenas uma preocupação: até onde o Atlético consegue competir quando não pode contar com sua força máxima?
Essa resposta pode valer muito mais do que os três pontos que ficaram em São Paulo.
Foto: Pedro Souza / Atlético / Divulgação



